Leia 'entrevista imaginária' com Nelson Freire, o maior pianista brasileiro

Amigos e admiradores foram convidados a responder perguntas destinadas a Freire, que se apresenta nesta quinta e sexta-feira na Sala Minas Gerais

por Ana Clara Brant 05/03/2015 07:30

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Ben Ealovega/Decca
(foto: Ben Ealovega/Decca )
Nelson Freire, de 70 anos, é notório nos quatro cantos do planeta por seu talento e virtuosismo, mas também por sua timidez e introspecção. Hoje e amanhã, o mineiro, que ostenta há décadas o posto de maior pianista brasileiro e um dos melhores do mundo vai se apresentar ao lado da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais pela quarta vez. Porém, será sua estreia na Sala Minas Gerais, espaço de padrão internacional recém-inaugurado em Belo Horizonte dedicado à música clássica.

Segundo sua assessoria, Nelson Freire preferiu descansar e se preparar para os concertos e decidiu não atender ao pedido de entrevista do Estado de Minas. Diante da impossibilidade de ouvi-lo, decidimos fazer uma entrevista imaginária com o artista nascido em Boa Esperança (Sul de Minas). Pessoas de seu convívio e admiradores foram convidados pela reportagem a responder às perguntas destinadas a Freire.

Participam desta entrevista imaginária Berenice Menegale, pianista e diretora- executiva da Fundação de Educação Artística (FEA), amiga de Nelson desde 1960; Celina Szrvinsk, professora e pianista, que mantém um contato profissional com ele há cerca de 35 anos, desde quando morava no Rio de Janeiro; Marcelo Ramos, maestro titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG), que chegou a reger ao menos dois concertos em que o pianista esteve presente e o encontra esporadicamente em eventos do meio erudito; Osvaldo Vianna, afinador, que nos últimos seis anos afinou os pianos que Nelson Freire tocou em BH e em outras cidades do estado, e o jovem pianista Tiago Santos Pinto, de 20 anos, fã do virtuose, que já assistiu a quatro apresentações dele e teve o privilégio de jantar com o músico, após um concerto no ano passado, na capital mineira.

Alguns dos entrevistados ficaram, de início, receosos de responder, temendo desagradar um músico conhecido por seu recato. Mas decidiram se arriscar, porque a intenção desta entrevista imaginária é de homenagem, não de desafio. Com vocês, ‘‘Nelson Freire’’:



Chopin ou Schumann? Por qual desses compositores o sr. tem apreço especial e por quê?
Ambos são compositores que enriqueceram de forma extraordinária o repertório do piano. Ambos grandes mestres da música, que Nelson tem interpretado com especial afeto, inclusive, este Concerto de Schumann que será apresentado hoje e amanhã na Sala Minas Gerais. Chopin é, no entanto, um caso especialíssimo por ter sido um pianista maravilhoso, que compôs praticamente só para o seu instrumento. Schumann, um poeta, sua fantasia era povoada pelas tradições e literatura da Alemanha. Chopin, o polonês, criou uma obra de altíssima inspiração e sofisticada elaboração, baseada em sentimentos profundos de amor à pátria dilacerada e à música tradicional. Difícil preferir um ao outro. Quando Nelson toca, pode-se pensar que, naquele momento, aquela música que está soando é a sua preferida.
» Berenice Menegale


Qual a diferença de se apresentar sozinho num concerto e com uma orquestra como a Filarmônica?

Tocar música para piano solo ou um concerto com orquestra são desafios diferentes. O que faz o músico vibrar é a beleza e o interesse da música bem escrita para o seu instrumento. São experiências que partem da proposta do autor; o pianista se prepara para sua interpretação, na qual, mesmo quando ele não tem uma orquestra que o acompanhe, terá a companhia do autor com o qual, através da música, ele convive todo o tempo.
» Berenice Menegale


Em 2010, o sr. teve problemas sérios com uma tendinite e teve que cancelar várias apresentações. Chegou a temer não conseguir tocar mais?
Com todos os pianistas que convivo e que tiveram esse problema, nunca percebi esse pânico por nunca mais poder tocar. É claro que sentem muita dor, têm que fazer fisioterapia, diminuir o ritmo, descansar. Mas imagino que Nelson nunca tenha tido esse receio de não conseguir tocar nunca mais. A tendinite incomoda pelas mudanças na rotina e na agenda, mas nada além disso.
» Celina Szrvinsk


Em sua trajetória, com quem o sr. mais aprendeu?
Acredito que Nise Obino, a primeira professora, tenha sido a sua grande mentora artística. No documentário de João Moreira Salles sobre sua vida, Nelson admite: ‘Não há dia em que não pense nela’. No filme, ele narra de forma emocionada a sua admiração pela personalidade de Nise. Essa admiração, certamente, foi decisiva para orientar os passos do jovem pianista, pois, conforme diz Rubem Alves (1933-2014), conterrâneo e fã confesso de Nelson Freire, aprendemos porque amamos, aprendemos porque admiramos.
» Celina Szrvinsk


O sr. é considerado o maior pianista do Brasil e um dos melhores do mundo. Como lida com a competição?

Já acompanhei Nelson em alguns concertos e fico impressionado com sua humildade, com sua educação. Ele jamais se estressou ou criticou alguém. Ele lida com um maestro em início de carreira do mesmo jeito que lida com quem está no auge. Pelo que deu para perceber no documentário do João Moreira Salles, o que ele é hoje é resultado de um esforço pessoal, e não porque ele quer superar alguém. Se existe uma competição, é com ele próprio.
» Marcelo Ramos


Mesmo morando fora do estado há tantos anos, o que o sr. conserva de sua mineiridade?
Ele me parece ser muito reservado, recatado, introspectivo e não gosta de chamar a atenção, mesmo chamando, indiretamente, porque é um monstro da música. Eu acho que isso é bem do mineiro.
» Marcelo Ramos


Qual foi o piano mais especial que o sr. já tocou? Tem uma marca preferida?
Nelson Freire só toca a marca Steinway e, de preferência, o modelo de Hamburgo, alemão, porque é um piano com estilo europeu, que tem uma sonoridade mais aveludada. A Filarmônica, inclusive, adquiriu dois pianos desta marca e deve ser com um deles que vai se apresentar na Sala Minas Gerais.
» Osvaldo Vianna


Que cuidados o sr. costuma ter com os seus pianos?
O cuidado básico com qualquer piano é sua regulagem e afinação. Esta varia e deve ser feita de três em três meses ou quatro em quatro meses. Depende de quanto você toca. Agora, no dia mesmo da apresentação, ele tem uma exigência apenas. Ele pede para que fique completamente sozinho na hora do ensaio. Não deixa que ninguém fique, nem câmeras de TV, para que possa se concentrar. Nelson é uma pessoa supertranquila de se lidar.
» Osvaldo Vianna


O que o piano tem de tão mágico que o fascina desde os 5 anos de idade?
Penso que com o Nelson tenha ocorrido mais uma aproximação inevitável do piano do que uma escolha propriamente dita, visto que as características que mais me chamam a atenção em suas performances são a naturalidade e o relaxamento. Assim, creio que o Nelson seja pianista porque não poderia ser diferente. Além disso, é um instrumento de certa forma “recompensador” para aqueles que a ele se dedicam, por sua riqueza de possibilidades sonoras e pela vastidão e importância do repertório, tanto para piano solo quanto para piano e orquestra e formações de câmera.
» Tiago Santos Pinto


Você já tocou nas principais salas de concerto do mundo. O que achou da iniciativa de ter uma sala com padrões internacionais no seu estado e qual sua expectativa de tocar lá hoje e amanhã?
Acredito que o sentimento predominante do Nelson sobre a Sala Minas Gerais seja aquele mesmo da maioria do público: curiosidade. Certamente, há também a felicidade, por saber que esta cidade, em que ele já tocou tantas vezes e cujas plateias sempre o recebem de forma tão calorosa, além de ser a capital do seu estado de nascimento, agora tem uma sala de concertos tão primorosa.
» Tiago Santos Pinto



Orquestra Filarmônica de Minas Gerais
Quinta e sexta-feira, às 20h30, na Sala Minas Gerais (Rua Tenente Brito Melo, 1.090, Bairro Barro Preto.
» Ingressos:
• R$ 30 (Balcão Palco e Coro),
• R$ 40 (Mezanino),
• R$ 50 (Balcão Lateral),
• R$70 (Plateia Central)
• R$90 (Balcão Principal). Meia-entrada para estudantes e maiores de 60 anos, mediante comprovação.

» Informações:
(31) 3219-9000 ou www.filarmonica.art.br.

»  Programa:
• Corigliano (Abertura Promenade)
• Schumann (Concerto para piano em lá menor, op. 54)
• Villa-Lobos (Uirapuru)
• Respighi (Os Pinheiros de Roma)

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA