Álbum 'Cordiais saudações' reúne clássicos da seresta

Disco de Roberto Seresteiro reúne 15 temas tradicionais, entre sambas, valsas, modinhas e outros ritmos

por Kiko Ferreira 15/03/2015 10:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Dani Botelho/Divulgação
(foto: Dani Botelho/Divulgação)
No seu célebre Dicionário musical brasileiro, Mário de Andrade definiu serenata como “execução de trechos musicais depois do anoitecer” que, derivada de sereno, também pode ser chamada de serenada. O escritor e pesquisador cita Luciano Gallet, que afirma que “a seresta (serenata) é o choro, com a mesma formação instrumental, ou diversa – acompanhando um cantor solista popular”. E continua: “As serestas, hoje em dia em decadência nos grandes centros, foram o regalo da geração passada: realizavam-se nas ruas, nas praias, especialmente em noite de luar”. O texto citado, de Gallet, vem dos Estudos de folclore, de 1934.


Pelos livros, na primeira metade do século 20 a seresta já não estava na moda. Mas ela resiste, seja em tradicionais noitadas interioranas, como na vesperata de Diamantina, na série Minas ao Luar, seja na leitura contemporânea dos Trovadores Urbanos, na capital paulista, com sete discos gravados e até uma versão mirim, com pegada ecológica. Quem aposta na alma romântica do brasileiro não perde negócio nem viagem.


Tida por muitos como primeiro estilo de música popular urbana, com origem no século 18, a seresta ganha, oficialmente, mais um adepto. O paulista Roberto Saglietti Mahn, que cresceu ouvindo os discos antigos do avô em Piracicaba, no interior de São Paulo, assume o codinome artístico de Roberto Seresteiro e lança seu primeiro disco, 'Cordiais saudações', com 15 temas tradicionais, entre sambas, valsas, modinhas e outros ritmos comuns às rodas de choro, samba e seresta.


Jovem que prefere a companhia de veteranos como Inezita Barroso, Cauby Peixoto e Dóris Monteiro, Roberto tem no currículo um show em homenagem a Orestes Barbosa (Orestes Barbosa – o poeta da canção, de 2013) e O choro e sua história, que dividiu em 2009 com o regional do bandolinista Izaias Bueno de Almeida. Jornalista, dá palestras e cursos sobre música popular e produz e apresenta o programa Espaço seresta na Radio Educativa FM de Piracicaba.

Acompanhado pelo quarteto Regional Imperial e contando com as participações do próprio Izaias e do violonista Alessandro Penezzi, Roberto faz seleção de especialista. E ainda conta com dois românticos incorrigíveis: Agnaldo Rayol, que as moças dos anos 50 e 60 amavam amar, divide microfone na canção sertaneja Ave-maria do sertão (Albertro Conde/Pádua Muniz); e Roberto Luna canta com ele o samba-canção Madrugada (Herilveto Martins/ Evaldo Ruy).


Com interpretação normalmente reverente, algumas vezes com teatralidade quase ostensiva, ele destila o melhor Noel Rosa (Vitória, Cordiais saudações), pinça a Andorinha e a Suburbana de Sílvio Caldas, mata saudade da Professora, de Benidito Lacerda e Jorge Faraj, e oferece uma boa atualização do excelente samba-choro Seu Libório, de João de Barro e Alberto Ribeiro.


Dolente na Noite de garoa (Vicente Lima) e incisivo no clássico fox-canção Dá-me tuas mãos, de Mário Lago e Roberto Martins, ele acerta no humor de Jornal de ontem (Romeu Gentil e Elisário Teixeira) e recupera o conciso sucesso de Cyro Monteiro Alô, João (Baden/Vinícius). No final, fica a sensação de uma empreitada competente, feita por um jovem que vai envelhecer com consciência de sua busca por uma música cuja matéria-prima é a beleza atemporal de versos e melodias literalmente imortais.

 

 

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA