Rita Benneditto reedita no disco 'Encanto' o caminho de sucesso da 'Tecnomacumba'

Religiosidade africana é, mais uma vez, guia da música de artista maranhense, anteriormente conhecida como Rita Ribeiro

por Agência Estado 07/05/2015 13:20

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Marcos Morteira/Divulgação
Defensora de candomblé e umbanda como inspiração artística, Rita aponta: ''A gente trata a religiosidade africana com desdém, com indiferença, com preconceito'' (foto: Marcos Morteira/Divulgação)
A força magnética da cabocla Jurema pulsa em Rita Benneditto antes mesmo de gravar o disco de estreia como Rita Ribeiro. Por problemas jurídicos, a cantora mudou o sobrenome artístico e lança o primeiro trabalho com a nova estampa, 'Encanto' (Biscoito Fino), em que, movida por uma fé que tem profissão na música e na circulação de energias, avança por águas, sonoridades e aromas novos, com a parceria dos produtores e músicos cariocas Felipe Pinaud (guitarra) e Lancaster Lopes (contrabaixo).

 

Ouça 'Fé', uma das gravações de Rita em 'Encanto':

 

 

A voz e o estilo da cantora maranhense radicada no Rio de Janeiro continuam fiéis às origens, em constante trepidação. Além desse trabalho, Rita reencontra Jussara Silveira, com quem integrou o projeto de show e disco ao vivo 'Três Meninas do Brasil', ao lado de Teresa Cristina, em 2009. O disco da dupla, gravado antes de 'Encanto' e sem data prevista de lançamento, segue trilha similar.

Continuidade do bem-sucedido investimento em 'Tecnomacumba', que rendeu 11 anos de shows, um disco de estúdio, outro ao vivo e um DVD, 'Encanto' é igualmente pontuado pela espiritualidade afro-brasileira, sem que a cantora levante bandeira religiosa. Sem a culpa das religiões “de um livro só”, Rita, adepta do candomblé e da umbanda, transforma o ritual em celebração, em festa, com a consciência da preservação de elementos vitais, como a água e as matas.

Num momento em que atuam grandes facções de intolerância com os cultos afro-brasileiros, é importante que ela reafirme e defenda seus interesses, que têm muitos seguidores. Faz um descarrego no ambiente.

 

“Acho que a gente trata a religiosidade africana com desdém, com indiferença, com preconceito. Ninguém se refere aos deuses africanos como mitos e com histórias fantásticas que eles têm, como fazem com a mitologia grega e romana. Por quê? Porque a condição deles para nós é a pior, a de um escravizado.”

Roberto Carlos
A entidade Jurema solta sua flecha na abertura do disco, segue reinventando por clareiras, águas, ervas, batuques e campos de ação libertadores de Jorge Benjor, Djavan, Caetano Veloso, João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro, Villa-Lobos, a santeria cubana do clássico Babalu até fazer a transição com Fé (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) e Extra (Gilberto Gil), que situam o disco num plano transcendental. Elas estão interligadas numa sequência em que, além de comungar do que já absorveu e manter a demanda do grande público conquistado com 'Tecnomacumba', a cantora procura despertar um jeito de “pensar mais amplamente”.

Católico e conhecido por atitudes exigentes quanto a regravações de suas canções, Roberto não fez objeção alguma a Rita. “Foi facílimo. É questão de fé”, diz ela, rindo. “Até os produtores achavam que Roberto não iria liberar a música, que acabou sendo o fio condutor do disco, e justamente quando eu queria desviar a coisa da pequenez de pensamento. Quando se fala em fé, todo mundo pensa logo num dogma. Não, fé é uma outra situação: está na estrutura geral das coisas. Ele pode estar cantando pra Jesus Cristo, pro amor dele, pra família dele, pra qualquer coisa que seja um desejo dele pro mundo, pra natureza. Essa é a visão maior da fé.”

Coerente como cantora, Rita diz que procura seguir, no plano espiritual/musical, uma espécie de função de enfermeira (carreira que a família queria que ela seguisse), com seus remédios e antídotos, pelo poder das ervas.

“Pessoas que escutam meu disco sentem o alto-astral e pensam em mudanças e possibilidades, que há esperança. Pensam que são livres, que o planeta é enorme, é um útero imenso além da minha casinha, que os elementos existem e estão neles o encanto que vislumbro além da música. O que eu quero é criar vibrações energéticas sonoras pra que a gente se comunique num nível mais elevado. Acho que a música tem essa função.”

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