Anouar Brahem lança seu CD mais ousado

Alaudista tunisiano faz uso talentoso de vazios sonoros no álbum duplo Souvenance. Composto durante a Primavera Árabe, o disco é seu primeiro lançamento desde 2008

por Eduardo Tristão Girão 16/02/2015 09:45

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ANIS MILIS/REUTERS
O alaudista tunisiano Anouar Brahem, durante concerto de abertura do Festival Internacional de Carthage, em 2014 (foto: ANIS MILIS/REUTERS)

O tunisiano Anouar Brahem toca alaúde, um dos instrumentos que mais bem caracteriza a música árabe. Com ele gravou praticamente toda a sua discografia pela gravadora alemã ECM, que lançou centenas de trabalhos de gigantes como Egberto Gismonti e Keith Jarrett. Tornou-se um dos nomes de peso desse catálogo, sem pesar a mão no folclore: melodista primoroso, soube equilibrar a exuberância dos sons ancestrais de sua terra e elementos do jazz contemporâneo.

Discos como Astrakan café (1999), Thimar (1997) e Conte de l’incroyable amour (1991) são pérolas e o recém-lançado Souvenance é, mais que o primeiro álbum duplo de sua carreira, seu trabalho mais ousado.

Da formação que o acompanhou no disco anterior, manteve Klaus Gesing (clarinete e saxofone soprano) e Björn Meyer (baixo elétrico), trazendo o pianista François Couturier, com quem já havia tocado em outros trabalhos. Além dos três, Brahem levou para o estúdio a Orchestra della Svizzera Italiana, regida por Pietro Mianiti. Como resultado, 11 faixas que somam quase 90 minutos de música bela, introspectiva e bem-arranjada, com a seção orquestral formando “ambiente” quase sempre delicado para as interações do quarteto.

O uso talentoso de vazios sonoros ao longo do disco é uma característica notável – presente não apenas neste e nos outros trabalhos do alaudista, mas nos de vários outros artistas que gravaram pela ECM. Na verdade, é uma marca de Manfred Eicher, fundador da companhia alemã, que faz questão de atuar pessoalmente nas produções que lança. Isso dá às composições certa dimensão espacial, como se fosse possível, ao escutá-las, imaginar um cenário para o qual sirvam de trilha sonora. Não por acaso, a sonoridade da gravadora – o “ECM sound” – costuma ser definida como “o som mais bonito depois do silêncio”.

A palavra francesa “souvenance” quer dizer recordação e talvez isso ajude a explicar o longo tempo que Brahem levou para lançar um trabalho que sucedesse a The astounding eyes of Rita, de 2008. A música do álbum anterior é mais simples, resultado claro da “conversa” entre ele, Gesing, Meyer e o percussionista Khaled Yassine. Além de produzir composições mais densas e ter de gerenciar mais músicos, o tunisiano assistiu à Primavera Árabe começar em seu próprio país, em dezembro de 2010.

TENSÃO Composições nasceram em meio a ondas de protestos, chefes de Estado sendo derrubados e o consequente clima de instabilidade na Tunísia e em outros países do Norte africano e do Oriente Médio. Talvez isso seja o motivo pelo qual muitas das composições de Souvenance carreguem tanta tensão e soem ora tristonhas, ora dramáticas. Improbable day, faixa que abre o disco, é bom exemplo disso: cresce e segura o ouvinte até o final de seus 12 minutos para terminar como começou, quieta.

Se, por um lado, o ouvinte não encontra nessa nova leva de composições o alaúde a que Brahem deu sua marca em improvisos soberbos e precisos (num instrumento em que é fácil tocar “sujo”), por outro reconhece facilmente o autor de temas sensíveis, que chegam facilmente ao ouvido. Ele está claramente presente em Ashen sky, música na qual os sopros entregam lindo adorno ao repetir o fraseado previamente tocado ao piano. Ao final, o compositor sai de cena, para deixar só por conta da orquestra uma bonita e breve interpretação de Nouvelle vague, um de seus temas mais conhecidos.

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