Maria Bethânia chega a BH com o show que comemora 50 anos de carreira

Ao Estado de Minas, cantora fala sobre como decidiu ser artista, comenta a importância de Caetano em sua vida, revela a perseguição pela ditadura e a vontade de nunca deixar o palco

por Ailton Magioli 07/05/2015 08:40

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Alexandre Moreira/Divulgação
Maria Bethânia no show 'Abraçar e agradecer', que ela apresenta neste fim de semana em Belo Horizonte. ingressos estão esgotados (foto: Alexandre Moreira/Divulgação)
Não fosse cantora, Maria Bethânia seria atriz? “Eu não!”, reage, bem-humorada, a intérprete baiana, ao telefone. No entanto, ela soube desde o início que iria trabalhar no palco – ou no picadeiro do circo. “Eu sempre tive esse desejo. Queria ser trapezista, depois, mais uma coisa da arena. Mas também fiquei assim meio mole. Deixei de lado, porque sabia que, uma hora, eu ia descobrir o que queria do palco”, recorda Bethânia, que chega a Belo Horizonte para duas únicas apresentações, sexta e sábado à noite, no Palácio das Artes.


Em cartaz, o show 'Abraçar e agradecer', com o qual ela comemora 50 anos de carreira. Os ingressos estão  esgotados, a exemplo o que vem ocorrendo em todo o Brasil e em Portugal, para onde a cantora embarca a seguir, para mais três shows. Planos? “Continuar cantando, enquanto Deus quiser. E acho que estou fazendo direito o que Ele mandou. Pelo menos em termos de dedicação, que deve reconhecer”, avalia Bethânia, de 68 anos. E a aposentadoria? “O que é, parar de cantar? Eu não, Deus me livre! Acho que vou morrer cantando no palco. Apagou, acabou.”

A hora em que ela descobriu o que exatamente queria do palco começou com um convite do irmão Caetano Veloso para que cantasse com ele. Cantou. “Aí falei, é isto que eu quero. Quero cantar”, lembra. “Mas cantar só? Quando subi no palco, achei que ser só uma cantora era pequeno. Eu falo, eu interpreto. Virei uma intérprete. E é o que eu gosto”, diz ela, salientando que ser atriz não é para ela, não. “Atriz é para quem pode. ”

Em 'Abraçar e agradecer', ela sobe ao palco acompanhada de banda e revisita a consagrada trajetória iniciada em 1965, quando trocou a Bahia pelo Rio de Janeiro, para substituir Nara Leão (1942-1989) no elenco do antológico show 'Opinião', ao lado de Zé Keti (1921-1999) e João do Vale (1934-1996). Ela cita como pessoas essenciais em sua escolha de ser artista a mãe, dona Canô (1907-2012), “uma mulher extraordinária, de grande força, afeto e amor e de muita sabedoria e silêncio”, e Caetano. “Com ele aprendi tudo: a andar, a falar, a olhar, a cantar”, afirma.

“Com uma presença muito nítida, minha mãe, que sempre gostou da cena, cantando muito bem e sendo uma boa atriz dos dramas santamarenses, via através do que eu escolhi ou o que Deus escolheu para mim um pouco da realização dela. Não fosse aquele prazer de viver a própria vida de mulher e de mãe, ao lado de meu pai, acho que ela seria artista”, acredita.

IRMÃO
Já sobre Caetano, diz: “É o irmão mais próximo, quatro anos acima de mim, que sou a caçula. Para uma menina de um ano e um irmão de cinco, ele era um homem. Tinha autoridade. A genialidade dele já estava ali. Aprendi tudo com ele de um modo lindo, sem me ensinar. Apenas ele me observando e eu observando ele. Tivemos este elo muito nítido de compreensão e de aceitação”.

Convidada a comentar suas recordações do show 'Opinião', diz que são as melhores possíveis. “Primeiro, pelo espetáculo de música, que era delicioso de fazer. Sem os rigores que há muito temos: cenografia, iluminação, microfonia, aparelhos”, justifica a cantora, lembrando que era uma coisa muito simples, na qual ninguém segurava nem sequer em microfones. “Eram três microfones pendurados e a gente fazendo um espetáculo musical com uma ideia nítida, uma dramaturgia escrita por Armando Costa (1933-1984), Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974) e Paulo Pontes (1940-1976), dirigidos por Augusto Boal (1931-2009), com Zé Keti e João do Vale, que, como eu e Nara Leão, também não eram atores.”

De acordo com Bethânia, a montagem, feita em plena ditadura militar, era uma coisa muito livre, muito solta. “Eu tinha 17 anos e, paralelamente a este grande prazer de atuar dessa maneira, a responsabilidade caiu sobre os meus ombros. Tive de aprender a lidar com aquilo tudo e aí Caetano foi fundamental pela confiança no olhar dele para mim.” Ao conhecer o diretor Fauzi Arap (1938-2013), que na época fazia 'Dois perdidos numa noite suja', de Plínio Marcos (1935-1999), como ator, Bethânia diz ter encontrado, enfim, o estilo profissional que a consagraria, graças ao casamento perfeito de música e texto.

“Fui vê-lo no teatro e fiquei apaixonada. Ficamos amigos imediatamente, nos casamos de todas as maneiras que se possa imaginar e, a partir dali, nunca mais deixamos de nos falar, até o dia em que ele morreu”, relata, emocionada. “Ele foi-se envolvendo muito comigo e eu com ele, até que achou o veio. Fauzi era amigo de Clarice Lispector (1920-1977), conhecia muita gente. Ele era um intelectual, lia e estudava muito, enquanto eu era uma menina perdidinha e, ao mesmo tempo, muito centrada, muito querendo, sabendo o que era o meu destino. Então, Fauzi me trouxe logo Clarice e no primeiro show que fizemos – 'Comigo me desavim' – já me trouxe um poeta português – Francisco Sá de Miranda (1481-1558) – que eu pedi Caetano para musicar.”

Bethania anuncia que prepara a publicação de um texto inédito de Fauzi Arap. “Ele escreveu um texto e me pediu para publicar apenas depois de sua morte. Trata-se de algo extraordinário, que se chama 'Pedra filosofal', que nós vamos publicar ainda este ano.” Ainda sobre o amigo, afirma: “Foi Fauzi quem achou essa maneira de eu subir no palco e me expressar. Ele inventou isso para mim. Eu não tenho outro jeito. Mesmo que eu não fale, as letras das canções são texto para mim”.

PRECONCEITO
Vítima de um surpreendente preconceito da imprensa carioca, quando chegou ao Rio, na década de 1960, Maria Bethânia diz não ter tido tempo de percebê-lo. “Hoje, quando me mostram nessas exposições comemorativas de 50 anos de carreira, eu olho assim... Mas eu era tão feliz”, avalia. “Eu tinha tanta gente bonita perto de mim. Vinicius de Moraes (1913-1980), meus amigos Tereza Aragão, Ferreira Gullar. Era tudo tão bonito. João do Vale ia para a Bahia e ficava na minha casa. Era tão bonito que eu não tinha tempo de ver coisa desagradável. Eu não me lembro, sinceramente. Fora dizer que eu era feia, que eu tinha voz grossa, que eu gostava de futebol. Mas isso dizem até hoje.”

A distância da crítica ela mantém até hoje. “Estava aprendendo o bê-á-bá do meu ofício. E aquilo me tomava tão completamente que este jeito me guia até hoje. Eu pouco presto atenção. Na verdade, eu não leio. Algumas pessoas me contam e quando tem alguma coisa grave me avisam.”

Bethânia também passou por maus momentos durante a ditadura militar. “Eu fui presa. Fui presa às 2h da manhã em minha casa, no Rio, e levada para um quartel, onde prestei depoimento até umas seis da manhã. Depois me trouxeram de volta, e eu fiquei durante três anos obrigada a ir todas as quartas-feiras, às 10h, me apresentar no Departamento de Ordem Política e Social (Dops)”, recorda. Segundo acredita, tudo porque o amigo e poeta Reynaldo Jardim (1926-2011) escreveu o livro 'Bethânia guerreira guerrilha'. “Ele foi preso e pegaram no meu pé depois.”

Sobre seu jeito peculiar de conciliar o popular e o erudito na música, ela diz: “Eu tenho bom gosto. Sou inteligente, não sou burra. Vivo para o meu trabalho, então me interesso. Qualquer coisa eu estou prestando atenção. Deu um acorde, eu tô prestando atenção. Eu vivo tanto isso que acho que vou absorvendo e tem uma hora que vou fazer algo, deve voltar tudo em mim e eu vou, então, procurar”. Depois de ter aprendido a tocar piano e violão, a cantora acabou deixando os instrumentos de lado. “A cena me ganhou, me tomou para ela e não me deixa, não.”

 

'Abraçar e agradecer'

Show de Maria Bethânia, comemorativo de 50 anos de carreira. Sexta e sábado às 21h, no Grande Teatro do Palácio das Artes, avenida Afonso Pena, 1.537, Centro. Ingressos esgotados.

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