Dupla mineira apresenta show de 'fossa e boemia' em homenagem a Maria Bethânia

Músicos se inspiram nas canções do 'fundo do poço' das mais de cinco décadas de carreira da baiana

por Bossuet Alvim 10/04/2015 09:55

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Mariana Vianna/Divulgacao
(foto: Mariana Vianna/Divulgacao )
Quando Maria Bethânia declarou aos de casa, em entrevista a um jornal baiano no mês passado, que adora a sofrência de Pablo, sem saber, respaldou a ideia por trás do show que os mineiros Vinicius Luiz e Rafael Moreira apresentam hoje em Belo Horizonte.

Inspirado na veia de alegria triste da grande intérprete, o espetáculo reúne canções gravadas por ela nas últimas cinco décadas e o tom deprê é denominador comum de todas. 'Na lama com Bethânia', brincadeira e verdade desde o título, é um tributo que os cantores conceberam, a partir do carinho que sentem pela obra da artista.

“O Vinicius tinha a ideia de uma festa com esse nome, que tocasse só vinis da Bethânia. A partir disso, pensamos em um show de fossa e boemia”, explica Moreira, que já dividiu o palco com Luiz no show 'Da maior importância', em 2013.

'Na lama com Bethânia' ganhou corpo no fim do ano passado, quando a dupla lançou um projeto de financiamento coletivo via internet. Fundos angariados, a apresentação de estreia em dezembro lotou a Benfeitoria, mesma casa que recebe o bis de hoje à noite. Despretensioso, o trabalho transparece admiração pela homenageada. “Gosto desse desapego da Bethânia. Ela não se preocupa em parecer cult. Muitas dessas músicas têm pecha de brega, mas ela não se importa com isso, porque vê verdade nelas”, observa Luiz.

REPERTÓRIO Entre as gravações consagradas pela filha de dona Canô, os cantores se entregam a clássicos como 'Ronda' e 'Volta por cima', de Paulo Vanzolini, ou 'Negue', de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos. Os lamentos de Gonzaguinha também estão lá, com 'Explode coração' e 'Grito de alerta'. Registro dramático da baiana nos anos 1970, 'Lama', de Aylce Chaves e Paulo Marques, é quase uma faixa-título e outro item indispensável no repertório.

Além de contemplar vários momentos da carreira de Bethânia, os intérpretes procuraram se guiar pelas relações pessoais com as faixas durante a seleção. “'Demoníaca' e 'Explode coração' têm essa ligação com uma fase em que tomei consciência de que precisava parar de ser um espectador da minha vida, um personagem, para ser eu mesmo”, exemplifica Moreira. Para Luiz, as gravações celebradas por eles se dirigem com facilidade ao público ao tratar de questões comuns a todos. “Essas músicas falam de amor não correspondido, de vingança, de traição. Todo mundo tem um momento assim na vida, é fácil se identificar.”

Incentivados a apontar suas fases favoritas no meio século de trajetória da estrela, os cantores não elegem álbuns, mas espetáculos com os quais Maria Bethânia marcou época. A “trilogia” formada pelos registros dos shows 'Rosa dos ventos' (1971), 'Drama - 3º ato' (1973) e 'A cena muda' (1974) é a primeira escolha de ambos.

A dramaticidade que marca esses discos é carregada pela cantora até hoje sobre os palcos. Os mineiros admitem que são fãs do aspecto teatral nas interpretações da irmã de Caetano Veloso e, por essa razão, se esforçaram para eliminar qualquer traço caricatural em 'Na lama com Bethânia'. “Tudo o que é ligado a Bethânia corre o risco de ficar parecido com o Tom Cavalcante imitando-a. Por isso a gente fez um show tendo ela como lastro, não como espelho”, afirma Luiz.

HUMOR O humor, contudo, não é ausente no show-tributo: “Ele entra muito nas músicas de eu-lírico feminino”, explica Moreira. “Nos jogos que a gente faz no palco e também nas próprias referências que a música traz. 'Fera ferida' e 'Terezinha', por exemplo, já têm uma carga”, explica. Luiz destaca “a emoção rasgada, o sofrimento sem pudor” das gravações originais, que ganham outra leitura nas vozes masculinas. “Isso no fim fica engraçado”, ele admite.

O contraste entre os dois vocais é assumido no show, o que confere autenticidade e despretensão às versões. 'Sem fantasia', registrada pela cantora em álbum de parcerias com Chico, é interpretada também em dueto. “Além de pedir alguma extensão da voz, é bastante intensa”, comenta Moreira sobre a faixa, apontando-a como a mais desafiadora do repertório. “Nossas vozes têm que se ajustar uma à outra, precisam se casar e o andamento tem que ser o mesmo”, concorda Luiz.

Como admiradores de Maria Bethânia, os cantores tentam equilibrar o respeito pela obra da baiana com a impressão autoral que o espetáculo oferece. “O Marcílio Rosa, nosso guitarrista e diretor musical, colabora muito, encaixando a ideia que a gente tem para cada música em novos arranjos”, diz Moreira. Vinicius Luiz conta que as alterações foram feitas “respeitando o espírito da música, não apenas mudar por mudar”.

VIDE BETHANIA

Cantores do 'Na lama' recomendam músicas da cantora para quando se está…

» Na fossa após o fim de relacionamento:

'Volta por cima' (de Paulo Vanzolini, no disco Drama - Anjo exterminado, 1972)
 
 
 
Pra dizer adeus (de Edu Lobo e Torquato Neto, no disco Edu & Bethânia, 1967),
 

 
'Você' (Roberto e Erasmo Carlos, em As canções que você fez pra mim, 1993)
 

 
» Na bad trip de um flerte não correspondido:
'Foi assim' (de Lupicínio Rodrigues, em Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo, 1975)
 

 
 » Na frustração do desemprego:
'Ele falava nisso todo dia' (Gilberto Gil, em Recital na Boite Barroco, 1968)
 
 
 
» No momento de visualizar o extrato bancário:
'Carcará' (João do Vale e José Cândido, primeiro compacto gravado por Bethânia, em 1965)
 
 
 
Na lama com Bethânia
Show de Rafael Moreira e Vinicius Luiz. Sexta, às 20h30 no Benfeitoria (Rua Sapucaí, 153 – Floresta). Ingressos a R$ 20 podem ser comprados pela internet.

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