Yamandu Costa lança disco Tocata à amizade e já pensa em mais

Violonista gaúcho planeja álbum com o compositor carioca Paulo César Pinheiro e quer gravar com Toninho Horta. Tudo isso depois de quebrar a mão

por Eduardo Tristão Girão 01/03/2015 00:13

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Fotos: Isabela Kassow/divulgação
(foto: Fotos: Isabela Kassow/divulgação )
Ano passado, o violonista Yamandu Costa caiu da escada de sua casa, no Rio de Janeiro. “Foi uma bobagem”, lembra. Inicialmente diagnosticado com tendinite, chegou a cumprir a agenda de shows no exterior antes de descobrir que, na verdade, havia fraturado o osso escafoide. A situação se agravou, ele teve de colocar um parafuso na mão e passou três meses parado. Detalhe: além de ser um dos grandes nomes do violão brasileiro, Yamandu é um dos instrumentistas mais ativos do país. Está sempre às voltas com vários projetos.

“Tive tempo de refletir sobre se essa loucura me agradava, e vi que era isso mesmo que queria. Enquanto tiver gás, vou continuar produzindo. Tenho a oportunidade de viver disso, preciso aproveitar”, conta o artista gaúcho. Recuperado e feliz por encerrar as sessões de fisioterapia, ele anuncia vários projetos. E acaba de lançar o disco Tocata à amizade, belo álbum que é um reflexo da intensa vida profissional que, pelo visto, ele seguirá cultivando.

Tocata... é aberto com a suíte Impressões brasileiras, que escreveu por encomenda em 2010, depois de ser contemplado com um projeto do Museu do Louvre, na França, voltado a compositores estrangeiros. “Pediram algo típico brasileiro. Os franceses são extremamente curiosos e adoram conhecer coisas do mundo”, elogia o violonista. Yamandu escreveu os movimentos Choro-tango, Valsa, Frevo-canção e Baionga, pensados para dois violões de sete cordas (aço e nylon), bandolim e acordeom.

Em cerca de 15 minutos iniciais do álbum (o tempo de duração da suíte), Yamandu costura, com o talento que lhe é peculiar, elementos sonoros facilmente identificáveis como brasileiros. O que poderia ter virado uma indigesta salada de timbres, fraseados e ritmos, nas mãos do gaúcho se transforma em delicada e bem tramada viagem por vertentes populares da nossa música – sem excessos, bem arranjada e chegando fácil ao ouvido. O melodioso terceiro movimento é o ponto alto do trabalho.

LOUVRE


“Essa suíte é uma homenagem à cultura popular, à nossa maneira informal de tocar, com os músicos se encontrando e aprendendo as melodias ali mesmo, na hora. São impressões de algumas regiões sem a pretensão de mostrar a música brasileira como um todo”, diz. A estreia da peça ocorreu no próprio Louvre, mas as gravações foram realizadas no Rio de Janeiro, com Rogério Caetano (violão de sete cordas de aço), Luis Barcelos (bandolim) e Alessandro Kramer (acordeom). Yamandu dividiu a produção com Caetano.

“Eles são solistas incríveis, nomes de ponta da nova geração. Não é um grupo que formei para gravar, mas convidados pelos quais tenho respeito e admiração enorme”, explica o gaúcho. Outro nome importante, acrescenta, é o de sua mulher, a violonista francesa Elodie Bouny, responsável pela direção de gravação. Ela ajudou o quarteto a não perder o fio da meada em relação à interpretação do repertório.

O projeto não podia soar “sujo”, mas a sonoridade camerística “certinha” não era o objetivo. Nesse sentido, a explicação de Yamandu é perfeitamente compreendida em faixas como Graúna, de João Pernambuco: a conversa entre os instrumentos soa orgânica, espontânea, sem necessariamente parecer que os músicos estão tocando em torno de uma mesa de bar.

“Esse disco envolveu muito cuidado técnico, primazia pela interpretação, mas também a preocupação de ser solto. Geralmente, a coisa vai muito para um lado ou para o outro. Deixamos tudo bem limpo, mas com quentura e sabor”, resume Yamandu Costa.

DESCONTRAÇÃO

O gaúcho apresenta no disco duas composições inéditas: a sensível e camerística Negra bailarina e a quase dançante Boa viagem, inspirada em rodas de choro, além de releituras de Pedra do Leme (Raphael Rabello e Toquinho) e Graúna. “Pedra do Leme, muito pouco conhecida, é ligada ao choro, mas com a latinidade que o Raphael buscou no fim da vida. Já Graúna é tradicionalíssima. Se João Pernambuco foi referência para Villa-Lobos, imagine para o resto”, explica.

O disco é encerrado com outra suíte de quatro movimentos: Retratos, de Radamés Gnattali. “Gravamos com descontração, mas respeitando a obra. Chegamos a um equilíbrio”, diz, referindo-se a essa faixa. Esta e as demais composições foram arranjadas pelo quarteto, à exceção da suíte escrita por Yamandu, que confiou a decisiva tarefa ao bandolinista Luis Barcelos.

Laços com Minas

Notícia triste: Yamandu Costa vê poucas chances de percorrer o Brasil com a turnê de Tocata à amizade. “É muito difícil conseguir viajar com tanta gente, isso fica um pouco inviável. Não dá pra sair tocando esse repertório de qualquer forma, ele exige preparação. Devo viajar mais com o álbum Bailongo, que gravei recentemente com o baixista Guto Wirtti”, adianta.

Paralelamente, o gaúcho planeja entrar em estúdio e registrar as canções que escreveu em parceria com o poeta e compositor Paulo César Pinheiro. Na sequência, virá o esperado álbum em colaboração com outro grande violonista brasileiro, Alessandro Penezzi, e, quem sabe, um com o pianista mineiro Marcelo Jiran. Os dois têm repertório inédito quase suficiente para um álbum inteiro.

Por falar em Minas, o gaúcho faz questão de lembrar que teve a oportunidade de dividir o palco com o guitarrista belo-horizontino Toninho Horta, em Goiânia, no ano passado. “Foi um barato. Ficamos com vontade de fazer algo, pois são duas maneiras de tocar muito diferentes, como água e óleo. Essa é uma das mil coisas que não param de acontecer comigo. O negócio é igual a andar de bicicleta: você não pode parar”, ensina. Pelo visto, a mão de Yamandu Costa já está 100%.

FAIXAS


» Suíte Impressões brasileiras (Yamandu Costa)
» Negra bailarina (Yamandu Costa)
» Boa viagem (Yamandu Costa)
» Pedra do Leme (Raphael Rabello e Toquinho)
» Graúna (João Pernambuco)
» Suíte Retratos (Radamés Gnattali)

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