Show de Ivete Sangalo no 12º Pedro Leopoldo Rodeio Show terá área exclusiva para gays

Promotor do evento diz que iniciativa traduz "respeito à diversidade". Entidade LGBT vê risco de segregar e estigmatizar público por sua orientação sexual

por Ailton Magioli 03/06/2015 08:00

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Divulgação/ Ivete Sangalo
(foto: Divulgação/ Ivete Sangalo)
Que Ivete Sangalo é a rainha da axé music todo mundo já sabe. Agora, que ela também vem se tornando a preferida do público lésbico, gay, bissexual e transexual (LGBT) provavelmente nem todos perceberam. De olho no potencial desse segmento, a produção do 12º Pedro Leopoldo Rodeio Show, que ocorre desta quarta-feira e até domingo, na cidade vizinha à capital mineira, criou o camarote Sense Private, com capacidade para mil pessoas, voltado exclusivamente para os fãs gays da cantora baiana, que tem apresentação no evento agendada para esta quinta.

“Vivemos tempos de aceitação e respeito à diversidade”, afirma o produtor Nilton Júnior, o Niltinho, sobre a iniciativa de criar o Sense Private. A área restrita será dividida, irmãmente, com o camarote Fusion, voltado para o público (jovem) de música eletrônica. Além de uma vista privilegiada para o trio elétrico com o qual Ivete irá se apresentar, o camarote LGBT terá open bar, banheiros exclusivos (30, ao todo) e lounge para descanso. Oferece também acesso aos shows de DJs do camarote Fusion.

Procurada pela reportagem para comentar a ideia do camarote Sense Private em seu show, Ivete Sangalo não quis se manifestar. Segundo a assessoria da cantora, sua agenda apertada não permitia que ela desse declarações.

A atração de Ivete junto ao público LGBT é reconhecida, sobretudo em Salvador. Em entrevistas coletivas, ela costuma saudar jornalistas amigos com a expressão “Biiichaaa!”, dita em tom carinhoso. Segundo Niltinho, que  coordena os camarotes do 12º Pedro Leopoldo Rodeio Show, além de uma demanda crescente do público gay por ingressos para o evento, tornou-se perceptível o potencial de consumo do segmento. “É o público A”, afirma, citando que a participação crescente de gays no mercado do show business brasileiro já transformou quase numa tendência a criação de espaços exclusivos.

Presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transsexuais (ABGLT), Carlos Magno Fonseca afirma que a entidade luta pela igualdade de direitos, em uma sociedade inclusiva, democrática e sem discriminação. “Às vezes, necessitamos de ações afirmativas para resolver problemas, como a criação de celas LGBT em presídios”, diz ele. “Já em espaços públicos, o ideal é que todos estejam juntos”, diz, criticando a iniciativa do Pedro Leopoldo Rodeio Show.

SEGREGAÇÃO “Quando vejo algo como o que está ocorrendo em Pedro Leopoldo, fico temeroso, porque iniciativas assim podem contribuir para segregar, estigmatizar. Daqui a pouco, podem começar a ver o espaço como camarote cor-de-rosa, camarote arco-íris, camarote de viados’”, diz, citando termos depreciativos usados para rotular a comunidade LGBT. Na opinião de Carlos Magno, “o importante é desenvolver campanhas no sentido de respeitar todo o mundo e garantir plenamente o direito de ir e se divertir. É a favor disso que a gente luta. Por mais bem-intencionada que seja a iniciativa de Pedro Leopoldo, ela pode surtir efeito negativo”, adverte. O presidente da ABGLT, que desfila anualmente na Estação Primeira de Mangueira, no sambódromo do Rio de Janeiro, teme que a moda pegue e chegue, por exemplo, aos desfiles das escolas de samba, onde todos se misturam, democraticamente.

Já Niltinho opina que gays acabam se sentindo reprimidos quando têm de ficar em área de público variado. “Sei que tem gay que não gosta de ficar no meio, para evitar o gueto. Mas também tem aqueles que se sentem mais à vontade. E não são apenas gays. Há amigos, parentes, namorados(as)”, diz, listando os acompanhantes que geralmente marcam presença em espaços assim.

Com recorde de público atribuído a Luan Santana, que teria atraído 40 mil pessoas em uma única noite, o Pedro Leopoldo Rodeio Show vive a expectativa de atrair pelo menos 25 mil pessoas a cada noite, nesta sua décima segunda edição. Uma praça de alimentação, externa aos seis camarotes, irá disponibilizar 50 barracas para o público.

Para Anyky Lima, presidente do Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual de Minas Gerais (CELLOS-MG), ao criar camarotes exclusivos para o público gay e os amantes da música eletrônica, a produção do evento de Pedro Leopoldo acaba contribuindo para excluir e rotular as pessoas. “Queremos ser incluídos em qualquer lugar e espaço”, reivindica Anyky, criticando o pedido de criação de banheiros exclusivos (gays, lésbicas, travestis, deficientes) em alguns eventos. “Além de falta de sensibilidade, essa é uma forma de exclusão”, diz ela.

Joana Ziller, do Núcleo dos Direitos Humanos e Cidadania LGBT da UFMG, por sua vez, vê os dois lados da moeda na iniciativa do Pedro Leopoldo Rodeio Show. “Se, por um lado, há o reconhecimento e a valorização do público LGBT, por outro estão segregando e colocando-o em cercadinho”, salienta a professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG. Segundo acredita, com a tendência crescente de as pessoas “saírem do armário”, assumindo a homo ou a bissexualidade, é necessário que elas tenham seus direitos respeitados dentro da diversidade da sociedade.

Além de chamar a atenção para o segmento LGBT, com a estreia do camarote Sense Private, Ivete Sangalo traz a Minas Gerais, pela primeira vez, o Trio Dragão Folia, considerado o maior trio elétrico do mundo. Lançado em 2005, o gigante da folia, como se tornou conhecido, tem 34 metros de comprimento, cinco metros de largura, seis metros de altura, elevador panorâmico que dá acesso a uma passarela superior, contabilizando três andares, com direito a bar privativo, dois camarins, cinco banheiros e dois geradores, além de estrutura para receber 80 convidados.

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