Tributo a Paul McCartney: Descubra quem brilha mais entre os 40 artistas da homenagem

Bob Dylan, Billy Joel, B. B. King, Cat Stevens e Brian Wilson integram o mutirão de 'Art of McCartney', disco duplo que levou mais de dez anos para ser finalizado

por Kiko Ferreira 27/02/2015 00:13

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Valerie Macon/AFP PHOTO
(foto: Valerie Macon/AFP PHOTO)
Na Europa e nos Estados Unidos, a palavra karaokê foi a mais usada para receber 'The Art of McCartney – The songs of Paul McCartney sung by the world’s greatest artists', projeto megalômano do produtor Ralph Sall para celebrar as cinco décadas da beatlemania. Num processo que durou 11 anos, entre a primeira ideia e a masterização, o trabalho reuniu 40 artistas em torno de clássicos e temas obscuros da obra de sir Paul. Impressiona a diversidade de estilos e tendências.


De veteranos como Billy Joel e Bob Dylan, absoluta raridade em iniciativas do gênero, a expoentes da nova geração, como a banda Owl City e a cantora Corinne Bailey Rae, esse time eclético relê 34 canções na versão mais comercial, com dois CDs, e 42 na caixa especial com oito faixas bônus, DVD documentando as gravações e até pen drive com formato do baixo Hoffner, marca registrada de Paul.

 

Confira versão do The Cure para 'Hello goodbye':

 

 

Iniciada oficialmente em 2003, quando o produtor teve um encontro com o ex-beatle para acertar a inclusão de A love for you, do disco RAM, na trilha sonora do filme Até que os parentes os separem, a maratona foi classificada como “karaokê de luxo” devido a um acerto prévio. Para facilitar o processo de gravação envolvendo muitos artistas de agendas complicadas, além de garantir fidelidade às partituras originais, ficou definido que a banda-base seria formada por instrumentistas que acompanham McCartney nos shows: os guitaristas Rusty Anderson e Brian Ray, o tecladista Paul “Wix” Wickens e o baterista Abre Laboriel Jr.

O combinado, mesmo que tenha tolhido alguma possibilidade de aberração ou excesso de liberdade, não impediu que estrelas de mais personalidade mostrassem suas armas. Por sua vez, os mais burocráticos não saíram da zona de conforto.

Na versão com dois CDs, agora disponível nas lojas brasileiras, o maior destaque é um artista de primeira linha nos Estados Unidos, mas pouco lembrado por aqui: Billy Joel. Ele abre o “disco um” com sua pungente versão para Maybe I’m amazed e o “disco dois” com uma Live and let die respeitosa, mas ainda assim vibrante.

 

Ouça 'Maybe I'm amazed' por Billy Joel:



BOB

A maior estrela do pacote, Bob Dylan, brilha ao redimensionar os versos quase adolescentes de Things we said today, que Paul compôs com 21 anos. Esse registro pode ter inspirado a simplicidade com que Dylan se dedicou ao repertório de Frank Sinatra no recente disco Shadows in the night. Brian Wilson, o eterno beach boy, primeiro a aceitar o convite para entrar no jogo, também acerta no arranjo e nos vocais de Wanderlust, tirada de Tug of war (1982), um dos trabalhos mais subavaliados de Paul.

Ainda na contramão do maledicente efeito karaokê, merecem registro a belíssima adaptação de Willie Nelson para Yesterday, o molho cajun com que Dr. John temperou Let’em in, a leitura bluesy de B. B. King para On the way e Smokey Robinson enchendo So bad de alma extra.

 

Bob Dylan abrilhanta 'Things we said today':

 

 

Um pouco discretos, mas eficazes, Cat Stevens, Jeff Lynne e Chrissie Hynde cumprem bem a tabela com The long and widing road, Junk e Let it be. Ligeiramente acima do tom geral, mas ainda eficientes, estão Roger Daltrey (Helter skelter), os senhores do Cheap Trick (Jet) e Joe Elliot, do Deff Leppard, em Hi hi hi e Helen wheels, aqui com a banda completa.

Ainda fora da zona de conforto, Perry Farrell mostra que tem classe para Got to get you into my life, Alice Cooper surpreende em reverente leitura de Eleanor Rigby, e The Cure respeita e atualiza Hello goodbye com James, o filho de Paul, ao piano. Amigo do beatle, Steve Miller, mesmo meio fora de forma, tem retorno digno com Junior’s farm e Hey Jude, no mesmo padrão dos veteranos Dion (Drive my car), Allen Toussaint (Lady Madonna) e o bee gee Barry Gibb (When I’m sixty four).

ARENA Enquanto Paul Stanley e Gene Simmons, do Kiss, encarnam o rock para grandes massas na versão arena de Venus and mars/ Rock show, Sammy Hagar soa over e deslocado fechando o segundo disco com Birthday. Entre os novos, nem Owl City (Listen to what the man said) nem The Airborne Toxic Event (No more lonely nights) injetam o esperado grau de frescor ao repertório de Paul nem os jazzistas Harry Connick Jr. (My love) e Jamie Cullum (Every night) se apresentam em seus melhores momentos.

No meio do caminho, as veteranas do Heart (Band on the run) e os reggaemen Toots Hibbert, Sly Dunbar & Robbie Shakespeare (Come and get it) trazem os temas para suas respectivas praias, sem muito esforço.

Os admiradores de sir Paul McCartney, sério candidato ao posto de mais importante compositor de música popular do século 20, encontram nesses dois discos boas razões para reouvir canções do ídolo gravadas de maneira respeitosa e, na maior parte das vezes, eficiente. A garotada tem a chance de encontrar aqui motivos para pesquisar a obra completa, buscar os álbuns originais e, puxando o fio da meada, descobrir que muita coisa que anda por aí com ares de novidade saiu do repertório do velho Macca.

ESPECIALISTA
Só quem lê fichas técnicas de filmes e discos conhece Ralph Sall. Produtor, supervisor musical, compositor, roteirista e, eventualmente, intérprete, o americano tem nas trilhas sonoras de cinema uma de suas especialidades, mas já esteve envolvido com HQs e televisão. Produziu nomes tão diferentes quanto Ramones, Stone Temple Pilots e Sublime. Tem músicas gravadas por Jewell, Liz Phair, Sugar Ray e George Clinton.  O maior talento de Sall parece ser idealizar discos de tributo. Começou com Deadicated, com vários intérpretes relendo a obra do Grateful Dead. Vendeu mais de 3 milhões de cópias de Common thread: the songs of the Eagles, reverenciando o grupo norte-americano e os hóspedes do Hotel Califórnia. Reviveu os Doors – com os três integrantes ainda vivos – em Stoned immaculate: the music of The Doors. E ganhou disco de ouro com o divertido Saturday morning: cartoon’s greatest hits, em que astros da música pop releem temas de desenhos animados.

 

FATOS E MITOS
>> A produção quase enlouqueceu com a “pontualidade britânica” de Harry Conick Jr. (foto), que só entregou sua versão de My love a 12 horas do início do processo de masterização.

>> Um dos motivos de Willie Nelson ter feito uma das melhores gravações do projeto pode ser a intimidade com Yesterday. Antes de sair em carreira solo e virar ícone americano, ele recriava o hit dos Beatles com uma banda de bar em Forth Worth, Texas, no final dos anos 1960.

>> Para os mais abonados, foi lançada a versão de luxo do projeto com apenas 1 mil cópias, com direito a livro de capa dura, DVD com documentários, caixa em formato do baixo Hoffner e pen drive também com a forma do célebre instrumento. Outra caixa traz o repertório dividido em quatro discos de vinil de alta qualidade.

>> Billy Joel foi presenteado com uma das cerejas do bolo, Live and let die, por ter intimidade de longa data com essa canção, que usa nas passagens de som de seus shows.

>> Nas edições especiais, as faixas extras incluem versão instrumental de Can’t buy me love, por Booke T. Jones; outra extra com Robert Smith, do The Cure (C moon); Alice Cooper (Smile away); e artistas que não estão no line up principal: Ronnie Spector (P.S. I love you), Darlene Love (All my loving) e Ian McCulloch (For no one).

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