Dadi, ex-baixista dos Novos Baianos e A Cor do Som, lança livro de memórias

Um dos mais requisitados da MPB, músico foi homenageado por Caetano Veloso em 'O leãozinho'

por Ailton Magioli 25/11/2014 07:00

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Ângelo Tranni/Divulgação
(foto: Ângelo Tranni/Divulgação)
Filho de mãe pianista, Eduardo Magalhães de Carvalho, de 62 anos, ainda na infância descobriu o prazer da música. “Vivia rodeado de música”, recorda o hoje consagrado Dadi, que está lançando o livro 'Meu caminho é chão e céu – Memórias', por meio do qual narra a trajetória de cinco décadas de carreira, com direito a incursões na pintura e, mais recentemente, na arte da escrita, mas sem pretensões literárias.

Como conta o músico, não bastasse o apartamento com quintal, onde a família vivia em plena Ipanema nos anos 1960, ele ainda tinha o privilégio de assistir aos ensaios de bossa-novistas no extinto Teatro Santa Rosa. “Aquilo tudo foi me fascinando até ouvir pela primeira vez o LP 'Samba esquema novo', de Jorge Benjor, de 1963”, lembra-se do álbum do ídolo, que trazia as canções 'Mas que nada' e 'Chove chuva', entre outras, que acabariam por levá-lo a decidir pela carreira artística. Não sem antes integrar, aos 13 anos, a banda de rock The Goofies, com amigos de escola, na qual tocava guitarra e baixo.

Beatles, Rolling Stones, The Kinds, The Who e Jimi Hendrix colaboravam com o repertório da rapaziada, que vivia a máxima de “drogas e rock’n’roll” que predominava então. “Naquele período passei por tudo, mas levemente, ainda que tivesse amigos que jogassem pesado” recorda o hoje avô de Nina. Pai do engenheiro de som e produtor Daniel, de 35 anos, e do compositor André, de 33, Dadi comemora o fato de Nina ter chegado em um universo predominantemente masculino da família. A vovó Leila também não para de festejar a neta.

Homenageado por Caetano Veloso em uma de suas mais belas canções, 'O leãozinho', aos 19 anos, já consciente da opção pela música, por meio de uma amiga comum de Baby Consuelo, Dadi foi convidado para tocar baixo com os Novos Baianos. Àquela altura, o grupo já conquistava fãs com uma mistura original de samba, bossa e rock’n’roll, com direito a incursões pelo chorinho. “Para mim, que na época não conhecia nenhum baiano, a Bahia era um lugar muito distante”, recorda o músico, salientando que até o jeito diferente de falar o atraiu nos baianos, que chegavam para estourar nacionalmente.

Caetano Veloso gravava 'Bicho' na Polygram, do Rio, em 1977, quando se deparou com o multi-instrumentista nos corredores da gravadora. “Tenho uma surpresa para você”, anunciou o compositor a Dadi, proibindo-o de entrar no estúdio e ouvir 'O leãozinho', que viria a se tornar um clássico da moderna MPB. Com o lançamento do disco, Dadi pôde enfim ouvir a canção. “Fiquei orgulhoso. Imagina, um poeta como Caetano fazer uma música pra você”, recorda. Ele destaca o fato de o amigo, com o qual tocou, mas curiosamente não compôs, gostar de homenagear as pessoas em canções. “Em 'Outras palavras' ele voltou a me citar, além da Dó, que vem a ser Leilinha, minha esposa”, orgulha-se, lembrando que Leilinha também é citada por Caetano em 'Gente'.

Referência
A história da carreira de Dadi é feita de encontros, do tipo “o músico certo, na hora certa”. Já de cara, logo depois de ser apresentado aos Novos Baianos, o baixista foi gravar o antológico 'Acabou chorare' (1972), seguido de 'Novos Baianos F.C.' (1973), 'Novos Baianos – Linguagem do alunte' (1974), 'Vamos pro mundo' (1975) e 'Infinito circular' (1997). Para pesquisadores e críticos de MPB, só o fato de ter vivido na comunidade do grupo musical, que funcionava no Sítio do Vovô, em Vargem Grande (RJ), entre 1971 e 1975, já garante um verbete para Dadi na história da música brasileira. Ele, no entanto, foi adiante e ainda nos anos 1970 foi tocar na banda do ídolo Jorge Benjor.

Jorge Benjor é o grande mestre de Dadi. “A arte dele é muito intuitiva”, justifica, lembrando que a música do mestre é como o jazz, feita à base do improviso. “Adoro. A gente se entrega à música. Ela é que manda.” Apesar de a indústria fonográfica ainda enfrentar crises, o multi-instrumentista lembra que as pessoas continuam criando. “Agora em casa, diante da facilidade proporcionada pela internet. Quem dá as cartas no mercado, no entanto, é a mídia”, detecta, admitindo que a grande dificuldade continua sendo levar a música até o grande público.

O rock é também referência na vida do músico. Beatles e Rolling Stones são exemplos permanentes na vida de Dadi, que voltou a ouvir muito o quarteto de Liverpool. “Incrivelmente, descubro detalhes na música deles até hoje”, confessa o multi-instrumentista. Depois de assistir a Paul McCartney ao vivo duas vezes, ele diz que o que o ídolo faz é um presente para os músicos. “Para mim, ouvir Paul hoje é como se os Beatles estivessem juntos ainda.”

Letras
Originalmente criado como grupo instrumental, por orientação do produtor Andre Midani, A Cor do Som passou a letrar suas canções para “tocar no rádio” e “vender disco”, segundo Dadi. 'Beleza pura' e 'Abri a porta' foram os primeiros sucessos do grupo, que, a exemplo dos Novos Baianos e Tigres de Bengala, não resistiu às exigências do mercado musical, movido a modismos.

Se por um lado Dadi sempre teve dificuldades em fazer letras, por outro acabou se destacando na composição de melodias, conforme provou principalmente a partir de A Cor do Som. A abertura para as letras viria com Arnaldo Antunes, com quem já fez cerca de 20 canções, entre as mais recentes 'Se assim quiser' e 'Amar alguém', além da inédita 'O fim do mundo'. “Arnaldo me deu segurança para investir em letras de conteúdo”, diz.

Dadi continua fazendo história. Depois de ajudar a criar e a integrar os grupos A Cor do Som e Tigres de Bengala, tocou e gravou com Barão Vermelho, Caetano Veloso, Marisa Monte, Tribalistas e Rita Lee, entre outros. Com carreira solo fonográfica em destaque no Japão, onde já lançou os discos 'Dadi' (2005) e 'Bem aqui' (2008), ele já negocia com produtor japonês o lançamento de 'Meu caminho é chão e céu – Memória' no País do Sol Nascente.

Reprodução
(foto: Reprodução)
MEU CAMINHO É CHÃO E CÉU – MEMÓRIAS

De Dadi
Editora Record, 176 páginas, R$ 30


TRECHO

“Os Novos Baianos eram mais do que uma banda, eram uma filosofia de vida, seguindo a tendência mundial da época de se viver em comunidade, dividindo tudo. Apesar de o (Luís) Galvão não achar que era uma comunidade de hippies, acho que era exatamente isso. Todo o dinheiro que recebíamos era pra todo mundo – mesmo não sendo muito.Colocava na caixinha coletiva tudo o que recebia das gravadoras pelas minhas participações como músico nos discos. Ouvi falar que lá no sítio tinha um cesto com o dinheiro e que, se alguém precisasse, era só pegar. Nunca vi esse cesto, talvez porque não precisasse.”


Tribalista

Vizinho de rua de Marisa Monte, com quem toca atualmente, Dadi lembra que acaba se encontrando quase diariamente com a cantora, que acabou se tornando parceira. “Além do presente de Deus – o timbre dela, que dá conforto de ouvir – Marisa é muito cuidadosa com a carreira. Tem o time dela sempre a favor. Marisa faz o que quer e o que gosta”, diz o músico, que participou do projeto Tribalistas ao lado de Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown.

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