Festival Internacional de Violão reúne em BH músicos com diversos estilos

Sobem ao palco o Duo Assad, Yamandu Costa e os mineiros Aliéksey Vianna e Guilherme Vincens, entre outros artistas

por Eduardo Tristão Girão 10/04/2015 08:00

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Rodrigo Assad/Divulgação
A trajetória dos irmãos e violinistas paulistas Sergio e Odair Assad teve início há 50 anos, com o chorinho (foto: Rodrigo Assad/Divulgação)
São nada menos que 50 anos tocando, literalmente, lado a lado. Os irmãos violonistas do Duo Assad, os paulistas Sergio e Odair, começaram, ainda crianças, com chorinho, despertando a atenção de Jacob do Bandolim, que os levou para o programa de televisão da cantora Elizeth Cardoso. “Não paramos desde aquela época”, conta Sergio. Vieram discos, recitais marcantes, prêmios e uma bem-sucedida carreira internacional. Além de meio século de trabalho, comemoram o lançamento do disco O clássico violão popular brasileiro, que apresentam aos belo-horizontinos durante o Festival Internacional de Violão, que começa hoje.


O novo trabalho tem especial importância para os dois, já que é dedicado a obras para violão escritas por autores brasileiros: os irmãos Assad conquistaram prestígio tocando repertório latino-americano (não só nacional) e consolidaram seu estilo tendo na bagagem a influência dos ritmos populares daqui. Por isso, a maior parte do programa que interpretarão no domingo tem peças de compositores como Dilermando Reis, Baden Powell, Garoto, Egberto Gismonti e Villa-Lobos (todas extraídas do novo disco).

“A barreira entre música erudita e popular foi acabando com o passar do tempo, e essa postura de que o músico popular não tem técnica tão apurada foi exterminada por brasileiros como Raphael Rabello, que tocava tanto como quem toca clássico. São músicos com técnica avançadíssima. O tipo de música e a forma de executá-la é que são diferentes”, avalia Sergio. Na visão dele, o violão brasileiro jamais teria chegado ao patamar que chegou sem o talento e a técnica de músicos responsáveis por fazer acompanhamento (em vez de solo).

Os Assad mudaram-se do Brasil nos anos 1980 (Sergio mora nos Estados Unidos e Odair, na Bélgica) e o concerto na capital mineira integra turnê por mais 13 cidades do país. A influência que exercem mundo afora ainda pode ser sentida, segundo Sergio: “Quando fomos para o exterior, percebemos que o repertório da gente causava alvoroço e era calcado na música tradicional. Os duos foram desaparecendo e a gente é o único daquela época que ficou. Os que vieram depois foram influenciados por nós, e isso são eles que dizem. Os duos brasileiros tentam ser diferentes, mas também vieram disso”, acrescenta.

A programação do Festival Internacional de Violão, que vai até domingo, tem também apresentações de Yamandu Costa, Aliéksey Vianna (que estreia com seu trio no Brasil e lança o disco In concert at the bird’s eye), o italiano Maurizio Grandinetti e quatro nomes do instrumento selecionados pelo projeto carioca Novas (a venezuelana Elodie Bouny, idealizadora do projeto, o carioca Alexandre Gismonti e os mineiros Carlos Walter e Guilherme Vincens).

As apresentações, sempre a partir das 20h, serão realizadas na Fundação de Educação Artística, Grande Teatro do Sesc Palladium e Grande Teatro do Palácio das Artes. Durante a manhã e a tarde, os músicos ministrarão nesses locais aulas que têm entrada gratuita para ouvintes. Os violonistas mineiros Aliéksey Vianna, Fernando Araújo e Juarez Moreira são os organizadores do festival, que está em sua oitava edição.

ELODIE BOUNY/ACERVO PESSOAL
Idealizadora do projeto Novas, a venezuelana Elodie Bouny acredita que o mercado internacional %u2018fecha%u2019 o artista entre intérprete ou compositor (foto: ELODIE BOUNY/ACERVO PESSOAL)
Gestação
Para Elodie Bouny, a menor formalidade em torno do violão torna o Brasil um país particularmente interessante. “Na Europa, o circuito profissional te fecha muito. Ou você é intérprete ou é compositor. Aqui, as pessoas saem compondo, é um talento natural. Além disso, os sotaques populares são claramente perceptíveis e a mistura do popular com o erudito é algo muito presente”, avalia. Os nomes que trouxe para BH fazem parte do disco que registra a segunda edição do projeto, que teve o dobro de inscritos, todos eles autores de peças para violão solo.

Nascido em Uberaba, Carlos Walter é um dos mineiros contemplados pelo Novas e um dos únicos autores a ter duas músicas incluídas no álbum do projeto. Acrobata e Sui generis são dois dos nove movimentos que fazem parte da sua suíte Calendário do (a)feto, escrita em homenagem à gestação de Pedro, seu filho. Os batimentos cardíacos do bebê, ainda na barriga de Rosana, sua mulher, serviram de referência rítmica para o baião Acrobata.

Ele frequenta o festival desde a primeira edição e chegou a trabalhar como assessor jurídico do evento. Formado em direito, veio para a capital mineira há 11 anos, para fazer mestrado. Ligou-se ao Clube do Choro, escreveu livro sobre esse estilo musical e fez o duo 13 Cordas com outro violonista, Sílvio Carlos (do grupo Flor de Abacate). Acabou de gravar seu primeiro disco solo, com direção musical de Elodie.

Voz Em mais uma visita a Belo Horizonte, o carioca Alexandre Gismonti (que é filho de Egberto) mostrará que seu foco não está restrito à música instrumental. Duas das peças que escolheu para o repertório são canções, ambas com letra de Paulo César Pinheiro: Chora, Antônio!, com música dele, e Saudações, do pai. “Meu bisavô Antônio foi o primeiro compositor da família e é uma das maiores inspirações para mim. O Paulo fez a letra sobre isso, se expressou de forma simples e profunda. Senti que a música finalmente cumpriu seu papel”, conta ele.

Por enquanto, Alexandre mantém interesse em cantar mais do que em escrever letras, apesar de já ter se arriscado nisso. “Tenho cantado uma ou outra música em meus shows de uns três anos para cá. Não me considero um cantor, mas a canção é um outro universo. A palavra traz uma riqueza enorme, e eu, como criador, sou atraído por isso”, explica. Paralelamente, mantém duo com o violonista Jean Charnaux e prepara disco solo (instrumental) pela gravadora alemã ECM.

Outro forte interesse seu, atualmente, é o ritmo, motivo pelo qual apresentará em BH a composição autoral Estrada do Sul (inspirada no chamamé) e sua interpretação para três partes dos Estudos polimétricos do sérvio Dusan Bogdanovic. “A primeira é uma homenagem ao Yamandu. Uma das primeiras vezes que o vi na TV, tocava despojado, no meio da rua, aqueles ritmos gaúchos. Isso me inspirou. Já o Bogdanovic é uma grande referência em ritmo e pretendo estudar com ele”, diz.

PROGRAMAÇÃO
SEXTA,
às 20h, na Fundação de Educação Artística
>> Maurizio Grandinetti (Itália)
>>  Novas – Elodie Bouny, Alexandre Gismonti, Carlos Walter e Guilherme Vincens

SÁBADO, às 20h, no Grande Teatro do Sesc Palladium
>> Aliéksey Vianna Trio
>> Yamandu Costa

DOMINGO, às 20h, no Grande Teatro do Palácio das Artes
>> Duo Assad

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