Zeca Pagodinho lança 23º álbum da carreira e diz que está bebendo menos

Artista reclama de aplicativo de conversas no celular e garante que compositores ficaram órfãos depois da onda de disco autoral

por Eduardo Tristão Girão 03/05/2015 10:11

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Guto Costa/Divulgação
(foto: Guto Costa/Divulgação )

Rio de Janeiro
– Bermuda jeans, camisa polo, crucifixo dourado para fora, Rolex no punho esquerdo e mocassim sem meia. Zeca Pagodinho entra numa sala de reunião do escritório da gravadora Universal, no Rio de Janeiro, na tarde da última quinta-feira, para dar entrevista sobre seu novo disco, Ser humano. Os sapatos ele tira em menos de um minuto, antes de se sentar. Aliás, durante a meia hora seguinte, ele não parou quieto, circulando à vontade pelo ambiente, como se estivesse em sua casa em Xerém, na Baixada Fluminense.

A exemplo dos seus álbuns anteriores, este tem repertório de canções de diferentes compositores, coletadas durante os famosos almoços com roda de samba que o cantor promove para ouvir o que há de novo. “Faço lá em Xerém ou no Quebra Mar, botequim de um amigo, aqui na Barra, que a gente fecha para isso. Fico ali, rodando, conversando e, quando ouço alguma coisa boa, olho para o Rildo (Hora, seu arranjador) e ele já sabe. Em duas ou três reuniões, a gente resolve. Levo um pernil ou leitão e tem bastante cerveja”, conta.

Se ele está bebendo? “De leve, a glicose tá brava”, responde. Como se o comentário lhe tivesse servido de lembrete, levanta-se da cadeira (a primeira de muitas vezes) para mostrar sua caixinha de remédios, com compartimentos para cada dia da semana. Agita os comprimidos ali dentro e diz: “Glicose, estômago, coluna. Uma porrada de troço”. Pinga um colírio, solta um “ai” e diz que aquilo arde feito raio.

De volta a seu assento, prossegue explicando que o novo trabalho, o 23º, demorou cinco anos para chegar porque esteve envolvido até recentemente com outros projetos grandes, como o Sambabook (multimídia, com disco, partituras, site etc.) e o DVD Vida que segue, em comemoração aos seus 30 anos de carreira, lançado em 2013. Das 14 faixas que apresenta agora, assina apenas uma, Foi embora, ao lado de Arlindo Cruz e Sombrinha.

Um pouco por preguiça, admite Pagodinho, mas também por outras convicções: “Gravar comigo hoje é acertar na loteria, né? É um dinheirinho que entra para o caboclo. Antigamente, a gente fazia música para Beth Carvalho, Alcione, Martinho da Vila. Hoje, todo mundo quer fazer disco autoral e os compositores ficaram órfãos. Sou um dos únicos que seguram essa onda para eles. Nas rodas de samba que faço, basicamente é sempre a mesma rapaziada. Os caras são craques, confio neles”.

TERNO Ele fala de gente como Gabrielzinho do Irajá (autor, ao lado de Dunga, da canção Amor pela metade, que abre o disco), Nelson Rufino (Mangas e panos), Serginho Meriti (Samba na cozinha, com Serginho Madureira e Claudinho Guimarães), Barbeirinho do Jacarezinho (Mané, rala peito, com Marcos Diniz e Luiz Grande). Isso para não falar dos nomes mais conhecidos presentes no disco, como Monarco, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto e Dudu Nobre.

Dos novatos que pinçou entre um copo de cerveja e outro, numa dessas reuniões musicais, destaca Marquinho Índio e Mário Cleide, que escreveram a faixa-título ao lado de Claudemir. A propósito, ele só escolhe assim as músicas que vai gravar e parou de receber discos que estranhos vinham lhe entregar na rua ou deixar na portaria do seu prédio. “Desço para tomar um chope, o cara senta do meu lado e fala: ‘Escuta essa aqui’. Geralmente, é uma porcaria. Ouço ‘Zeca, fiz um sambinha’ e digo ‘nem canta’. Coisa boa não vem assim”, conta.

As primeiras músicas de Ser humano têm mais forte a assinatura de Rildo Hora, o fiel arranjador do sambista, responsável por enfeitar as faixas com cordas e sopros. “Na época em que vim para a gravadora, o Max Pierre era o diretor e queria dar uma qualidade ao samba. O Rildo também. Eu me lembro disso por causa da harpa, que era cara. Nesse novo disco, usamos oboé pela primeira vez. Por que o samba tem de ficar no cantinho, batucando na lata? Ele é tão rico em harmonias, melodias. É só não tirar meu batuque, minha cozinha. Por que o samba tem de usar só tergal? Vamos botar um Armani nele”, afirma.

Há três participações curiosas no disco: Pepeu Gomes (guitarra em A Mona Lisa), o ator Pedro Bismarck (que encarna seu personagem Nerso da Capitinga para cantar em Mané, rala peito) e Marcos Valle (piano em Nas asas da paixão, que escreveu com Luiz Carlos da Vila).

CAFEZINHO No meio da conversa, atende o celular (um Nokia humilde), não consegue entender quem está do outro lado da linha e aproveita para praguejar por o terem colocado num grupo de WhatsApp com pais de colegas da filha, Maria Eduarda, de 11 anos. “Pedi para ela tirar isso do meu telefone, não sei usar”, explica. Não que a socialização o incomode tanto assim, afinal, ele confessa não gostar de ficar sozinho. “Tenho três empregadas em casa, às vezes cinco. É tanta gente que nem sei mais quem é parente e quem trabalha lá”, diverte-se.

Aliás, como talvez nenhum outro, este é um disco que o artista relaciona bastante à própria família. As gravações, no início deste ano, foram realizadas na mesma época em que Pagodinho perdeu o pai, Jessé, e o filho Elias. “Preciso trabalhar, preciso do estúdio, preciso da música, preciso continuar a viver. A cabeça não pode ficar parada. Um dia, o Arlindo vai lá em casa, no outro, estou com o Rufino, faço uma comida para a gente e, assim, vamos levando”, conclui o artista, de pé novamente, agora para abraçar a senhora que chega para servir café e, com ela, fazer uma piada (O repórter viajou a convite da gravadora Universal).


TURNÊ
A turnê de Ser humano começa em junho, com datas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Na sequência, Zeca Pagodinho tem compromisso com Belo Horizonte, dia 13, no Chevrolet Hall.

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