Cantora Rita Benneditto volta à temática afro-brasileira em seu novo trabalho, 'Encanto'

Disco traz leituras de temas de Djavan e Roberto Carlos, além de canções autorais inéditas

por Ailton Magioli 30/11/2014 16:00

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Márcio Vasconcelos/Divulgação
(foto: Márcio Vasconcelos/Divulgação)
Em uma rápida e primeira audição, pode-se até pensar que 'Encanto', o sexto disco solo que Rita Benneditto (ex-Rita Ribeiro) está lançando pela Biscoito Fino seja uma continuidade do premiado 'Tecnomacumba', de 2003. Se naquele a cantora maranhense privilegiava repertório afro-brasileiro, no atual ela volta ao tema, mas avança.

E vai além, passando pela consagrada 'Fé', de Roberto e Erasmo Carlos, que Rita regrava em pegada roqueira. No novo disco, Rita também faz releituras personalizadas de autores como Jorge Benjor ('Santa Clara clareou'), Gilberto Gil ('Extra), Djavan ('Água'), João Nogueira e Paulo César Pinheiro ('Banho de manjericão'), incluindo a cubana Margarita Lecuona, autora da clássica 'Babalu', eternizada no país na voz de Angela Maria.

Rita Benneditto ainda se dá ao luxo de fazer adaptações de Villa-Lobos ('Estrela é lua nova') que ela ouvia e cantava na infância, em coral de São Benedito do Rio Preto, onde nasceu, ao lado dos Lençóis Maranhenses, além de resgatar cantigas de domínio público. Não por acaso, foi na região de origem que a cantora deixou-se fotografar para a capa do disco, vestindo figurino leve e colorido do mineiro Victor Dzenk, que ela conhece desde que ele dedicou uma coleção à rica cultura do Maranhão.

 “Nunca me preocupei em ser incluída na categoria de cantora macumbeira”, diz uma relaxada Rita Benneditto, cujo objetivo sempre foi resgatar a memória do povo brasileiro a partir de sua própria história. Daí para a temática afro-brasileira, que também atrai outros tantos artistas, foi uma questão de tempo. Elementos do reggae, rock, funk, macumba e referências ao Maranhão, como o tambor de mina, estão no trabalho da artista, comemorativo aos 25 anos de carreira, com direito a composições inéditas, incluindo as autorais.

“Religiosidade é coisa à parte e está garantida na Constituição”, pondera Rita, evitando confusões na seara. Para a cantora, a abordagem feita por ela acaba diferenciada simplesmente porque gosta de tratá-la como mitologia. Como artista originária de região onde a cultura afro-brasileira é muito forte, em seu novo disco Rita fala de mistério, da fé e do encantamento, abrindo-se a novas linguagens.

“O disco transcende esse lado, sem se prender ao ritual”, afirma a cantora, admitindo que os fãs pediam um 'Tecnomacumba 2', que ela, naturalmente, evitou. “Vejo a música como elemento de transcendência, de transformação”, prega Rita Benneditto. “Na verdade, com 'Encanto' quis dar ao público o desdobramento de 'Tecnomacumba', obviamente sem deixar de lado a possibilidade de sempre arriscar.”

Elementos

“Se o ouvinte prestar atenção, verá que o novo disco está cheio de mensagens. A água, abordada na canção de Djavan, por exemplo, é tratada como elemento que nos salva e mata”, alerta Rita, lembrando que a água está acabando, paralelamente à devastação das florestas mundo afora. “Na canção, Djavan trata a água como elemento devastador, enquanto quis trazê-la como elemento de salvação, com arranjo diferente e citação de 'Eu e água', de Caetano Veloso.”

Produzido por Felipe Pinaud e Lancaster Lopes, 'Encanto' conta com as participações especiais de Reggae B e Priest Tiger, Roberto Frejat (guitarra) e do sambista Arlindo Cruz, que fez exclusivamente para Rita gravar 'O que é dela é meu'. A gravação de 'Fé', de Roberto Carlos, foi facilitada diante do fato de ela enviar a gravação já arranjada para o Rei ouvir. “No primeiro momento a editora deu uma travada”, recorda, “mas depois liberou. Trata-se de uma canção que ele quase nem canta, para a qual fizemos uma leitura diferenciada”, acrescenta Rita Benneditto. Enquanto a maioria associa o Rei à fé cristã, Rita prefere ligá-lo à dimensão transcendental.

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