Axé-music completa 30 anos de sucesso

Gênero saiu da Bahia e ganhou o país, com nomes como Daniela Mercury e Ivete Sangalo

por Gabriel de Sá 02/02/2015 12:43

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Marcos Alberte/Divulgação
Luiz Caldas é um dos precursores da axé-music (foto: Marcos Alberte/Divulgação)
Pode parecer irônico, mas o surgimento do termo que denomina o movimento partiu de um fã de rock. Atribui-se ao jornalista baiano Hagamenon Brito a criação da expressão “axé-music”. “Ela surgiu em 1987, dois anos depois do marco zero do axé. Teve como base a geração de roqueiros, e eu me incluía, que chamava as coisas bregas de axé. O que seria cafona para aquela geração? Aquelas roupas hippies, o cabelo grande demais, o brinco enorme de pena e os pés descalços”, explica Hagamenon, em referência, principalmente, à imagem do cantor Luiz Caldas.

O termo pegou, a axé-music extrapolou os limites da Bahia, parou o Brasil nos anos 1990 e completa três décadas de vida em 2015. No começo, os artistas da cena não gostavam da expressão, por conta da conotação pejorativa. Demorou cerca de cinco anos para o apelido se popularizar.

“Eles diziam que aquela música tinha o poder de fazer sucesso internacional. Então, peguei o termo ‘axé’ e juntei com o sufixo em inglês. A ideia era ironizar essa pretensão. Para a felicidade geral da nação baiana, paguei a língua”, diz Hagamenon, ao relembrar o sucesso fora do país de nomes como Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Carlinhos Brown.

A riqueza cultural da Bahia, de onde saíram artistas como Dorival Caymmi, João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil, deu origem a movimentos musicais de extrema importância no século 20. O surgimento da axé-music em meados dos anos 1980 veio confirmar a vocação do estado para a criação musical — sobretudo para atrair as massas.

Leia entrevista com Luiz Caldas

Você tem sido chamado por alguns veículos de “criador da axé music”. Concorda com isso?
Sim. E o surgimento da canção Fricote foi assim: eu estava desligado do Trio Tapajós, trabalhava na WR e realizava shows com a minha Banda Acordes Verdes, dando vida à carreira solo. Eu ainda mantinha amizade com os integrantes do Tapajós e foi até Simões Filho assistir aos colegas. Na praça principal da cidade, num barzinho, encontrei com Paulinho de Camafeu, cantor e compositor ligado ao afoxé Filhos de Ghandi. Entre uma conversa e outra, em meio à movimentação, batucando numa mesa de improviso e tomando cerveja captei um diálogo popular, tipo gozação, entre um rapaz e uma garota, o chamou a atenção. O papo era algo assim: “Pega ela aí pra passar batom! Pega ela aí pra passar batom!”. Daí, do simples e popular, nasceu Fricote (Nega do cabelo duro...), que foi o carro-chefe do meu disco Magia, que estava sendo concebido na gravadora WR. Depois da alquimia sonora de Fricote veio a dança das pessoas que brincavam ao lado dos trios independentes, num movimento espontâneo dos braços, das pernas e da cintura. Em 1984, antes do lançamento do álbum Magia, que aconteceu no segundo semestre de 1985, nos shows com a banda Acordes Verdes, a canção era pedida pelo público. Numa apresentação no Teatro Castro Alves, no show Verso e Reverso, Fricote foi gravada ao vivo e passou a ser executada em algumas rádios de Salvador, como a Itapuã, vindo a ser bem tocada por causa dos muitos pedidos dos ouvintes. Quando o disco Magia chegou às lojas, em 1985, o sucesso de Fricote alavancou as vendagens, superando a marca de 100 mil cópias.

O disco “Magia”, lançado por você há 30 anos, é considerado o marco inicial da axé music. O que você acha que trouxe de diferente neste trabalho a ponto de ter criado um novo estilo musical?

Uma sonoridade diferenciada, única, por conta da fusão, na medida certa, de vários gêneros musicais. O resultado final então é o novo e não mais os gêneros usados.

Quais foram os estilos musicais que deram origem à axé music? Saberia dizer como esse estilos convergiram até se transformarem no que conhecemos hoje?
A convergência aconteceu porque não houve preconceito musical de minha parte. Vale lembrar que eu toquei desde os sete anos em bandas de baile, onde aprendi a tocar dezenas de instrumentos e compreendi cada estilo de música. Na minha alquimia sonora, na dose certa, é possível combinar salsa, country, lambada, samba, rock, ijexá, dentre outros estilos.

Como pioneiro deste movimento, como você percebe o grande mercado que se construiu ao redor da axé music? Você se sente integrado a ele?
Claro que me sinto integrado e, confesso, vivo o melhor momento da carreira com o lançamento de discos mensais em vários estilos e que podem ser baixados gratuitamente no meu site www.luizcaldas.com.br Já são mais de sete milhões de downloads. Lá no site você verá que estou integrado por conta da música, pois fiz discos de axé, de bossa nova, de rock, de forró, de samba, de pop, de reggae, em letra tupi, de canção rural, de chorinho, dentre outros estilos. Chegarei ao final de 2015 com 490 canções inéditas gravadas. Sobre o mercado, vejo que ele está se moldando às novas tecnologias e às exigências do público.

Como você avalia a transformação do axé ao longo dos anos? É possível notar diferenças entre o que você fazia e a sonoridade dos artistas que vieram depois? Quais são elas?
A transformação é contínua, como é a própria vida. Claro que a sonoridade mudou, porque artistas e compositores têm a dose de sua mistura. Uns vão mais para o lado do samba-reggae, outros para o lado do pop, outros aderem às canções românticas. É a democracia musical em pleno exercício.

Como você pretende celebrar a passagem dos 30 anos do disco “Magia”?
Estou abrindo o Carnaval de Salvador na quinta-feira (dia 12), quando o Rei Momo receberá as chaves da cidade. Vou fazer um passeio por minha carreira e tocar as novas canções que estão disponibilizadas no meu site. Também prestarei homenagem a Raul Seixas, que completaria 70 anos. A ordem é manter a alegria de sempre e sem nenhum preconceito musical. Sexta-feira, (dia 13), vou no camarote Expresso 222 para cantar como convidado de Gilberto Gil e Preta Gil, no sábado, (dia14), vou sair com meu trio independe, no domingo, (dia15), vou para o Carnaval de Fortaleza, na segunda, (dia 16). descanso e finalmente terça – feira (dia 17) saio com meu trio independente no encerramento do carnaval de Salvador.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA