Artistas e empresários investem em ações para exportar produção mineira

Desafio é construir selo de qualidade e evitar pecha de música regional

por Eduardo Tristão Girão 09/04/2015 08:00

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Arte / Quinho
(foto: Arte / Quinho)
Nesta semana, enquanto músicos e produtores culturais de Belo Horizonte debatiam sobre a divulgação internacional da música produzida em Minas Gerais, cinco artistas e bandas da cidade ensaiavam para uma série de apresentações no aeroporto de Confins, espécie de vitrine das composições daqui para os passageiros que chegam e saem.

Do lado de lá do Atlântico, mais precisamente na França, outros mineiros se envolviam em residência artística, numa preparação para mostrar trabalho conjunto com músicos locais em países europeus. A todos esses e muitos outros artistas mineiros interessa mostrar o talento no exterior, o que não quer dizer que achem 100% conveniente embalar para venda o que fazem com o rótulo de “música mineira”.

“No exterior, funciona mais a expressão ‘música brasileira’, pois nem sempre as pessoas conhecem o Brasil para saber da sua divisão regional. Minha música se enquadra no rótulo “mineiro”, apesar de detestar rótulos, mas prefiro dizer que faço ‘música brasileira’. É suficiente dizer que venho de Minas e faço música brasileira”, afirma Gustavito.

No momento, ele está na França, ao lado dos músicos Gabriel Murilo, Felipe José e Adriano Goyatá, todos selecionados pelo projeto Tudo Bem para conceber disco ao lado de colegas do país europeu – com lançamento previsto para junho. Gustavito tem também agenda acertada na Holanda, na Bélgica e em Portugal. Nesses países, ele tentará fazer mais apresentaçõess, além das que já estão programadas. “As condições (na Europa) são tão difíceis quanto no Brasil. A diferença fundamental é econômica. Com auxílio no transporte aéreo, muitas vezes é mais viável circular na Europa do que dentro do Brasil, uma vez que se consegue um mínimo de pagamento pelas apresentações”, afirma.

Independentemente do estilo, garante Gustavito, é importante apostar na formação de uma rede de contatos no exterior, o que não só auxilia na ampliação de público, como também abre outras possibilidades de trabalho.

O pandeirista Túlio Araújo é um dos que têm incluído o mercado externo entre os alvos de sua carreira. “Foco (numa carreira) fora do Brasil, porque só assim conseguirei viver de música. Tenho 36 anos e não estou a fim de ficar um cara frustrado e angustiado de 50. Amo o Brasil. Sonho em fazer grandes shows em lugares maravilhosos e também ver ótimos shows.” Araújo tem procurado divulgar seu trabalho nos Estados Unidos. O Japão, país em que mais consegue vender discos on-line, é o próximo destino de suas investidas para shows.

RÓTULOS Falar em “música mineira” para o público estrangeiro, na opinião de Araújo, mais atrapalha do que ajuda. “Os norte-americanos adoram rótulos. Se digo ‘latin jazz’ (para um americano), automaticamente se pensa em Cuba, Panamá, Porto Rico e nomes como Chucho Valdés. Não adianta falar ‘Panama music’, as pessoas não fazem essa associação, pois sabem muito pouco sobre história e geografia dos países latino-americanos. O segredo é se apoiar nos rótulos ‘brazilian music’ ou ‘brazilian contemporary music’ e mostrar aos poucos que não é o esperado. Quem entender isso se dará bem”, avalia.

Para o músico, o momento é perfeito para emplacar música do Brasil no exterior, já que os norte-americanos estão “sedentos” por música brasileira.

A produtora cultural Márcia Ribeiro é a idealizadora do projeto Música pra viajar, pelo qual serão realizados, até o mês que vem, shows de artistas mineiros no aeroporto de Confins. Entre eles, estão Marina Machado, Toca de Tatu, Baião Caçula e Fred Selva, representantes de vertentes distintas. Além de deixar um “gostinho local” em quem está de passagem por Minas, o objetivo é abrir mais espaço para que os artistas locais mostrem seu talento.

Apostar num rótulo para divulgar a produção local pode ser bom, diz ela, mas tudo depende da maneira como isso é feito. “Corporativismo para promover a música mineira é muito bom, mas, se for só para regionalizar, é péssimo. A música feita aqui é boa como todas as outras e artistas nossos podem subir em qualquer palco do mundo. Se for para dizer que é regional, é falho e incorreto com o que é feito. Se for para criar um selo de qualidade, acho ótimo”, analisa.

Já Bruno Golgher, organizador do Savassi Festival (que traz estrangeiros e “exporta” mineiros para shows), quando ouve a expressão “música mineira”, pensa mais naquela que é feita por quem mora aqui do que numa estética. “Interessa-me saber como os músicos daqui podem ter trânsito no mundo e como trazer mais gente para cá, para que ambos os lados tenham experiência enriquecedora”, diz ele. Não por acaso, Golgher realiza o seminário Internacionalização da Música Mineira (ligado ao festival), que tem encontros abertos ao público. Os próximos estão programados para os dias 12 de maio e 9 de junho, na Casa da Economia Criativa, em BH.

Falar em “música mineira” é mais prático, afirma Golgher, e pode ser útil em determinadas situações, mas é preciso cuidado para evitar juízo de valor. “Pode-se criar um viés conservador, que acho negativo. Talvez funcione em diálogos entre governos, mas não em instâncias de criatividade. Mecanismos de fomento deveriam ser neutros nesse aspecto. A nossa música estereotipada tem de ir para fora e a música de ponta que se faz aqui também”, conclui.

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