Portuguesa que deu novo fôlego ao fado, Carminho lança álbum com inéditas

Álbum tem composições de Caetano Veloso e Arnaldo Antunes e Marisa Monte, com quem faz dueto

por Ailton Magioli 17/03/2015 08:00

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LEO AVERSA/DIVULGAÇÃO
(foto: LEO AVERSA/DIVULGAÇÃO)
“O fado é o fado. Como o samba é o samba”, diz, com conhecimento de causa, a portuguesa Maria do Carmo de Carvalho Rabelo de Andrade, a Carminho, de 30 anos, descartando de imediato a expressão “novo fado” à qual costuma ser associada aqui no Brasil.


Representante da nova geração de fadistas, ela acredita que, a exemplo de outros gêneros, o fado vai caminhando e incorporando influências, cabendo ao tempo – e a mais ninguém – dizer o que fica e o que não fica ao longo dos anos. “Não tenho a intenção de mudar o fado”, esquiva-se Carminho, que está lançando 'Canto', o terceiro álbum solo de carreira, depois dos elogiados 'Fado' (2009) e 'Alma' (2012).

Com shows agendados para o mês que vem no eixo Rio–São Paulo, a fadista prefere deixar em suspense a presença nas apresentações de convidados brasileiros que, no disco, vão de Marisa Monte a Jaques Morelenbaum, com os quais fez as duas únicas faixas do disco gravadas no país, com direito ainda às participações de Lula Galvão (guitarra), Jorge Helder (baixo), Carlinhos Brown (percussões) e Dadi Carvalho (guitarras e teclados).

Em 'Canto', que é produto da parceria MP. B Discos, Pirilampo e Som Livre, Carminho gravou, além de 'Chuva no mar', de Arnaldo Antunes e Marisa Monte (com quem divide a interpretação da canção), a também inédita 'O sol, eu e tu', de Caetano Veloso, Cezar Mendes e Tom Veloso, reforçando, provavelmente, a admiração que o cantor-compositor baiano tem por ela. Ao vê-la cantar 'Sabiá', de Tom Jobim e Chico Buarque, Caetano classificou a performance da portuguesa de “um breve milagre”.

“De repente, Caetano me oferece uma canção inédita sua com o filho”, emociona-se a fadista, lembrando que o original, que era uma bossa, foi transformado por ela em “quase” um fado. Ainda a respeito de 'Chuva no mar', ela diz ser a canção do repertório do novo trabalho que mais se afasta do universo português do disco, fruto das grandes amizades que ela vem construindo no Brasil, onde também já gravou com Milton Nascimento, Chico Buarque, Nana Caymmi e outros artistas.

Filha da também fadista Teresa Siqueira, Carminho foi criada na região do Algarve, onde sorveu, em família, a música que acabaria reconhecida, pela Unesco, em 2011, como patrimônio da humanidade. A maior influência, segundo diz, veio de Beatriz da Conceição. “Aprende-se fado ouvindo. Trata-se de uma linguagem de transmissão oral e presencial também”, diz a portuguesa. “É uma herança cultural do meio artístico. Para a aprendizagem, portanto, é preciso estar lá.”

O fado, como bem lembra Carminho, passou por variadas fases. Da reconhecida primeira-dama do gênero, Amália Rodrigues, que ela teve a oportunidade de conhecer pessoalmente, a Paquito, passando por Fernando Maurício, Celeste Rodrigues e Lucilia do Carmo, entre tantos outros que constituíram escolas do gênero. “Como fizeram Nelson Cavaquinho, Cartola e tantos outros sambistas aí no Brasil”, compara.

Há quem defenda a tese de que o fado, mesmo tendo sido originado em Lisboa, teria heranças brasileiras, oriundas da modinha e do lundu. Mais especificamente, que o fado seria produto da fusão dos dois gêneros. Para Carminho, o fado é acima de tudo uma raiz tradicional que, além de lembrar a identidade, une o povo português.

Sobre sua aproximação com o Brasil, que visita desde 2007, ela diz: “Para mim tem sido uma grande aprendizagem.” Apesar da crescente aproximação, no entanto, ela faz questão de lembrar que 'Canto' é um disco português. “De raiz tradicional portuguesa, de língua portuguesa”, enfatiza.

O fato de ter gravado duas faixas do novo disco no Brasil é produto de uma oportunidade que ela teve de sair da chamada zona de conforto. “Estas parcerias têm me enriquecido muito”. Mesmo sendo o fado a raiz principal da carreira de Carminho, a música tradicional portuguesa em geral está presente em sua formação. Tanto que em 'Canto' ela diz ter feito questão de contar com instrumentos como viola, acordeão e bandolim, além da guitarra portuguesa.

Além de duas canções de sua autoria ('Contra a maré' e 'Andorinha'), Canto reúne temas de Miguel Araújo ('Ventura'), Reinaldo Ferreira e José Joaquim Cavalheiro Junior ('A ponte'), Fernando Pessoa ('Na ribeira deste rio') e Alberto Janes ('Destino'), entre outros compositores portugueses. Completam o time: Diogo Clemente e Valter Rolo ('Saia rodada'), Jorge Morais Rosa e José Pedro Blanc ('Porquê'), Diogo Clemente ('Vou-te contar'), Maria do Rosario de Melo Viana Pedreira e Jose Antonio de Guimarães Serodio ('Vem') e Vicente Martim ('A canção'), além das canções brasileiras de Arnaldo Antunes e Marisa Monte ('Chuva no mar') e de Caetano Veloso ('O sol, eu e tu'), já citadas. Diogo Clemente assina produção e direção. “O canto une todo o disco: o canto do lugar, o meu canto, o meu caminho artístico”, explica a cantora.

Marisa Monte mostrou-lhe canções inéditas e em construção da última vez em que esteve no Brasil, advertindo-a de que ela não iria escolher uma delas para Carminho. “A canção é que vai escolher você”, avisou Marisa. Depois de cantarem 'Chuva no mar' juntas, a mesma Marisa disse à portuguesa: “Esta nos escolheu. Você não acha?”.

Ventura, que Carminho também gravou no Brasil, teria, a princípio, apenas a formação voz-violoncelo. No decorrer da gravação, a canção ganhou a participação de instrumentistas brasileiros. “De repente, resolvemos fazer as duas versões: uma com toda a banda e outra só com voz e celo, que ganhou uma edição especial em Portugal. Posteriormente, será editada também no Brasil”, diz. No dia 9 de abril, Carminho faz show de lançamento de 'Canto' no Rio de Janeiro, seguindo nos dias 10 e 11 para São Paulo. De Minas Gerais, além das referências na música de Milton Nascimento ela demonstra apego à comida, que já experimentou em casa de amigos. “Só falta conhecer.”

Ouça a faixa 'Chuva no mar', com Carminho e Marisa Monte:



Ela enriquece e embeleza o fado
Kiko Ferreira


Na música portuguesa, é comum dotar temas tradicionais de novas letras. A música de abertura do terceiro disco da cantora portuguesa Carminho, 'Canto', é um belo exemplo de como a iniciativa pode funcionar bem.

Após encontrar, num sebo em Porto Alegre, um livro de poemas de Reinaldo Ferreira (autor de 'Casa portuguesa'), ela resolveu usar o poema 'A ponte' na melodia do tradicional 'Fado menor do porto', e conseguiu uma das músicas que costumam se tornar indeléveis: “da margem esquerda da vida/ parte uma ponte que vai/ só até meio, perdida/ num halo vago, que atrai”. Sintomáticos versos de uma intérprete que se destaca no time de jovens cantores de fado que revigoram as raízes lusas.

Fã da música brasileira, assim como os colegas Eugênia de Melo e Castro e Antonio Zambujo, ela revela ter descoberto por aqui, principalmente nas viagens de lançamento dos álbuns 'Fado' (2009) e 'Alma' (2012), uma sensação de liberdade e alegria que permitiu que mostrasse aqui, pela primeira vez, suas próprias composições.

'Contra a maré' (“Eu remo contra maré”) e 'Andorinha' (“O buscar a eternidade/ tal como ela, não tem fim”), os momentos mais pessoais do álbum, estão justamente entrincheiradas entre as recentes descobertas brasileiras. 'Chuva no mar' (Arnaldo Antunes/Marisa Monte), contido e emocionado dueto com Marisa Monte que trata da imensidão do mundo e do poder de transformação das coisas, e o samba tornado fado 'O sol, eu e tu', primeira parceria de Caetano Veloso com o filho caçula, Tom Veloso, sobre celebrar o mundo cada vez que nos olhamos de perto, compõem o miolo de um disco que reflete maturidade e consciência de seu talento e potencial.

Mesmo que nos momentos em que soe mais tipicamente portuguesa, como na brejeira 'Saia rodada' (Diogo Clemente/Valter Rolo), na dançante 'Destino' (Alberto Fialho Janes/Diogo Clemente) e na meditativa 'Na ribeira deste rio' (música de Mario Pacheco sobre poema de Fernando Pessoa), pareça, a nossos ouvidos mal-acostumados, como uma intérprete aquém de seu tempo, o conjunto das 13 faixas se mostra coerente e suficiente para entender os elogios e prêmios que ela vem recebendo desde a estreia, no projeto coletivo 'Saudades do fado' (2003). Carminho é uma fadista que arriscou levar suas raízes pelo mundo. E dele trouxe uma postura que enriquece e embeleza a música de seu país e sua autodeclarada portugalidade.

. CANTO, de Carminho
. Preço sugerido: R$ 22,90

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