Odair José lança 'Dia 16', disco com pegada rock'n'roll

No novo álbum, cantor flerta com o folk rock, gospel e country americano

por Kiko Ferreira 08/04/2015 09:00

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PATRICIA CRUZ/ESTADãO CONTEúDO
O cantor Odair José durante show no Teatro Municipal de São Paulo, na Virada Cultural 2013 (foto: PATRICIA CRUZ/ESTADãO CONTEúDO)
O goiano Odair José tem, em sua obra, alguns versos lapidares. Nessa categoria está a máxima: “Felicidade não existe. O que existe na vida são momentos felizes”. E o autor de 'Cadê você', 'Essa noite você vai ter que ser minha', 'Eu vou tirar você desse lugar' e outros hits popularíssimos dos anos 1970 e 1980 está num destes momentos de bonança na carreira.

Com 35 discos e mais de 400 músicas compostas e gravadas, acaba de lançar 'Dia 16', sucessor do álbum 'Praça Tiradentes', em que Zeca Baleiro e Rossana Decelso promoveram sua inclusão no lado A da indústria fonográfica do terceiro milênio.

Com uma pegada mais rock’n’roll, explicitada na levada AC/DC da música título, Odair flerta com o folk rock e gospel ('Deixa rolar'), apresenta sinais de country americano ('Sem compromisso'), demonstra ter ouvido Erasmo Carlos e o amigo de primeira hora Raul Seixas ('Começar do zero', 'Encontro'), emula Mick Jagger e Keith Richards ('Fera', faixa que ficou de fora da célebre e cult ópera rock 'O filho de José e Maria') e justifica o apelido de Bob Dylan da Praça Tiradentes ('A moça e o velho').

As letras, como sempre diretas, sem meias ou difíceis palavras, tratam de temas como o amor de mãe ('Lembro'), um amor pessoal vivido num morro carioca ('Morro do Vidigal'), casos diferentes de fim de caso ('Me desculpe', 'Sai de mim'), uma proposta explícita de amor a qualquer custo ('Sem compromisso') e, ao final, três minutos de Cores beatlemaníacas.

Com o refrão festeiro “hoje vai chover/ hoje a casa cai”, celebrado na música 'Dia 16', Odair José reassume seu posto de ícone popular. E reencontra as raízes musicais roqueiras, cultivadas na adolescência, quando montou a banda Monft para tocar Beatles, Stones e Animals, para alegria das novas gerações, que, assim como fizeram com Reginaldo Rossi, Márcio Greyck e outros músicos outrora restritos à prateleira do brega, o veneram como ídolo e fonte de inspiração.

SINAL DOS TEMPOS


Nascido em 16 de agosto de 1948, em Morrinhos, interior de Goiás, Odair José Araújo chegou a tocar música caipira na adolescência. Montou banda de rock e, na mudança para o Rio de Janeiro, em 1968, começou a tocar em circos, bares e inferninhos. A observação da vida noturna fez com que se tornasse um cronista das moças de vida fácil e difícil.

Gravou dois discos na CBS, em 1970 e 1972, com parte do repertório feita por compositores que vieram da Jovem Guarda, como Rossini Pinto e Getúlio Côrtes. E registrou, no primeiro, a faixa Tudo acabado, do amigo Raulzito, que em breve estouraria como o maluco beleza Raul Seixas.

Foi a partir da ida para a Philips (hoje Universal) que conheceu o sucesso popular. O compacto com Eu vou tirar você deste lugar vendeu mais de 1 milhão de cópias, e Odair passou a integrar o time de artistas que falavam diretamente às camadas mais populares, ao lado de Cláudia Barroso, Agnaldo Timóteo, Fernando Mendes, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e outros habituais campeões de audiência em parques de diversões, quartos de empregada e bares de beira de estrada.

Enquanto Chico Buarque, Caetano, Gil, Milton e Tom Jobim sofisticavam a poesia da MPB, com letras bem construídas e metáforas para driblar a censura da ditadura, Odair ia direto aos assuntos. E batia direto nos corações românticos com versos como “vamos viver nessa noite/ a vida inteira num segredo” (A noite mais linda do mundo), “meus olhos procuram achar teu sorriso em toda cidade/ nem mesmo sorrindo consigo fugir dessa minha saudade” (Sem saída), ou “eu quero que você não pense em nada triste/ pois quando o amor existe/ não existe tempo sem sofrer” (Eu vou tirar você desse lugar).

Com o fim da ditadura, a MPB envelheceu e, na metade da década de 1980, veio o rock brasileiro com Cazuza, Arnaldo Antunes, Fausto Fawcett, Renato Russo e uma nova geração de poetas sintonizados com os novos tempos de liberdade de temas e abordagens.

BOM GOSTO

Nos anos 1990 e 2000, depois de axé music, funk carioca, mangue beat e a eletrificação da música sertaneja, os limites entre o que seria bom gosto e mau gosto começaram a se diluir. A ressignificação definitiva desses artistas junto às plateias jovens e mais antenadas se dá, simbolicamente, a partir do álbum Reginaldo Rossi – um tributo, de 2000, que reunia dos “MPB” Lenine, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho a bandas queridas da crítica, como mundo livre s/a, Cascabulho e Comadre Florzinha.

Seis anos depois, foi a vez de Vou tirar você desse lugar, com Leela, Pato Fu, Mombojó, o titã Paulo Miklos e Zeca Baleiro, entre outros, celebrando Odair José. Agora, o brega passava a ser, oficialmente, cult.

Baleiro, que fundou, ao lado da produtora Rossana Decelso, a gravadora Saravá, já trabalhava na recuperação das carreiras fonográficas de artistas como Tiago Araripe e Sérgio Sampaio, homenageou a poeta Hilda Hilst e lançou nova luz sobre artistas pouco conhecidos do público, como Antenor Vieira, Lopes Bogea, Patativa. E, vale reconhecer, provocou o veterano Fagner a sair do tom popularesco dos últimos tempos e voltar à velha forma no disco Fagner & Zeca Baleiro, de 2003.

Odair, que andava meio sumido e fez um retorno ao disco em 2006, com o álbum Só pode ser amor, virou parceiro de Baleiro num tema em homenagem a Bruna Surfistinha (E depois volta pra mim) e, em 2012, lançou pela Saravá o CD Praça Tiradentes, que incluía canções feitas por Carlinhos Brown e Chico César. O compositor popular por excelência conquistou a crítica mais jovem, que não viveu a divisão intelectual de três décadas antes, e retomou a confiança para fazer a síntese de sua história, suas memórias e suas influências neste Dia 16.

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