Novo álbum da cantora e pianista canadense Diana Krall carece de alegria

por Álvaro Fraga 22/03/2015 13:03

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Inteiramente dedicado ao pop, o álbum Wallflower, da cantora e pianista canadense Diana Krall, é um resgate das memórias afetivas da artista. São sucessos dos anos 1960, 1970 e 1980, clássicos dos Beatles, The Mamas and the Papas, Bob Dylan, Eagles, Carpenters, Jim Croce, Gilbert O’Sullivan, Elton John e Paul McCartney, entre outros.

O viés do disco é romântico e, como sempre, Diana Krall se porta de maneira elegante, sem histrionismo. Dona de técnica refinada como pianista e dotada de uma voz que a transformou em sensação entre as new divas do jazz no começo da década de 1990, quando surgiu, a intérprete e instrumentista incursiona pelo mundo pop com o desembaraço de sempre. Porém, Wallflower, embora correto e agradável, não chega a empolgar.

A dificuldade é que, na combinação entre elegância e emoção, se nota uma hipertrofia da primeira e uma atrofia da segunda. O repertório foi escolhido com muito critério, e quem tem 50 anos ou mais, como a própria Krall, certamente se lembrará da maioria das canções. É justamente aí que está o problema. É impossível não comparar as gravações originais com os arranjos do álbum de Diana Krall, com prejuízo, muitas vezes, para o trabalho recém-lançado.

A opção por canções românticas em parte justifica a ambiência “cool” do CD, mas fica patente que a artista e os produtores do disco poderiam ter carregado mais no suingue, com um pouco mais de alegria e arranjos menos tristes. Entre as 16 faixas (há duas em duplicata, com versões ao vivo), boa parte padece da ausência de vibração, de emoção, de sentimento.

É assim com California dreamin’, do The Mamas and the Papas, que abre o disco. A música, originalmente alegre, solar, graças à Mama Cash, ganha arranjo melancólico. Para completar, há uma bateria eletrônica em destaque, totalmente desnecessária.

Depois de Desperado, do Eagles, e Superstar, do Carpenters, que padecem do mesmo problema, com nítida falta de brilho, Alone again (Naturally) ganha vida no dueto de Krall com Michael Bublé, em um dos bons momentos do disco. Na sequência, Wallflower se sobressai com a participação do cantor, compositor e instrumentista Blake Mills. A melancolia dos versos de Bob Dylan tem a entonação exata, sem exageros.

Já a leitura de If Itake you home tonight sofre com o excesso de cordas e firulas nos arranjos. O resultado é uma versão comum da canção de Paul McCartney. I can’t tell you why, outra incursão pelo repertório do Eagles, ganha interpretação pouco inspirada, além da bateria eletrônica que nada acrescenta.

Sorry seems to be the hardest word (Elton John), Operator (Jim Croce) e I’m not in love (10 cc) mantêm a pouca vibração que contamina algumas passagens do álbum. Na sequência, Feels like home (gravada, entre outros, por Bonnie Raitt), soa mais cristalina e original, e em nada remete à raiz country da canção. A faixa tem participação de Bryan Adams.

Don’t dream it’s over, originalmente a faixa mais over do repertório, graças à versão estridente do grupo australiano Crowded House, se sobressai pelo arranjo clean e contido, prevalecendo a máxima “menos é mais”. O mesmo para In my life, dos Beatles. A grande interpretação do disco.

As três últimas faixas têm mais gás e energia. Yeh yeh, na qual Diana divide os vocais com George Fame, traz boa presença de um naipe de sopros, é bem dançante e alegre. Sorry seems to be the hardest word e Wallflower, com versões ao vivo e menos rebuscadas, deixam espaço para que os dotes vocais e instrumentais de Krall ganhem relevância.

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