Obra de Paulo Lemisnki vira álbum duplo

Gravado entre São Paulo e Curitiba e creditado a Estrelisnki e Os Paulera, o álbum tem 25 composições do poeta

por Kiko Ferreira 14/02/2015 12:33

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TV Brasil/Divulgação
Álbum duplo revigora a produção musical do poeta e compositor curitibano Paulo Leminski (foto: TV Brasil/Divulgação)

O poeta curitibano Paulo Leminski conseguiu uma tarefa póstuma invejável. Em 2013, o livro Toda poesia, coleção de 600 poemas de sua obra praticamente completa, chegou ao primeiro lugar na lista dos mais vendidos no país. Chegou a ultrapassar, em certo momento, o best-seller mundial Cinquenta tons de cinza. Vendeu cerca de 90 mil exemplares, fato raro para um livro de poesia. Fato raro para um poeta brasileiro.

O livro saiu depois de uma exposição no Itaú Cultural, em São Paulo, que veio acompanhada de show retrospectivo de sua obra musical capitaneado por sua filha, Estrela Leminski. Poeta, compositora e cantora, ela tem um trabalho consistente ao lado de Téo Ruiz nos projetos Casca de nós e Música de Ruiz. Estrela fez o espetáculo depois de provocada pela mãe, a poeta e letrista Alice Ruiz. Ampliou a pesquisa sobre fitas cassete que tinha em casa, com rascunhos de boa parte das composições do pai, e dedicou seis anos à missão, que incluiu a devolução de fitas em poder de parceiros ilustres.

Essa proeza está resumida no álbum duplo Leminskanções, com 25 composições do poeta, para quem o destino de todo ser humano é a música. “Sabe, sou um músico. Só que a minha poesia se expressa através disso, precisei me tornar músico pra minha poesia poder se expressar. Isso não quer dizer que não seja um músico”, disse Paulo, certa vez.

Gravado entre São Paulo e Curitiba e creditado a Estrelisnki e Os Paulera, o álbum, que a cantora classifica como “a ponta de um iceberg”, poderia ter mais do dobro de suas faixas, dada a fertilidade criativa do judoca da palavra, sem contar poemas que foram musicados. Trata-se de um resumo consistente, dividido quase de forma didática, entre um volume de canções feitas exclusivamente por Leminski (Essa noite vai ter sol) e outro com parcerias variadas (Se nem for Terra se transformar).

TIME Para dividir o peso das interpretações, Estrela montou um time de leminskmaníacos de várias gerações. De estrelas que conviveram de forma mais próxima com a obra do pai, como Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Zeca Baleiro e Ná Ozzetti, a expoentes da nova cena como Uyara Torrente (Banda Mais Bonita da Cidade), Leo Fressato E Grace Torres (grupo Fato) e Natália Mallo (do excelente e pouco conhecido Trash Pour 4). Inicialmente batizado de Verdura não é do Caetano, referência a Verdura, gravada por Caetano Veloso no disco Outras palavras (1981), que apresentou o amigo ao grande público, Leminskanções pode ser o equivalente musical do livro Toda poesia, ampliando o universo de admiradores do compositor Leminski.

Para tentar ser fiel às influências musicais do pai, Estrela conta que os arranjos foram baseados no que ele ouvia. “Então, se você encontrar aqui The Police, Nhô Belarmina e Nhá Gabriela, John Cage, Sex Pistols, Gilberto Gil, Elvis Presley, Itamar Assumpção e Faroeste, não se preocupe: você está ouvindo bem.”

PIONEIRO Em geral, o caldeirão funciona. Pioneiro do rock sulista, principalmente com os trabalhos com os grupos A Chave e Blindagem, amigo dos tropicalistas, parceiro da Vanguarda Paulista e coautor de músicas infantis, além de “sócio” das carreiras pós-Novos Baianos de Moraes Moreira e Paulinho Boca de Cantor, Leminski se multiplica numa seleção que traz uma vantagem rara. Neste disco, todas as letras são boas.

Tropicaliente em Mudança de estação (hit do grupo A Cor do Som), político em Adão e Transformar, shakespereano em Live with me e autobiográfico em Diversonagens suspensas (musicada por Natália Mallo), Leminski atinge a melhor integração de letra e música em Dor elegante, parceria com Itamar Assumpção . Estrela defende como hino os versos “Um homem com uma dor/ é muito mais elegante/ caminha assim de lado/ como se chegando atrasado/ andasse mais adiante/ carrega o peso da dor/ como se portasse medalhas/ uma coroa de um milhão de dólares/ ou coisa que o valha”.

PRA TOCAR NO RÁDIO

Zeca Baleiro, com Se houver céu, Zélia Duncan, com Sinais de haicais, e Arnaldo Antunes, com Não mexa comigo, oferecem os momentos mais radiofônicos de Leminskanções. Trata-se de possíveis petardos para injetar inteligência nas viciadas programações de nossas rádios adultas, assim como a Ná Ozzetti equilibrada de Live with me. O rock Hard feelings, parceria com Itamar Assumpção, com participação de Serena Assumpção, tem alto poder de exportação, numa pegada imortal. Este é um disco para ouvir horas e horas, procurando identificar as referências que Estrela Leminski promete respeitar. E consegue.

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