Álbuns mineiros que marcaram época e influenciaram gerações fazem aniversário neste ano

Alguns, como 'Minas', ainda são considerados ousados, mesmo 40 anos depois do lançamento

por Marcus Celestino 07/02/2015 07:37

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EMI / Reprodução
'Minas', de Milton Nascimento, virou página na carreira do cantor (foto: EMI / Reprodução)
Já em seu gênesis, a música mineira tinha como característica notável seus arranjos e harmonias. Desde o fervor do barroco no século 18 até os dias de hoje, músicos locais procuram mesclar elementos advindos de regiões diferentes e também a junção de diversos gêneros. Não à toa, Minas Gerais figura como um polo produtor de obras de qualidade há tempos. Álbuns tornaram-se clássicos e influenciaram gerações de artistas subsequentes. Em 2015, alguns títulos seminais fazem aniversário, como o emblemático 'Minas', de Milton Nascimento.

Lançado em 1975, o disco é mais um dos grandes feitos de Bituca —apelido de Milton, natural do Rio de Janeiro, mas criado em Três Pontas, no Sul do estado. Os predecessores de 'Minas' já denotavam toda a qualidade musical do artista e seu homônimo de 1969, 'Clube da esquina I' (1972) e 'Milagre dos peixes' (1973) formam uma tríade poderosa e pavimentam o caminho que culminou no tour de force que completa 40 anos em 2015. “Lembro que minha primeira impressão ao ouvir o 'Minas' foi de que o disco vira uma página (na carreira do Milton). Ele tem elementos, arranjos muito ousados e uma harmonia bastante singular. 'Beijo partido', por exemplo, é uma canção harmonicamente muito complexa”, comenta Mauro Rodrigues, professor da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Ao mesmo tempo, temos coisas bem simples (em 'Minas'), como 'Ponta de areia'. Tem coisas do Milton que são muito simples e ao mesmo tempo muito profundas, ele tem essa característica”, complementa Rodrigues, responsável também por coordenar o projeto de implantação do Museu do Clube da Esquina, com previsão de ser finalizado em 2016.

EMI / Odeon / Reprodução
'Claridade', de Clara Nunes, também completa 40 anos (foto: EMI / Odeon / Reprodução)

A ousadia em 'Minas', pontuada por Mauro Rodrigues, pode ser verificada logo na faixa de abertura, homônima ao álbum. O lirismo que advém das vozes de Bituca e Beto Guedes e do coral infantil aliados ao instrumental primoroso já mostram prontamente a cara do disco. Ademais, a canção por si só é uma ode às Alterosas, mesmo sem quaisquer versos. Milton e seus parceiros deixam de lado as influências do rock britânico (há um cover de 'Norwegian wood', dos Beatles, uma pitada de rock and roll) e pendem para um campo jazzístico. Os ritmos ficam mais quebrados e há espaço para a teatralidade, para uma maior liberdade que só o jazz permite. “Vejo por exemplo nas coisas que o Nivaldo (Ornelas) tocou uma influência do (John) Coltrane. Eu sinto essa vibração ali”, salienta Rodrigues. Por falar em liberdade, além de exaltar as Gerais, o disco conta com a maravilhosa Fé cega, faca amolada, notória por sua letra em oposição ao regime militar.

PARCERIAS Um aspecto interessante de Minas é que os colaboradores têm espaço suficiente para brilhar. “Temos um processo nesse disco do Bituca, hoje, muito em voga, que é o do processo colaborativo sem alguma imposição ideológica. O Milton é uma figura central, claro, mas ele é muito generoso nessa questão de criar espaços para as pessoas”, frisa Rodrigues. Por isso, a transparência da personalidade dos colaboradores em cada faixa do álbum. Ronaldo Bastos, Márcio Borges, Caetano Veloso e Fernando Brant são parceiros de composição em 'Minas'. O disco ainda conta com composições de Novelli, Toninho Horta e Beto Guedes, outros parceiros históricos de Milton.

Mas não só de 'Minas' viveu a música mineira nos últimos 40 anos. No mesmo ano de lançamento do álbum de Milton, a paraopebense Clara Nunes lançava 'Claridade'. A Guerreira chegava àquela altura a um nível de maturidade na carreira e suas interpretações de 'O mar serenou' (primeira música do disco), 'A deusa dos Orixás', 'Valsa de realejo' e 'O último bloco' são dignas de todas as láureas. Com esse disco, Clara jogou por terra de vez a pecha que as intérpretes femininas carregavam à época de que não vendiam muitos discos. Contudo, 1975 tem outra obra digna de nota. Com influências do progressivo de Yes, Genesis e Emerson, Lake & Palmer, 'Criaturas da noite', d'O Terço (banda da qual fez parte Flávio Venturini), é um excelente mix entre esses elementos e o rock rural.

Reprodução de internet
'14 Bis II' tem clássicos e é precursor do pop de qualidade (foto: Reprodução de internet)

Fundada por Flávio e seu irmão Cláudio, Hely Rodrigues, Vermelho e Sérgio Magrão, em 1979, a banda lançou, em 1980, '14 Bis II'. Com muito esmero na produção e um trabalho vocal incrível, o álbum conta com clássicos como 'Bola de meia, bola de gude', de Milton Nascimento e Fernando Brant, 'Planeta sonho', 'Esquina de tantas ruas' e 'Carrossel'. Nesse disco é fácil identificar a influência do Clube da Esquina e dos Beatles, mas o rock progressivo advindo d'O Terço também se faz presente. “O 14 Bis é precursor de parâmetros de música pop de qualidade. O grupo estabeleceu um padrão de altíssimo nível e, se não é ousado musicalmente no sentido que o Milton é, é muito ousado em termos de produção musical”, comenta o professor Mauro Rodrigues.

Regional pirotécnica

Indo na contramão do período em que as bandas de rock brasileiras pareciam tingidas pelo grunge de Seattle, o Pato Fu e sua música “regional pirotécnica”, segundo a vocalista Fernanda Takai, conquistaram a crítica e fãs. 'Gol de quem?', que completa 20 anos em 2015, soa atemporal com seu experimentalismo acessível e suas lindas canções como o hit instantâneo 'Sobre o tempo'. A banda foi eleita em 2001 pela revista Time como uma das 10 melhores do mundo fora dos Estados Unidos. É Minas tipo exportação.

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'Gol de quem?' se fez notar por seu experimentalismo (foto: Reprodução da internet)
Pedra fundamental

Um pouco mais “jovem”, de 2000, 'Maquinarama' pode ser considerado a pedra fundamental em termos musicais para o Skank. “Foi um disco onde mudamos o jeito de gravar, trabalhamos com outros produtores e novas referências musicais. Isto acabou resultando num album bem diferente”, explica Henrique Portugal, tecladista da banda. No entanto, Portugal ressalta que os sinais desta guinada poderiam ser encontrados já no predecessor 'Siderado' (1998). Até hoje muitos críticos consideram 'Maquinarama' o magnum opus do grupo. Além dos nítidos toques de Clube da Esquina, soul, funk e rock sessentista, o álbum apresenta parcerias que acrescentaram ainda mais a sua sonoridade.

“Cada parceiro tem seu jeito singular de escrever e visão pessoal sobre o cotidiano, e isto acabou enriquecendo o resultado final. A letra de 'Balada do amor inabalável' foi enviada via fax (por Fausto Fawcett), e era praticamente um pergaminho”, destaca Portugal, ressaltando que o vocalista e guitarrista Samuel Rosa teve muito trabalho na hora da compilação.

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Maquinarama, por sua ousadia, ainda soa como atual (foto: Reprodução)
Além de 'Balada', 'Três lados' foi um hit de proporções dignas do Skank pré-'Maquinarama'. Aos 15 anos de idade, estas e as outras faixas do disco ainda soam muitíssimo bem aos ouvidos e certamente fariam o mesmo sucesso se divulgadas nos dias de hoje. “Na minha visão o 'Maquinarama' é um álbum que poderia ser lançado este ano e que soaria atual. A sua ousadia e detalhes ainda me surpreendem quando escuto. Se ele vai se tornar referência para futuras gerações só o tempo dirá”, diz Portugal. (MC)

LINHA DO TEMPO

1975 – 'Minas', de Milton Nascimento, 'Claridade', de Clara Nunes e 'Criaturas da noite', de O Terço, são lançados

1980 – '14 Bis II', do 14 Bis, é lançado, e Bituca nos agracia com 'Sentinela', que conta com a participação do grupo Uakti

1985 – Ao lado do Overdose, o Sepultura lança o split 'Bestial devastation', primeiro registro da banda

1990 – O Sepultura entra em estúdio para gravar o clássico 'Arise', que seria lançado no ano seguinte

1995 – O Pato Fu quebra paradigmas e alcança o sucesso com 'Gol de quem?'

2000 – O Skank foge de sua fórmula convencional em 'Maquinarama', considerado por muitos a melhor obra da banda

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