Implantação da lei que determina ensino de música nas escolas do país mobiliza educadores e artistas

Os avanços pedagógicos já estimulam a formação de jovens ouvintes

por Carolina Braga 18/12/2014 08:00

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Marcos Michelin/EM/D.A Press
(foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
O maestro Márcio Miranda Pontes não tem dúvida: o Brasil vive um momento ímpar pela oportunidade de formar jovens ouvintes para a música e, principalmente, cidadãos sensíveis, qualificados e informados. Radicada em São José dos Campos (SP), a pedagoga mineira Fernanda Sander comemora, mas pondera: ensinar música para crianças é um processo – e isso deve ser lembrado sempre.

Há três anos esse conteúdo artístico é obrigatório nas salas de educação básica. A determinação está expressa na Lei 11.769, sancionada em agosto de 2008. As escolas tiveram três anos para se adequar, mas há controvérsias sobre os impactos da legislação. “Ainda é muito cedo para falar de resultados. Estamos no bom caminho, mas ele precisa ser direcionado e ampliado”, ressalta Myrna Valéria Campos de Oliveira, mestre em educação musical pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e educadora da rede particular de Belo Horizonte.

Ao longo de 28 anos de profissão, ela tem percebido que as experiências ligadas à educação musical vêm sendo muito variadas. Há brechas na lei, explica Myrna, pois a música se insere como um componente curricular dentro da área de arte – e não exatamente como disciplina isolada. Com isso, a matéria pode ser aplicada de forma interdisciplinar. “É interessante, mas essa é só uma função da música. Não há a valorização dela como área de conhecimento”, pondera. Embora otimista em relação ao momento atual, Myrna diz que é necessário avançar muito na capacitação dos professores. “A formação ainda é muito superficial”, adverte.

Fernanda Sander concorda. Com experiência de 10 anos na área, ela espera que se estreitem os laços entre os cursos de pedagogia e música. Hoje, observa-se um impasse em várias escolas: ou elas trabalham com artistas que conhecem a fruição estética das canções, mas não têm a didática dos educadores; ou os professores, munidos dessa didática, não dominam o conteúdo especializado.

A pedagoga, que participa de oficinas com os colegas, observa: é importante o professor compreender que não se trata de entretenimento. “Não é uma aula recreativa. Ela tem conteúdo, estratégia e objetivos como qualquer outra”, explica. Sander conta que é comum professores de educação musical desenvolverem o próprio método. O dela, chamado Coleção Sabiá, encontra-se em fase final de testes. A publicação está prevista para 2015.

Uma das inspirações do Sabiá veio do método húngaro desenvolvido pelo compositor Zoltán Kodály. Ele usa movimentos, elementos da cultura popular, brincadeiras e jogos de corpo. Como os instrumentos necessários são apenas o corpo e a voz, Fernanda diz que essa técnica responde melhor às necessidades do educador brasileiro.

“Ainda sofremos com a falta de estrutura, não temos ambientes preparados para as aulas. As pessoas ainda não sabem a diferença entre o que é musicalizar e simplesmente cantar com a crianca pequena. Aí está um de nossos grandes desafios”, diz Fernanda Sander.

BETIM

Formar mão de obra para cumprir a lei é um dos objetivos do projeto coordenado pelo maestro Márcio Miranda Pontes em Betim. Apesar do prazo estabelecido pela legislação, não houve formação de professores de música em quantidade suficiente para atender à demanda, observa ele. O resultado disso foi a adoção de soluções paliativas.

Para Márcio, o ensino de música não deve se resumir à partitura. “O ideal é formar ouvintes”, ressalta. Pensando nisso, o maestro planeja um curso para professores da rede pública de Betim. O objetivo é ajudar docentes de qualquer disciplina a inserir a matéria em planos de aula, sejam elas de matemática, geografia, física ou ciências. O repertório é dedicado a faixas etárias específicas e os mestres são incentivados a formar corais em suas turmas. Desde o ano passado, 120 professores frequentaram o treinamento.

Como regente titular da Orquestra de Câmara de Betim, Márcio Miranda Pontes insere o grupo nas atividades de formação de pessoal. “A orquestra tem papel fundamental, pois organizamos concertos didáticos com temas relativos aos aspectos musicais”, conta. Cerca de 19,5 mil pessoas já assistiram aos recitais didáticos. A meta é atrair 30 mil pessoas em 2015.

Em parceria com professores que frequentam suas oficinas, Miranda Pontes coordena testes em sala de aula. “Estamos fazendo alguns aperfeiçoamentos, em mais um ano estaremos aptos a publicar o nosso projeto”, conta. De acordo com ele, o principal problema está na esfera administrativa das escolas públicas e privadas. “Nas particulares, tentam achar a solução com o menor custo, enquanto nas públicas há falta de interesse de algumas diretoras em incrementar efetivamente ações mais decisivas”, critica.

Saiba mais
História


O ensino de música no Brasil remonta à epoca dos jesuítas. Em 1549, ela já era usada para a catequese de indígenas. Com as mudanças no sistema escolar a partir de 1759, a música continuou presente, com forte conotação religiosa e muito ligada às tradições europeias. A primeira Escola Normal do país foi criada em Niterói (RJ), em 1835, e já trazia a disciplina em seu currículo. Em 1922, a Semana de Arte Moderna propôs a redefinição do ensino de arte. O compositor e maestro Heitor Villa-Lobos foi figura fundamental, ao divulgar o canto orfeônico junto a escolas públicas. A educação musical se fortaleceu até o fim do Estado Novo, em 1945. Posteriormente, a disciplina perdeu força.

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