Sem medo de ser grande, Pato Fu lança 'Não pare pra pensar' com show em BH

Depois de estrear há 22 anos negando princípios básicos do rock, banda incorpora bateria e amplificadores na versão ao vivo do 12º álbum, com o qual pretende reafirmar sua identidade

por Mariana Peixoto 18/04/2015 00:13

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Cristina Horta/EM/D.A Press
Juntos há mais de duas décadas, John Ulhoa, Fernanda Takai e Ricardo Koctus desafiam clichês do rock e assumem autorreferências: nova fase do Pato Fu tem retorno de guitarras e repertório antigo (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)
Diz o clichê: banda de rock tem que tocar alto. Para tal, você precisa de um baterista virtuose e de amplificadores muito grandes que façam com que os riffs do guitarrista ecoem até os limites do suportável. Pois 22 anos e meio atrás, um trio de Belo Horizonte fez exatamente o contrário. Era baixo e guitarra e uma bateria eletrônica. A despeito do equipamento reduzido, o som era absolutamente rock and roll. Uma garota, dois caras, letras malucas, músicas que mudavam de andamento rapidamente e muito deboche.

 
O Pato Fu fez tudo diferente. E deu certo. Na noite deste sábado, 18, quando o ex-trio, hoje quinteto – Fernanda Takai na voz, John Ulhoa na guitarra e voz, Ricardo Koctus no baixo, a formação inicial, mais Lulu Camargo nos teclados e Glauco Mendes na bateria – subir ao palco do Sesc Palladium para lançar 'Não pare pra pensar', seu décimo álbum de estúdio e 12º de carreira, vai ser com o pé na porta, para citar uma expressão utilizada por John.

 

Conheça 'Cego para as cores', um dos singles de 'Não pare pra pensar':

 

O novo show acaba com qualquer complexo que a banda poderia ter. “A gente era uma banda que não usava amplificadores no palco, considerada meio nerd e digital. Pois agora a gente usa amplificadores e eles são enormes”, conta John. E o enorme não é figura de linguagem. Ele prova o que diz, ao mostrar foto da estreia da turnê, em São Paulo, em que o guitarrista fica pequeno ao lado de verdadeiras paredes sonoras.

'Não pare pra pensar' é o Pato Fu mostrando que, duas décadas depois, ele é mais Pato Fu do que nunca. “O disco tem o timbre da fase mais recente, mas um tanto de conceito do começo da carreira”, afirma John, também produtor do álbum e autor de 10 das 11 faixas do disco (algumas sozinho, outras em parceria).

 

GUITARRAS

Músicas rápidas ('Não pare pra pensar'), com muitas guitarras ('Cego para as cores'), Fernanda ainda dominando os vocais, mas John encabeçando algumas músicas ('Ninguém mexe com o diabo'). Isso vem de 'Rotomusic de liquidicapum' (1993) e 'Gol de quem?' (1995), os álbuns iniciais.

O novo disco é o primeiro de canções autorais em sete anos. Há quatro, a banda lançou 'Música de brinquedo', só de versões e com um show voltado para o público infantojuvenil. “A gente tinha que fazer um disco que mostrasse de onde viemos. E também queríamos um disco bom de fazer ao vivo”, acrescenta John.

Tão bom que a banda só vai deixar de tocar duas canções do novo repertório. Não diz, de maneira alguma, quais serão as excluídas, para não estragar a surpresa. “Não tocamos o disco todo na ordem e depois músicas antigas. Misturamos músicas novas e velhas”, diz ele. Fernanda afirma que todas as fases do Pato Fu estão no show – só dois álbuns, 'Tem, mas acabou' (1996) e 'Daqui pro futuro' (2007), não foram agraciados no repertório.

Banda que consegue, em igual medida, figurar entre o indie e o mainstream, o Pato Fu é ainda uma das poucas do cenário pop rock a ter fãs que a acompanham ao longo do tempo. “A relação presencial com o fã nunca mudou. Desde 1992, quando acaba o show atendemos as pessoas”, diz Fernanda. “Às vezes ficamos até mais tempo depois do que propriamente no show”, completa Ricardo.

 

'You have to outgrow rock'n roll' é outra das faixas novas do Pato Fu:

 

 

O Pato Fu é ainda uma das primeiras bandas “de gravadora” a se tornar independente. Terminou seu contrato com a extinta BMG em 2002. “Aprendemos então a circular num outro circuito. Hoje, a gente não faz show de boate, às 3h da manhã. Escolhemos as coisas legais”, diz Ricardo. Fernanda acrescenta: “Um monte de gente me pergunta como estamos vivendo. A gente não está o tempo todo tocando em rádio, nas grandes redes. Mas nunca paramos, vivemos da nossa agenda de show, de música”.

E como ficar juntos o tempo todo? Bem, fazendo o que cada um tem que fazer. Depois de produzir o mais recente álbum solo de Fernanda, 'Na medida do impossível' (2014), John deixou que “outro careca” (Tiago Borba) assumisse as guitarras da banda da mulher. Assim, pode se dedicar mais às produções que assina no estúdio 128 Japs, em sua casa, na Pampulha. Ricardo também tem sua carreira solo: uma autoral, outra de cover de Elvis. “O Pato Fu existe primeiro porque a gente gosta de tocar junto. Por mais que façamos coisas em separado, sabemos que nossa maior força, musicalmente falando, é na banda. É a banda que todo mundo quer ter”, arremata Fernanda.

 

Pato Fu

Show de lançamento do álbum 'Não pare pra pensar'. Sábado, 18 de abril, às 21h no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046 - Centro). Ingressos a R$ 40 e R$ 20 (meia). Informações: (31) 3270-8100.

 

Sony/Divulgação
(foto: Sony/Divulgação)
Liberdade para voar


(Por Carlos Marcelo
)

Pare para lembrar. Qual foi a última vez que você escutou um disco inteiro, faixa por faixa, encarte na mão, acompanhando as letras impressas no encarte? Não vale citar relançamentos em edições luxuosas, comemorativas de datas importantes. A pergunta se refere apenas a álbuns com gravações inéditas, discos nos quais o prazer da descoberta vinha até pela sequência das faixas, cuidadosamente montada pelos criadores.

Foi em algum momento do século 20, certo? Naquela época, ora vejam só!, ainda se compravam discos em… lojas de discos. Havia, claro, o consumo de forma aleatória, mas não de forma desenfreada. Predominava o interesse por álbuns produzidos com engenho e esmero, como o mais recente do Pato Fu, que cresce a cada audição e é a base de sustentação do novo show da banda mineira.

Deliciosamente anacrônico, 'Não pare pra pensar' significa mais do que o atestado de vitalidade de um grupo de trajetória sui generis; a exemplo do que fez o Skank, gravar e lançar um disco de músicas inéditas, num mercado que aos poucos se desfez e tenta se reerguer no meio digital, representa ato de coragem, política possível para a arte em tempos inflamados.

E fazer show calcado não nos greatest hits, mas em repertório recém-nascido, reforça as convicções de quem sempre tentou fintar os clichês (inclusive os próprios), liquidificando gêneros e influências de todas as origens.

Pode até ser uma estratégia camicase, mas enquanto a indústria fonográfica agoniza, eles se divertem dialogando com os ídolos (na ótima versão para 'Mesmo que seja eu', de Erasmo Carlos, ou na homenagem a Elvis Costello em 'You have to outgrow rockn’roll') e cometendo músicas perfeitinhas como 'Eu era feliz' e 'Pra qualquer bicho'. O recado é inequívoco, decola da Pampulha para o mundo dos que ainda não estão surdos: daqui para o futuro, o Pato está livre para voar com as próprias penas.

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