Ney Matogrosso reúne em CD canções de compositores que desafiaram a pecha de malditos

Criatividade é a marca desses autores que conseguiram ocupar espaço singular na MPB

por Ailton Magioli 03/03/2015 08:20

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Tom Cabral/Divulgação
O cantor e compositor carioca Jards Macalé se apresenta no festival Mimo, em Olinda (PE), em 2013 (foto: Tom Cabral/Divulgação)
Ao anunciar o desejo de fazer um disco dedicado às canções de Jards Macalé e Jorge Mautner, entre outros, Ney Matogrosso acabou trazendo de volta a produção dos chamados malditos da MPB – time de compositores que, na década de 1970, foi solenemente ignorado pela indústria fonográfica e pela grande mídia. Incluído na seleção, Itamar Assumpção (1949-2003) veio à cena na década seguinte, via Vanguarda Paulistana, enquanto Luís Capucho surgiu nos anos 1990, fornecendo canções para Cássia Eller (Maluca) e Pedro Luís e A Parede (Máquina de escrever).

Fui alçado a essa posição por Ney Matogrosso”, diz Capucho, para quem a simples inclusão de seu nome na lista de prováveis autores a serem gravados pelo cantor já o coloca em posição de destaque ao lado de Macalé , Mautner e Itamar. Para reforçar a seleção, Ney poderia convocar, ainda, Tom Zé, Sergio Sampaio (1947-1994), Luiz Melodia, Torquato Neto (1944-1972) e Walter Franco, o autor-intérprete de Cabeça, a sensação do 7º Festival Internacional da Canção (FIC), em 1972. Aquela letra estranha e o uso pioneiro de recursos eletrônicos nos arranjos provocaram imensa polêmica envolvendo público e crítica.

Às vésperas de completar 72 anos, Jards Macalé, o mestre dos mestres de então, acredita que Ney Matogrosso, ao escolher tais autores para um disco, contribui para desmistificar o rótulo de maldito.“Ele deu entrevistas admitindo que não considera o adjetivo apropriado para definir esses compositores”, justifica. Para ele, a escolha do cantor se deve mais ao tipo de linguagem adotada pelos hoje benditos malditos. Gravado por Gal Costa e O Rappa (Vapor barato), Macalé acredita que Ney, “um artista singular”, vai contribuir para popularizar ainda mais suas canções. “Sempre o admirei tanto como intérprete quanto por sua postura corajosa em relação à vida”, elogia.

CONCEITO


Apesar de não ter inéditas a oferecer no momento, Macalé não esconde que pensa em compor algo especialmente para Ney cantar. “Dei a ele um CD de parcerias minhas com o poeta Wally Salomão. São músicas de linguagem forte e inventiva. Creio que escolherá as que mais lhe tocarem a sensibilidade e couberem no conceito do disco”, acrescenta Jards Macalé. Na opinião dele, a performance e a interpretação de Ney, destaque do grupo Secos e Molhados, são vitais. “Sua voz especialíssima e a expressão corporal são responsáveis por torná-lo único, um grande artista”, elogia. Ser tachado de maldito até a década de 1970 era um elogio e fazia a diferença, diz Macalé. “Era a marca de inventividade. Dos anos 1980 em diante, no entanto, aquilo se transformou em maldição pelo fato de não se compreender o que significava estar fora do padrão estabelecido como normal. De maldito passou-se a amaldiçoado”, analisa. Com isso, prejudicou-se bastante o entendimento da obra dos chamados malditos. “O rótulo assustava as pessoas”, acredita ele, ressaltando, no entanto, o fato de esses autores terem influenciado as gerações seguintes de artistas.

Macalé enfrentou o preconceito do “amaldiçoamento” com trabalho. “Superei as dificuldades trabalhando continuamente em minha linguagem pessoal”, explica. Segundo ele, a indústria fonográfica, na época, estudou até criar um nicho para os malditos. “Pensaram em um selo que os identificasse, mas a moda passou e ficou apenas o adjetivo”, relembra ele, que prossegue na ativa sem se incomodar com rótulos.

NICHO


Na estrada ao lado do filho Diogo Franco, de 30, Walter Franco vai comemorar suas sete décadas de vida no palco. “Consegui criar um nicho para o meu trabalho, independentemente do rótulo de maldito”, comemora o autor de Cabeça, atribuindo a continuidade de sua carreira ao apoio de parte da imprensa escrita, atenta ao trabalho dele e dos colegas. “Fomos capa da Veja”, diz, lembrando que a reportagem focalizou também João Bosco e Luiz Melodia, entre outros artistas dos anos 1970. “Mas não foi um espaço aberto para grandes eventos”, ressalta Walter Franco, que chegou a assinar contrato com multinacionais como a CBS.

Graduado em teatro pela antiga Escola de Artes Dramáticas (EAD), em São Paulo, ele afirma que se não fosse essa formação, dificilmente teria sobrevivido ao rótulo. “Ser maldito, na verdade, é quase uma honra”, assume, citando os poetas Charles Baudelaire (1821-1867) e Vladimir Maiakovski (1893-1930) como legítimos representantes da “raça”. “Depois que tiraram as ciências humanas do ensino, houve um embrutecimento e as pessoas deixaram de entender o significado do rótulo. Hoje, nem todos têm percepção histórica do que é ser maldito”, acrescenta Walter Franco. O preconceito pode prejudicar da agenda de shows à empatia com o público. “Virou um clichê, um estigma”, lamenta.

Ao comentar o interesse de Ney Matogrosso pelo trabalho dos chamados malditos, Franco lembra que o cantor é um dos grandes artistas que o Brasil ainda não entendeu. “Atualmente, vivemos num mundo muito preconceituoso e perigoso”, constata Walter Franco, admitindo que adoraria ter uma de suas inéditas gravadas pelo cantor.

LAIS MERINI/DIVULGAÇÃO - ACERVO PESSOAL
O cantor e compositor Jorge Mautner, sempre na ativa. O músico Walter Franco, em registro de 2000 (foto: LAIS MERINI/DIVULGAÇÃO - ACERVO PESSOAL)
Rótulo traz orgulho


Recém-chegado de Cuba, Jorge Mautner, de 74 anos, lembra que na época de sua estreia na literatura, em 1962, ser classificado de maldito era elogio. “Todos que inovam em determinado período são chamados assim”, diz ele, salientando a importância do comportamento e da moral de uma época na disseminação de rótulos dessa natureza. “Augusto dos Anjos foi um maldito”, reforça, salientando que o artista é responsável pelo rótulo que recai sobre si próprio.

Feliz com a hipótese de Ney Matogrosso interpretar suas canções, ele diz que o cantor já havia gravado Sem medo de assombração, parceria com Nelson Jacobina, para a trilha do seriado Sítio do Picapau Amarelo, da TV Globo. “Pelo que consta, agora ele está interessado no que já gravei: músicas de que ele gosta e não aconteceram”, diz o compositor. Mautner acaba de lançar um box com sua produção dos anos 1980, do qual consta o disco Antimaldito, por meio do qual respondia aos estereótipos.

“Malditos, na verdade, são benditos. Eles promovem os avanços”, afirma Mautner, que convidou o amigo Caetano Veloso para produzir o álbum, que saiu em 1985, com a sonoridade eletrônica em voga naquela época. A propósito do desejo de Ney Matogrosso de gravar seu repertório, Mautner ressalta: “Ele é uma figura importante desde a democratização do Brasil, quando já preconizava a questão LGBT”. O compositor diz que jamais se preocupou com clichês impostos à obra que construiu como cantor, compositor e escritor. “O rótulo de maldito é maravilhoso”, afirma.

Fiador da qualidade

Para se ter uma ideia da ligação de Ney Matogrosso com o universo libertário, além do fato de integrar o grupo Secos e Molhados em plena ditadura militar, vale lembrar: o cantor foi fundamental para que Luís Capucho viabilizasse seu novo CD, Poema maldito, por meio do financiamento coletivo, via crowdfunding. Ney foi um dos principais “sócios” do projeto. “Ele entrou como pessoa física e comprou uma cota-empresa”, conta, orgulhoso, o capixaba. O disco foi produzido em parceria com a plataforma Variável 5, de Belo Horizonte.

Com repertório de várias canções inéditas, Capucho diz que o gesto do cantor significa muito para ele. “Ney tem me colocado na mesma posição de compositores estabelecidos, o que de certa forma me põe como um autor de qualidade”, diz. Apesar de não ser um seguidor dos chamados malditos – era um menino na década de 1970 –, Luís acabou atraído pelo rótulo, que hoje se aplica a ele. “Os temas são os mesmos, mas a minha produção não tem ligação direta e nem foi inspirada na deles”, conclui Capucho. Dono de trajetória construída na cena underground, ele não se considera um maldito.

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Na contramão


Classificados de gurus do inconformismo, ícones da música anticomercial, inovadores e provocadores naturais e eternos inquietos, os malditos da música brasileira, como lembra o blog Mosca na Sopa, vieram à cena no período pós-tropicalista. Com o passar dos anos, acabaram se tornando uma espécie de gênios compreendidos pelo público interessado em algo musicalmente genuíno. Se Torquato Neto e Sergio Sampaio não suportaram o peso do rótulo e morreram precocemente, outros, como Luiz Melodia, integraram-se ao mercado, tendo sua produção registrada e veiculada no rádio e na TV. Com o fim praticamente decretado das gravadoras e o advento das redes sociais, esses artistas encontraram na cena independente e em jovens fãs a trincheira ideal para enfrentar o novo mercado que se abre para a música.

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