José Miguel Wisnik e Ésper Cavalheiro inauguram ciclo de palestras sobre arte e ciência

Compositor e neurocientista abordam o efeito dos estímulos musicais no cérebro

por Eduardo Tristão Girão 03/06/2015 08:30

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RENATO STOCKLER/DIVULGAÇÃO
O músico e escritor José Miguel Wisnik, que participa hoje de debate no CCBB e faz show com Ná Ozzetti no próximo dia 28, em BH (foto: RENATO STOCKLER/DIVULGAÇÃO)
Em 1989, o escritor e compositor José Miguel Wisnik publicou o livro O som e o sentido (Companhia das Letras), sobre como os fênomenos sonoros são recebidos pelo ouvido e interpretados pelo cérebro. Na época, estava fortemente motivado pelas aulas sobre música que havia dado nos anos anteriores e que se tornaram possíveis no formato que ele imaginava graças à popularização do teclado, “o piano portátil”.

“Estava convicto de que, com exemplos concretos, era possível falar de música para leigos. O ouvido é um instrumento que todos nós praticamos, em diferentes níveis”, afirma Wisnik. Ainda bastante interessado no assunto, ele participa hoje em Belo Horizonte da mesa que abre o ciclo de debates Arte & Ciência, promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil, com entrada franca. Wisnik discutirá o tema “A mente e o poder da música” com o neurocientista Ésper Cavalheiro. A mediação é do filósofo e diretor teatral Luiz Carlos Garrocho. O evento prevê debates sempre às primeiras quartas do mês, até dezembro.

“Ésper tem mostrado como a prática musical ativa zonas do cérebro ligadas ao fazer música, inclusive transformando fisicamente o cérebro. Muitas perguntas nascem disso, e eu ainda não consegui fazer todas as que quero. Por exemplo, se a música desenvolve áreas específicas do cérebro, para que servem essas áreas quando não pela música? Ou seja, quais são as vantagens do ensino da música em escolas? E qual é a relação da música com a memória? Por que guardamos melhor um texto ritmado do que um outro qualquer? Onde está sediado o estúdio de gravação do cérebro?”, diz Wisnik.

Ele relata que Ésper também tem se mostrado interessado pelos pontos de vista que esse debate permite a partir da música. O momento atual é de interesse mútuo entre música e ciência e não permite fechar conclusões: “A música é muito emocional e também está relacionada às relações numéricas. Há na gente um computador funcionando na recepção da música, mas também ativando emoções. Ela é a arte que mais provoca amores e ódios, é invasiva. O Ésper falou que a música se localiza numa zona do cérebro relacionada à marcação de território, na qual estabelecemos lugares em que nos sentimos protegidos”.

SHOW Ainda este mês (dia 28), Wisnik voltará à capital mineira. Ao lado da cantora Ná Ozzetti, mostrará canções do primeiro disco que gravaram juntos, o recém-lançado Ná e Zé, no Teatro Francisco Nunes. “Há 30 anos eu e ela começamos uma parceria. Ela cantou músicas minhas, participou de discos meus, tocamos juntos em shows, mas nunca tínhamos feito um álbum só nosso. Pegamos músicas de várias épocas, muitas inéditas. O modo como foi feito e a sonoridade evocam coisas do passado, mas é um trabalho contemporâneo. Não tem nada de saudosista. As músicas não parecem datadas”, avalia.

Entre os trabalhos que tem gostado de ouvir ultimamente, estão os de artistas radicados em Minas Gerais, como Kristoff Silva e Makely Ka. “Kristoff tem personalidade de compositor muito original, com senso melódico muito próprio e abertura para exploração sonora, além de ser instrumentista e cantor incrível. Tem abertura inquieta para a música, faz uma coisa sofisticada e insatisfeita. Já Makely tem aquela coisa de poeta. Isso se refere à linguagem muito própria, criação poética e ao ambiente em que ele produz. A viagem roseana que ele fez é muito estimulante para mim, coisa de quem está em movimento”, avalia.

Arte & Ciência

Debate


“A mente e o poder da música”, com Ésper Cavalheiro e José Miguel Wisnik, com mediação de Luiz Carlos Garrocho. Hoje, às 19h30, no auditório do Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Savassi).
Informações: (31) 3431-9400.
Entrada franca (as senhas são distribuídas no local, uma hora antes).

Próximos debates

1/7  - MEMÓRIA E CRIATIVIDADE

Jociane Miskiw e Silviano Santiago

5/8 - O FUTURO DO HUMANO

Edgard Morya e Lúcia Santaella

2/9 - LÓGICA E ARTE

Francisco Antonio Doria e Arthur Omar

7/10 - A FÍSICA NA FRONTEIRA DA FILOSOFIA

Rogério Rosenfeld e Antonio Cícero

4/11 - A ÉTICA NOS TEMPOS DA BIOGENÉTICA
Mayana Zatz e Olgária Matos

2/12 - A TERCEIRA CULTURA

Luiz Pinguelli Rosa e Ivald Granato


Ná & Zé tem inteligência e sensibilidade
Kiko Ferreira


Intelectual respeitado até por quem não gosta de sua música, Zé Miguel Wisnik é um tipo raro em tempos de selfies e excesso de barulho. Seu estilo elegante, contido, falsamente enigmático torna acessíveis aos homens de boa vontade suas aulas, palestras, colunas, trilhas, entrevistas, textos e, claro, músicas.

Ná Ozzeti, para quem viveu a vanguarda paulista, o grupo Rumo, suas releituras de Dio come ti amo, dos rocks e baladas de Rita Lee, do Rei de Sua estupidez e, principalmente, das canções essenciais e meio minimalistas de Luiz Tatit, sabe que se trata de uma das mais originais vozes da música brasileira.

Os dois tímidos nada espalhafatosos se conhecem e dividem músicas, palcos e estúdios há mais de três décadas. Eles fazem uma dobradinha que, literalmente, joga por músicas desde que Ná cantou Louvar no casamento do Zé que, por sua vez, compôs Tudo vezes dois para um show de Ná e Suzanna Salles.

Ná & Zé, o disco, celebra esta cumplicidade que, além da música, tem a poesia como peça de resistência. Entre as 14 letras que compõem o CD, estão versos perfeitamente valorizados por melodias adequadas de Fernando Pessoa (Sim, sei bem), Oswald de Andrade (Noturno no mangue), Cacaso (Louvar) e Paulo Leminski (Gardênias e hortênsias, Subir mais e Sinais de haikais), Alice Ruiz (Sinal de batom), Marina Wisnik (Miragem) e Paulo Neves (Alegre cigarra, Som e fúria e A noite).

Trinta anos depois, os dois estão mais maduros, menos intensos, mas não menos densos. Por isso, as interpretações soam mais equilibradas, mais estudadas, mas nunca frias ou requentadas. Conduzido pelo piano incisivo de Zé Muigel, o instrumental inclui nomes como o do baterista Guilherme Kastrup , o do violonista e baixista Swami Jr. e outros músicos suficientemente a serviço da musicalidade particular da dupla, com luxuosas participações dos sopros de Léa Friere, Luca Raele e Teco Cardoso, entre outras figurinhas justamente carimbadas, como o maestro Lettieres Leite e a voz de Arnaldo Antunes no Noturno do mangue, a partir de poema de Oswald de Andrade. Música para quem tem tempo e gosto para usufruir de arte feita com inteligência e sensibilidade.

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