Músicos contam os segredos das músicas ao estilo new age

Para artistas que se dedicam ao gênero, seguir as emoções e evitar a racionalização é bom método para obter resultado artístico, mas que também relaxa e acalma o ouvinte

por Eduardo Tristão Girão 07/06/2015 10:00

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Janey Costa
(foto: Janey Costa)
O compositor mineiro Marcus Viana está em cima de uma árvore. É de lá que dá a entrevista, pelo celular. “Estou aqui para curar uma dor ciática. Toda vez que subo, a dor para. Nem tomo mais anti-inflamatório. Acho que essa aqui é um flamboyant, uma daquelas árvores fortes que esparramam em vez de ficarem altas. Todo mundo sobe nela, inclusive as crianças. Isso é música new age”, diz ele. A definição desse controverso estilo musical parece vaga demais, mas talvez seja isso mesmo.


As pessoas procuram discos nessa seção das lojas porque querem relaxar, meditar, curar doenças, acalmar o coração ou qualquer outro propósito ligado ao bem-estar. Já os compositores bebem nas mais variadas fontes, valendo-se tanto de instrumentos étnicos antigos (percussão andina, flauta chinesa etc) quanto de sofisticados teclados e programas para orquestrar e criar camadas sonoras no computador. Definitivamente, não é como escrever uma balada ou um samba. Mas, então, como nasce uma composição new age?

Viana, que é multi-instrumentista e costuma compor ao piano ou teclado, tenta responder: “Comecei a descobrir que minhas melhores peças eram feitas em estado de abstração, ausência de racionalidade. Notei que quanto menos pensava, melhor ficava. O que não era ensaiado ficava mais avançado”. Ele, que se consagrou com rock progressivo e trilhas sonoras, conta que, inesperadamente, o new age passou a ser segmento de maior sucesso em sua carreira – e puxa as vendas de seu selo, o Sonhos & Sons.

CACHOEIRA
Seu disco 'Ethereal preludes', segundo ele cita, é exemplo de como a falta de previsão pode ser benéfica para certos tipos de música: “Descobri ‘lixo atômico’, num computador meu, música que eu ficava tocando para relaxar, às vezes enquanto esperava uma reunião, por exemplo. Coloquei nesse disco, que fez sucesso lá fora e até me ligaram para tocá-lo numa sala de concerto na Alemanha. Morri de rir. Não pude fazer porque não seria capaz de tocar aquilo outra vez, a cachoeira não fluiria de novo. Até hoje, o produtor não entendeu e acha que sou difícil”.

O envolvimento dele com o estilo começou no final dos anos 1980, quando estava montando seu próprio estúdio e, empolgado, reorquestrou temas natalinos de vários países para surpreender a família no fim do ano. Pouco depois, fez a trilha da novela 'Pantanal' (1990), que considera “muito new age”: “Tinha tuiuiu voando, as pessoas falavam que relaxavam enquanto a assistiam. Já a trilha que fiz para a novela O clone tem um toque world music, mas também é tremendamente new age”. Quando deu por si, estava compondo para praticantes de reiki.

Ele se sente bem por fazer um tipo de música que seja útil e acredita que apenas boa intenção, nesse ramo, não basta. “Tem muita gente que é terapeuta, bota um tecladinho e solta coisas coloridas e bonitas no mercado, mas com pouca essência musical. Faço essa avaliação do ponto de vista de um artista. Tem muita porcaria por aí. Os teclados são maravilhosos, cada um faz o que quer e, tendo estrutura boa e um bom administrador, você se lança no mercado. A maioria das pessoas é bem intencionada, mas a qualidade não é boa.”

Viana acha que o abuso dos teclados (que reproduzem instrumentos reais) pasteuriza a música new age, mas há quem aposte na convivência “pacífica” com a alta teconologia. Um deles é o compositor paulistano Corciolli, outro nome de peso na cena nacional. Ele acaba de lançar seu 33º disco, Infinito, incluindo temas próprios, releituras (de Villa-Lobos, Tom Jobim, Dolores Duran e Lamartine Babo) e participação de músicos como o violinista Leonardo Padovani, que toca um instrumento chinês secular, o erhu.

“Meu som sempre foi identificado como ambient music, com relação forte com imagens e cenários. Produzi trilhas sonoras, e isso teve impacto na minha maneira de compor. Essas novas composições refletem situações da condição humana, ou seja, nossas emoções mais simples, que são as mais profundas. Fiz um apanhado de canções que retratavam momentos e tinham significado para mim. Escolhi também algumas do cancioneiro brasileiro e as traduzi para esse contexto sonoro diferente, essa mistura de acústico e eletrônico”, diz.

Se o ouvinte acha que o que ele toca é new age, crossover ou simplesmente instrumental, para o músico pouco importa. O mais importante nesse segmento, acrescenta, é saber fazer encaixes: “Como é música orquestral, há várias camadas. Se você não coloca o efeito certo, como um eco, não consegue a profundidade necessária para que a pessoa sinta a música saindo da caixa de som. Profundidade é muito importante para esse caráter etéreo. É um trabalho de artesão, minucioso”, explica Corciolli. O ideal é ouvir sua música no fone de ouvido, recomenda.

Ele trabalha com piano e sintetizadores novos e antigos (seu xodó é um Minimoog). Já chegou a ter 16 instrumentos sendo usados simultanemente e, hoje, reduziu para oito. “Fui refinando para ver do que realmente precisava. Os instrumentos são ferramentas de criatividade, e eu poderia fazer um disco inteiro com um sintetizador só. Saxofone, violino e voz humana são os sons mais difíceis de reproduzir no teclado, mas tudo depende da habilidade de quem está tocando”, conclui.

TERAPIA Para o compositor gaúcho Keco Brandão, que transita tanto pela MPB quanto pela música new age, é direta a relação entre esse último estilo e seu caráter terapêutico, o que orienta decisivamente a música que escreve. “Sempre vai existir um objetivo, seja relaxar, ativar pontos energéticos do corpo, concentração em meditação etc. Por isso, minha referência sempre é o meu coração. Se eu estiver causando em mim mesmo a sensação que estou buscando, os outros certamente sentirão”, resume.

Isso significa, por exemplo, que se ele estiver desenvolvendo projeto de um disco para cura por meio de cores, terá de dedicar parte de seu tempo a compreender a função de cada uma para que fique claro qual tonalidade musical usar. “Por aí vai a criação”, diz. Em casos como esse, uma pesquisa antecede o processo musical, que em seu estúdio envolve tanto plataformas digitais quanto instrumentos reais e a voz. Para mim, o verdadeiro significado da música é a cura”, afirma.

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