Conheça a história por trás da canções 'Paula e Bebeto' e 'Leo e Bia'

A história do namoro desfeito de Bebeto e Paula fez com que Milton Nascimento e Caetano compusessem, em 1975, uma música de 'protesto' contra o fim do amor. Já 'Leo e Bia' foi presente de casamento

por Ailton Magioli 12/06/2015 09:30

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Edésio Ferreira/EM/D. A PRESS
(foto: Edésio Ferreira/EM/D. A PRESS)
Em 1975, Milton Nascimento convidou o amigo Carlos Alberto Pinto Gouvêa, o Bebeto, para fazer backing vocal nas canções 'Saudades dos aviões da Panair' e 'Leila', do álbum 'Minas', que estava sendo gravado no estúdio carioca da EMI Odeon. Bebeto, que é natual de Três Pontas, no Sul de Minas, rumou para o Rio de Janeiro.

Quando chegou lá, “Bituca foi falando a relação das canções: 'Minas', 'Fazenda', 'Beijo partido', 'Paula e Bebeto'. Quase morri de emoção”, recorda. Bebeto já sabia que Milton havia composto uma melodia em “protesto” contra o fim de seu namoro de adolescência com Paula. Mas não sabia que ela já havia ganho uma letra – e ainda escrita por Caetano Veloso.

Reza a lenda que, no início de uma noite daquele 1975, Milton Nascimento tocou à porta de Caetano Veloso aos prantos. A emoção vinha da história de amor do ex-casal que ele havia conhecido na cidade do Sul de Minas. ‘‘Eles se amam de qualquer maneira, vera/Eles se amam e pra vida inteira, vera/Qualquer maneira de amor vale o canto...’’

A princípio, a letra teria a assinatura de Márcio Borges, um dos parceiros mais constantes de Milton, ao lado de Fernando Brant. Milton entregou a melodia a Borges. Mas, “como um Pôncio Pilatos, lavou as mãos e entregou-a também a Caetano”, diz Borges, em tom de brincadeira.

“Caetano me ligou e, pouco depois, escreveu aquela maravilha. Ele já sabia a canção todinha”, elogia Borges, que não se imagina como tendo sido capaz de escrever uma boa música sobre Paula e Bebeto, dada a sua amizade com o ex-casal. “Provavelmente, ela não teria sequer o mesmo título. Seria algo do tipo 'Os sonhos', 'As cores'...”, diverte-se o letrista, ressaltando que, “direto, reto, sincopado, Caetano Veloso matou a pau”.

Fonte de inspiração de Milton e Caetano, Paula, então com 15 anos, e Bebeto, com 17, chegaram a noivar antes do fim do namoro. “Algo surreal para a época, na cidade em que vivíamos”, diz Bebeto.

De acordo com a história que Bebeto conhece, Caetano recebeu o emocionado amigo naquela noite e, em algumas horas, os dois fizeram a canção. Depois de ouvi-la, Beth, irmã de Bituca, supôs que a música impulsionaria o casal a reatar o namoro, algo que, no entanto, jamais ocorreu.

Eternizada na voz cristalina de Gal Costa, a primeira a gravar 'Paula e Bebeto', a música ainda hoje desperta emoções em seu ‘‘muso’’ inspirador. “A canção que me botou famoso é um pedaço da alma que Bituca deu para mim”, diz  Bebeto, casado há 34 anos com a artesã Ruth Torres Debrot, 51. Acostumada a ser tomada por Paula, Ruth, a mulher de Bebeto, não se incomoda com a confusão. “Quando nos conhecemos, a canção já existia”, diz ela. Ruth e Bebeto são pais de Thiago, de 33 anos, André, 30, e Felipe, 23. Bebeto é também avô de uma garotinha de 5 meses, filha de Maria Fernanda, 36, fruto de seu primeiro casamento, ocorrido pouco após o fim do namoro com Paula, que, hoje também casada, vive em Belo Horizonte. Procurada pela reportagem, Paula preferiu não dar entrevista. Como faz questão de lembrar Bebeto, se ele e Paula não tivessem se separado, não haveria música.

De acordo com Márcio Borges, 'Paula e Bebeto' não é a única canção de amor inspirada em fatos reais que Milton Nascimento compôs. “Uma das três canções que ele classificou no Festival Internacional da Canção (FIC 1967), ao lado de Travessia e Morro Velho, Maria minha fé (“Quase triste/Em meio à noite/Uma voz/Cantando amor/Um carinho em cada frase...”) foi feita por Bituca para Maria Amélia Boechat, também de Três Pontas.

“Ele escreveu a canção como uma declaração de amor a ela”, revela o letrista, salientando que essa foi feita única e exclusivamente pelo parceiro, que a gravou em seu disco de estreia.

'Leo e Bia' foi presente de casamento

'Leo e Bia', de Oswaldo Montenegro, também foi feita para personagens reais, como um presente de casamento ao casal-título, amigo do compositor. “A outra fonte de inspiração foi a frieza arquitetônica de Brasília, que parecia não admitir qualquer tipo de romance. Uma cidade planejada, parecendo um imenso autorama, e que, na verdade, abrigava pessoas de carne e osso, com sentimentos comuns a todos os seres humanos”, recorda o autor de Agonia e Bandolins.

“Leo e Bia é isso, um casal apaixonado naquelas ruas imensas, numa secura inconcebível, num planalto que parecia fora do mundo. Preciso deixar claro que a história do musical, que depois gerou o filme homônimo, não tem nada a ver com o casal que inspirou a canção. Eles apenas me deram permissão pra que usasse seus nomes e a música que lhes dei de presente num roteiro que em nada se assemelha às sua vidas”, diz Oswaldo Montenegro.

O compositor comenta que se sentiu lisonjeado quando um casal de girafas do Jardim Zoológico de Brasília foi batizado de Leo e Bia. “Acho legal, morri de rir.” Em sua opinião, o amor – não apenas o romântico – sempre será tema de inspiração para artistas. “O afeto é a única coisa que vale a pena e, como tal, vai ser sempre inspiração de obras de arte. Por que é que, entre tanta gente, duas pessoas se escolhem? Que química é essa, que independe de qualidades e defeitos?”, interroga-se o compositor, que classifica o tema como fascinante.



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