Andrea dos Guimarães lança álbum de estreia em São Paulo

Trabalho reúne composições próprias, canção de Björk e releituras de standards brasileiros como Acalanto

por Kiko Ferreira 26/02/2015 09:55

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Omar Paixão/Divulgação
A cantora Andrea dos Guimarães, que lança hoje 'Desvelo', em São Paulo (foto: Omar Paixão/Divulgação)
A melhor maneira de apreciar Desvelo, álbum de estreia da cantora, pianista, compositora e arranjadora mineira Andrea dos Guimarães, é facilitando as coisas para ampliar o contato com sua proposta contida, intimista, camerística. Vale ter à mão um bom som, já que a gravação, feita por Thiago Monteiro, no estúdio Gargolândia, e a masterização, realizada com esmero por Homero Lotito, no Reference Mastering Studio, apontam para cuidados de audiófilos. Nada de fones ruins nem MP3 com baixas taxas de conversão. O ideal é mesmo ter em mãos o CD, que está sendo lançado esta noite, no Itaú Cultural, em São Paulo. E, se possível, ouvir com a luz apagada, sem ruídos externos, para prestar atenção a detalhes, nuances, sutilezas de interpretação.

Nascida em Tupaciguara e radicada em São Paulo desde 1997, Andrea gravou o disco “ao vivo”, nos dias 29 e 30 de abril e 1º e 2 de maio do ano passado, e foi viabilizando as outras etapas de confecção pelo sistema de crowdfunding, com mais de quatro centenas de colaboradores. Pianista clássica com mestrado em música pela Unicamp e professora de várias universidades e do Conservatório de Tatuapé, Andrea começa a carreira solo num disco de formato misto, mesclando músicas próprias e clássicos da MPB que tiveram importância em sua formação.

Desvelo é um disco de voz e piano, com todos os riscos e méritos deste tipo de iniciativa. Em doze faixas, ela pilota um piano seguro, tocado com técnica e sentimento, que guia sua voz por sensações e intenções que abrem com uma quase gismontiana Ciranda dos meninos (dela) e termina com uma leitura dolente de Cocoon, da islandesa Björk, séria candidata a melhor faixa.

Os maiores riscos, apesar de a sequência acontecer de maneira coerente e bem estudada, são as interpretações de standards brasileiros, como Começar de novo (Ivan Lins/Victor Martins), Retrato em branco e preto (Tom Jobim/ Chico Buarque), os dois movimentos da Suíte dos pescadores (Dorival Caymmi) e Acalanto (Edu Lobo/Chico Buarque), temas tão exaustivamente gravados que torna-se muito difícil produzir uma versão marcante e original.

Por isso, o melhor é quando ela subverte intenções e andamentos de composições igualmente importantes, mas com versões mais conhecidas datadas. É o caso de Rio de lágrimas (Tião Carreiro/Piraci/Lourival dos Santos), que ela tira dos habituais trilhos que os sertanejos de raiz costumam usar para ganhar contornos de caixa de música. Ou Asa branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), emoldurada por Seis horas da tarde (Milton Nascimento) e Borandá (Edu Lobo) numa versão capaz de emocionar o mais insensível dos corações. O mesmo se dá com Ela desatinou (Chico Buarque), com sua pegada carnavalesca revertida para um clima de quarta-feira de cinzas.

Andrea também acerta ao dar andamento dolente ao samba Lata d’água, interpretado com um suingue delicado, de apartamento. E cria um momento de maior emoção quando convida o pai, Alcides Nunes, para lembrar o Ataulfo Alves da ingênua Meus tempos de criança, no momento de maior respiro do trabalho. Parodiando o humorista, é um disco para tirar as crianças da sala, interromper as conversas, desligar o celular e gadgets eletrônicos e mergulhar numa música suspensa no espaço, aguardando ouvidos adultos e apurados.

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