Vocalista do Raça Negra diz que letras românticas deram upgrade no samba

Romantismo ampliou o alcance do ritmo, que antes só falava 'meu barraco caiu', 'moro no morro', 'vida de bar'. Grupo se apresenta neste sábado em Contagem

por Walter Sebastião 14/03/2015 08:00

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GRUPO BALO DE COMUNICAçãO/DIVULGAçãO
O músico Luiz Carlos da Silva, do Raca Negra (foto: GRUPO BALO DE COMUNICAçãO/DIVULGAçãO)
O paulistano Luiz Carlos da Silva, líder e criador do grupo Raça Negra, tem 58 anos, mais de 30 dedicados ao samba. Ele já lançou 37 discos. Foi diagramador de jornal, vendedor, até ver o sonho de ser cantor, cultivado desde os 17 anos, dar certo.

Mumuzinho é o apelido do carioca Márcio da Costa Batista, de 31, que está lançando seu terceiro disco, 'Fala meu nome aí'. Filho de pai motorista e cantor, formou-se em artes cênicas no grupo Nós do Morro e participou de alguns filmes. Frequentador dos pagodes do Rio de Janeiro, há quatro anos vem dando corda à carreira musical, levado por amigos como Dudu Nobre e com as bênçãos de Zeca Pagodinho.

No mesmo ano em que Mumuzinho nasceu, em 1983, Luiz Carlos da Silva estava começando as atividades do Raça Negra. O carioca, agora conhecido nacionalmente pela participação no programa Esquenta, de Regina Casé, a partir de maio cai na estrada, batalhando para se afirmar como cantor. Luiz Carlos da Silva, por sua vez, lança o projeto Gigantes do Samba, big band formada a partir de encontro de grandes nomes do gênero. A estreia ocorre hoje, em Contagem, onde o Raça Negra divide o palco com os mineiros do Só Pra Contrariar.

Portas abertas
“Minha satisfação é saber que levamos o samba a lugares onde ele nunca tinha chegado. Abrimos as portas das rádios FMs para o samba. Quando começamos, não era assim”, diz Luiz Carlos. Ele conta que o show que o Raça Negra fez no Canecão em 1995 foi o maior público que a casa carioca (já extinta) registrou. Outro orgulho do músico é empregar no samba teclado, metais, cordas e piano. “Fui muito criticado. Hoje, todos os que me criticaram fazem o mesmo. A época de samba só com pandeiro, cavaquinho e violão acabou”, afirma. Sem medo de voltar a ser criticado, diz: “Foi muito bom dar um upgrade no samba. É música boa, legítima cultura popular.”

Na origem do pagode romântico, do qual Luiz Carlos é um dos criadores, estão letras que traziam “o romantismo de Roberto Carlos” para o samba.”Fiz o que Tim Maia sugeriu. Ele dizia que o samba era perfeito, o único problema é que só falava ‘meu barraco caiu’, ‘moro no morro’,’ vida de bar’”, recorda. “E assim nasceu um gênero musical que criança, família, qualquer um pode ouvir e brincar”, diz.

Luiz Carlos cita composições de Cartola, Manacéia e Lupicínio Rodrigues para traçar a origem do romantismo no samba. Ele não gosta de tudo que ouve hoje em dia. “Em todo segmento tem gente de todo tipo. Temos grupos que não têm responsabilidade musical, assim como existe engenheiro que constrói prédio que cai.”

“Meu conselho para quem quer se dedicar à música é muito trabalho, porque não é uma carreira fácil. É 20% de talento e 80% de sorte. Depende de se colocar no momento certo, com a coisa certa. Então, tem que correr muito atrás.” Para se autodefinir, diz: “Não sou artista, sou trabalhador da música”.

O “trabalhador da música” identifica necessidade de renovação no cenário nacional. “Se a Alcione morre, quem fica no lugar dela? Se os Titãs acabam, que outro grupo de rock com o mesmo valor nós temos?”, indaga.

“A renovação, na minha opinião, não passa pela internet, que só usa o artista. Ela tem de vir pelo caminho normal, gravando um disco depois outro, chegando às rádios. É o rádio que faz e perpetua o artista de música. A pessoa não te vê, então, tem de prestar atenção ao que ouve. Vejo o pessoal da música na TV, mas para fazer o quê não sei. Televisão é para ator.”

O COMEÇO

Foi em 1983 que o Raça Negra deixou de lado o nome 'A Cor do Som'. O grupo chamava atenção por tocar músicas de outros cantores em ritmo de samba. Nasceu como trio e, já com sete integrantes, por mais de uma década tocou na noite, até gravar fita e partir em busca de gravadoras. O primeiro disco, com o nome do grupo, é lançado em 1991. A novidade eram
sambas com balanço envolvente e letras românticas. Nascia o pagode romântico, que influenciaria boa parte da geração de jovens sambistas de então.

A brincadeira ficou séria


“O que era uma brincadeira ficou sério, a responsabilidade aumentou. Vivo um momento de foco na música”, diz Mumuzinho, explicando que deu um tempo na carreira de ator. Fala meu nome aí, seu terceiro álbum, é eclético, bem livre, com várias faces, segundo sua definição. “Tem romantismo, conceito, pegada popular”, exemplifica.

Ele aponta como representativas de seu momento musical as composições Teste do conhecimento, Fulminante e Design. A primeira é uma reflexão sobre ciência e religião; a última, um samba moleque sobre os shortinhos das garotas.

“Estão no disco músicas que acredito que vão permanecer. Quero continuar a cantar as mesmas composições quando ficar velhinho”, afirma. Ele se diz exigente com seus discos – não só seleciona o que canta, como estuda atenciosamente melodia e letras, além de buscar interpretações que “tenham alguma coisa de diferente”. Resumindo, tudo no álbum tem a mão dele, da capa aos cuidados com o som. “Pode demorar a ficar pronto, mas, para o meu público, procuro oferecer o melhor.”

O que Mumuzinho considera essencial é que haja oportunidades para todos. E por isso admira artistas que são generosos com os mais jovens. “Quem mudou a minha vida não foi a TV, foi a Regina Casé, que me convidou para o programa dela e abriu espaço para eu divulgar o meu trabalho.” Elogia, respeitoso, os sambistas que ganharam presença a partir dos anos 1980. “Péricles, Zeca Pagodinho, Alcione, Alexandre Pires e tantos outros. São pessoas de muito conhecimento, de garra, que lutaram muito para o samba chegar à posição que têm hoje. Perto deles a gente só tem a aprender.”

Diferentemente de Luiz Carlos, Mumuzinho é otimista em relação ao cenário da música brasileira. “Admiro o momento que estamos vivendo. Tem muita gente fazendo um som legal, criando músicas, buscando sonoridades, repertório e produção bacana. Como toda hora aparece alguém novo, cria-se um contexto de mais opções de sons, novas referências.”

O COMEÇO
Mumuzinho é carioca da zona oeste do Rio de Janeiro. Formou-se em artes cênicas no grupo de teatro Nós do Morro e integrou o elenco de filmes como Cidade de Deus (2002), Cidade dos homens (2007), Tropa de elite (2007). Frequentador de pagodes, começou carreira fazendo shows. “Sou cantor. Ainda estou aprendendo a compor.” Já lançou Transpirando de amor (2011), Dom de sonhar (2012) e agora Fala meu nome aí, sequência do DVD Mumuzinho ao vivo (2013). “Sou 70% cantor e 30% ator”, diz. Mas, no momento, não tem tempo para ser ator.

SHOW RAÇA NEGRA E SÓ PRA CONTRARIAR
Neste sábado, às 22h, no Espaço Só Marcas, Avenida Babita Camargos, 1375, Contagem - MG

 

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