Padres cantores contam como resistem à crise na indústria

Alessandro Campos e Marcelo Rossi são fenômenos de vendas, já ultrapassando marcas de artistas como Roberto Carlos

por Rebeca Oliveira 24/11/2014 14:01

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Daniel Pinheiro/Divulgação
Em 2013, Padre Marcelo Rossi foi o cantor que mais vendeu discos no país, desbancando Roberto Carlos () (foto: Daniel Pinheiro/Divulgação)
Chapéu de cowboy, botas de couro e calça justa. O visual é comum a cantores de música sertaneja. O personagem em questão, no entanto, é o padre Alessandro Campos. O berrante na mão e as roupas chamativas foram a maneira encontrada pelo religioso de externar a preferência pelo estilo que admira desde pequeno, quando ouvia bolachões de Chico Rey & Paraná com os avós.

Nascido no interior paulista, Alessandro tornou-se padre em Brasília e atuou por oito anos na Diocese Militar da cidade. No mês passado, ele foi transferido para São Paulo, mas foi na capital onde decidiu: seria um padre diferente e revolucionaria a maneira como as pessoas enxergavam o clero. “Estava cansado de ver missas monótonas e cansativas. Queria que a minha fosse animada”, recorda-se.

A alegria na condução das missas somada à interpretação própria de clássicos da música sertaneja, como 'No dia em que saí de casa', conhecida na voz da dupla Zezé di Camargo & Luciano, lhe rendeu prósperos frutos. Hoje, conhecido como o padre sertanejo ou padre cowboy, Campos lançou dois discos, 'O homem decepciona, Jesus Cristo jamais' e 'O que é que eu sou sem Jesus? —Nada, nada, nada' que, juntos, venderam quase um milhão de cópias, um desafio ao mercado fonográfico em declínio constante.

Divulgação
Padre Alessandro Campos (foto: Divulgação)
“Hoje, o CD tornou-se um produto quase descartável, um cartão de visita. Em grandes shows, muitos artistas os distribuem como uma forma de divulgação. Vender quase 1 milhão de discos foi inacreditável. O mercado nos surpreendeu. É uma certeza de que estou no caminho certo”, comemora o padre paulista, que tem eterna gratidão ao público brasiliense. “Foi aqui que desenvolvi essa ‘fórmula’, que, graças a Deus, tem feito tanto sucesso.”

Questão de fé

Em uma época em que a venda de discos encontra-se em queda exponencial — no ano passado, a retração foi de 15,5% em relação a 2012, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Disco —, Alessandro Campos segue os passos de outros padres cantores, como Zezinho, Marcelo Rossi e Fábio de Mello. Não há crise neste segmento — os padres trilham o caminho inverso.

Campeão de vendas de mídias físicas no ano passado, desbancando nomes como Anitta e Roberto Carlos, o padre Marcelo Rossi diz não se sentir pressionado a manter o bom número de vendas quando lança um novo projeto. “O zelo missionário nunca se apaga, a cada dia eu me renovo para ousar mais. Eu vivo um dia de cada vez , nunca parei para pensar na pressão”, afirmou.

Ele garante que não se preocupa com a quantidade de discos ou exemplares vendidos. O padre também promove um verdadeiro “milagre” editorial — os livro Kairós e Ágape venderam juntos, mais de 10 milhões de exemplares.

Depois de tornar público problemas como depressão e distúrbios alimentares, o padre decidiu, este ano, mudar a forma como fazia música. Em seu mais recente álbum, 'O tempo de Deus', lançado em outubro, pela primeira vez abriu mão do coro que o acompanhava, além de compor todas as músicas do disco. Segundo ele, um motivo especial explica essa decisão. “As minhas orações e a composição das músicas para este disco é que me ajudaram a vencer a depressão. Compor era uma forma de me libertar da doença”, confessa o Padre, que, em outras entrevistas, afirmou que, por um longo período, se alimentou apenas de alface e hambúrguer.

Ele também resolveu oferecer 'O tempo de Deus' a um valor mais baixo, com preço fixo de R$ 10, abrindo mão dos direitos autorais. “Queria que o disco chegasse a um preço módico para as pessoas. Conseguimos. Foi uma luta, mas eu venci. Quando você não está preso ao dinheiro, é mais fácil”, avalia.

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