MC Gaspar une coco, jongo e embolada em álbum solo de hip-hop

Artista celebra riqueza da cultura popular brasileira em 'Rapsicordélico', que ressalta a liberdade e o diálogo de estéticas musicais

por Ângela Faria 17/02/2015 00:13

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Jonatas Mateus/divulgação
Solo tem parcerias de Zeca Baleiro, Lirinha, Emicida, KL Jay, Dexter, Lou Piensa e Marcelo Preto (foto: Jonatas Mateus/divulgação)
Vocalista e compositor do grupo Z’África Brasil, MC Gaspar reuniu uma comissão de frente respeitável em 'Rapsicordélico', seu primeiro CD solo. Zeca Baleiro, Lirinha, Emicida, KL Jay, Dexter, o canandense Lou Piensa e Marcelo Preto (do Barbatuques) emprestam talento, rimas, flows e beats para um dos discos mais surpreendentes do hip-hop nacional. “Não é rap norte-americano/ É nosso som brasileiro/ Afrodescendência pura/ Na batida do pandeiro”, avisam os versos de Carlos Silva, Gaspar e Zé de Riba. Coco, samba, jongo, embolada, cordel, kuduro, maracatu, baião e candomblé se juntam com naturalidade às levadas que saem das picapes. Não se trata de mais uma mistureba de sonoridades. Gaspar oferece uma simbiose de estéticas.

 

Confira 'Guerreiro de Aruanda', em parceria com Emicida:

 


O Brasil profundo dá régua e compasso ao baile do MC paulistano. Em vez de partir da bateria eletrônica rumo às batidas tradicionais, Gaspar inverteu a rota. Começou pelos emboladores, tambores da capoeira, cocos e pandeiros para só depois apertar o play do computador. Com isso, ele e seus parceiros oferecem uma viagem singular ao universo do canto falado. Viagem, aliás, que não se limita a harmonias, batuques e beats. Gaspar “subverteu” também métricas aprendidas com repentistas e cantadores para reinventar o seu jeito de rimar. É rap, mas tá diferente.


O fã de Mano Brown, Afrika Bambaataa, Nino Brown, Sabotage e Rapin’Hood – mestres do hip-hop – pesquisou e aprendeu direitinho com Luiz Gonzaga, Totonho do Tamandaré, Carlos Silva, Teo Azevedo, Ariano Suassuna, Bráulio Tavares, Sebastião Marinho e Zé de Riba, “orixás” da cultura popular brasileira. No “rap de pé quebrado” de Gaspar, o flow combina com o martelo agalopado. E versos decassílabos, tão caros à poesia nordestina, embalam o “improviso diverso/ com sotaque diferente” desse filho de sanfoneiro e neto de boiadeiro potiguar.

PESQUISA

Aos 36 anos – 20 dedicados ao Z’Africa Brasil, um dos grupos de rap mais importantes do país –, Gaspar foi a campo. Levou dois anos em pesquisas pelo Nordeste e no interior de São Paulo para chegar a Rapsicordélico. Desde o início, sua banda buscou um jeito próprio de fazer hip-hop, mas o CD solo do vocalista radicaliza esse processo. Se o gênero surgido nos anos 1960 nos bairros negros de Nova York ganhou harmonias do jazz e blues e a percussividade jamaicana, o Brasil, com seu berimbau e seus tambores, “esticou os couros”, diz o MC.


E haja couro! Um “coco rapeado”, Mestres griôs, abre o disco com scratchs e batidas potentes sampleadas por KL Jay. Pedrada pura, cordel dançante com referências a Racionais MCs e a Jorge Ben Jor. Logo a seguir, Guerreiro de Aruanda traz um congo de ouro (ritmo do candomblé) mesclado com miami bass, “pai” do funk carioca, para homenagear Ogum. Emicida e Gaspar rogam a São Jorge para proteger a sofrida gente brasileira. O poeta sertanejo Lirinha (ex-Cordel do Fogo Encantado) se junta ao anfitrião em Mãe África para celebrar o casamento do jongo com o rap, com a bênção de mestre Totonho do Tamandaré. “Quando mãe negra dança no terreiro/ Deixa marcas profundas na cidade”, diz a canção alusiva ao impacto da escravatura na formação de nosso povo.


Em Rapinbolada, Gaspar e Zeca Baleiro dobram, redobram e multiplicam septilhas para promover um arrasta-pé cuja batida viaja por maracatu, baião e repente. Tá provado: improviso nordestino e o freestyle dos duelos de MCs não são primos tão distantes assim... Afoxé, marujada, maracatu e umbigada fazem a festa no terreiro hip-hop, irmanados ao funk, ragga e mangue beat. A batucada (com referências a Eu sou raiz, de Aniceto do Império) abre Destruidor de celas, com a presença do rapper Dexter, que amargou a prisão por 13 anos. É ele quem puxa o samba em homenagem a Zumbi, Jesus Cristo, João Cândido, Malcom X, Panteras Negras, Angela Davis e Lampião, guerreiros defensores da liberdade.


Ao lado de seu fiel escudeiro João Nascimento – letrista, produtor musical, percussionista e cavaquinista –, Gaspar implode fronteiras. Ele diz que rap é “música infinita”, tributária à África, ao jazz, ao sertão brasileiro, ao suingue jamaicano, ao kuduro angolano e às raízes negras. “Não existe limite”, adverte, enfatizando sua admiração por griots, cantadores nordestinos, Luiz Gonzaga, Kool Herc (um dos pais da cultura hip-hop) e pelo mestre jongueiro Daniel Reverendo.


O Z’África Brasil está conectado ao mundo, frequentemente canta no exterior, e tem parceiros espalhados pela França, Espanha, Canadá, Itália e África. Vou misturar o rap celebra essa globalização, lembra Gaspar: Lou Piensa, integrante do grupo canadense Nomadic Massive, canta em espanhol, inglês e francês. “Manos arriba/ Es un asalto mental/ Como la historia z’africana/ esto es elemental”, diz. Adepto da psicodelia, Gaspar diz que essa cultura setentista o inspira a “buscar o inimaginável”. Música é arte cósmica, defende.

CARNAVAL

Militante do hip-hop que propaga “valores comprometidos com a construção de um mundo melhor”, o MC chama a atenção para a consolidação do rap no cenário cultural brasileiro. Conta que nunca trabalhou tanto na época do carnaval como agora. De fato, a agenda está animada. Enquanto o Racionais MCs fez show no Recife em pleno domingo folião, Gabriel O Pensador animou a quadra da Escola de Samba Cidade Jardim, em BH, e a batucada em Ouro Preto. Criolo bateu ponto em Fortaleza e Marcelo D2 saudou o Galo da Madrugada em Pernambuco.

 

Por sua vez, o mineiro Flávio Renegado cumpriu agenda carioca. Ou seja: foi-se o tempo em que rap era confinado ao clichê “música de gueto”. Hoje, reforça Gaspar, Criolo canta com Milton Nascimento e inspira Chico Buarque. Gog grava com o grupo Teatro Mágico. Caetano divide o microfone com Emicida.


“Se samba, pagode e sertanejo são reconhecidos como música brasileira, por que o rap não é reconhecido também?”, questiona Gaspar. As letras engajadas de Rapsicordélico falam de orgulho negro, da luta do brasileiro pobre para sobreviver num país marcado pela desigualdade e do legado nordestino. O Z’África Brasil, orgulha-se o MC, mantém cinco projetos destinados a jovens na periferia paulistana, oferecendo aulas de dança e música, além saraus e atividades relacionadas às culturas afro-brasileira e islâmica.


“Hip-hop é transformador”, defende Gaspar, embora crítico a letras que enaltecem o sexismo, o machismo e “a celebração das marcas de tênis”. O MC avisa: “O nosso momento é agora”. Apaixonado pela arte do povo, ele não vê a hora de conhecer Ouro Preto. “Aleijadinho é o nosso gênio negro”, entusiasma-se o rapper que se diz “formado em rualogia na universidade da vida e pós-graduado em quilombologia nuclear”.

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