Em entrevista, Elza Soares fala de documentário sobre sua vida

A cantora ainda conta sobre as dificuldades do início da carreira

por Vanessa Aquino 10/11/2014 10:10

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Rodrigo Braga/Divulgação
Elza Soares diz que a música 'A carne' é um grito necessário para ela (foto: Rodrigo Braga/Divulgação)
Elza Soares exala raça e paixão por todos os poros. Passou fome, correu atrás de patrocínio e até pensou em parar de cantar para criar o filho Garrinchinha — fruto da união com o craque das pernas tortas Mané Garrincha. Aliás, o torto para Elza é o certo. A conclusão veio quando a fonoaudióloga concluiu que as cordas vocais de Elza Soares são tortas e, de tão tortas, se acertam. Daí a voz que é quase uma onomatopéia e se tornou a marca registrada.

“Cada vez que eu pegava a lata d’água na cabeça, fazia esse barulho”, diz Elza para explicar que não tem nada eletrônico na garganta, mesmo que a nota que faz ao brincar com o contrabaixo não exista.  Em entrevista, Elza falou sobre o preconceito que sofreu ao longo da carreira, por ser negra e mulher. Considerada uma Fênix, ela diz que é preciso renascer das cinzas e expor a carne negra, custe o que custar.

Gostou do resultado do documentário?

Olha, eu fiquei muito feliz porque o documentário recebeu quatro indicações maravilhosas. A resposta foi muito boa, além de ter sido uma experiência muito gostosa.

O cinema te encanta?
Eu acho importante porque eu nunca falei muito da minha vida. Todo mundo conhece a Elza de antes, mas não a Elza de agora. É disso o que o documentário trata: da Elza agora, por isso o nome 'My name is now'. Eu não quis expor muito a minha vida. Porque eu não sou ontem, não sou amanhã, eu sou agora. Agora eu sou. O importante é ser agora.

A diretora do documentário, Elizabeth Martins, diz que você é uma fênix. Você se considera forte dessa forma?
Eu acho que sim. Porque eu sempre estou renascendo. Eu luto muito e não posso parar. Não me permito isso. Estou correndo atrás sempre. É a vida.

Você disse que não queria um documentário que falasse de dor e sofrimento. Qual a essência do documentário?

Desde o começo a proposta foi essa. É muito chato ficar falando de dor, de sofrimento. Não! Vamos falar de vida. Acho que o povo está necessitado de abraço. O povo está necessitado de carinho. Eu sinto isso e tenho certeza que muita gente sente também. Aquele abraço, aquele carinho, aquela verdade. Acho que é disso que todos estamos precisando. Se a gente falar de sofrimento, as pessoas saem correndo. E eu não quero passar sofrimento para ninguém.

A sua história de vida está muito atrelada à história da música do Brasil…
É verdade… é uma história muito forte e até por isso as pessoas já sabem o que passei. Até hoje corro atrás de patrocinador. Nunca tive um patrocínio para minha arte. Eu corro atrás das coisas, nada cai do céu para mim.

Sua vida tem mais episódios de prazer ou de dor?
Acho que de prazer. Porque toda dor se torna um prazer depois. Não é isso?

De onde vem essa voz que, às vezes, parece uma onomatopéia? Quando começou a cantar assim?

Desde criança. Quando comecei a cantar, eu tinha uma voz diferenciada. Meu pai e minha família não queriam porque, naquela época, mulher que cantava era prostituta. E, até hoje, a palavra que eu mais gosto é “prostituta”… Juro… Porque, no fundo no fundo, todo mundo se prostitui. Acho que no fundo a gente se prostitui muito…sem saber.. mas se prostitui.

Como, por exemplo?
No trabalho, o salário, aguentar empresário, aguentar patrão. Às vezes, a mulher está menstruada, morrendo de cólica, mas ela tem que ir trabalhar. Brigou em casa com o marido, com o namorado, tem que chegar em casa e fingir que está tudo bem, porque senão é mandada embora. Mas tem que ir, tem que ir atrás do dinheiro. E isso acontece com as mulheres, principalmente.

É verdade que você tem a corda vocal torta? Como descobriu isso?
A minha fonoaudióloga, em São Paulo, fez um trabalho com a minha garganta… Inclusive, ela está indo agora para os Estados Unidos estudar a minha garganta. A minha corda vocal dá uma distorcida…dá uma distorcida legal e eu não sabia disso. Minha corda vocal de tão torta é certa.

Aqui em Brasília tem um poeta chamado Nicolas Behr que escreveu: “Nem tudo que é torto é errado. Veja as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado”…
E as cordas vocais da Elza Soares também (risos). A verdade é que o torto é certo. Viva Mané Garrincha.

Você canta com muita emoção, sempre. O que a música representa para você?

Quando eu escutei Seu Jorge cantando 'A carne', eu vi que estava faltando gritar. A carne é um grito que a gente busca… “A carne mais barata do mercado é a carne negra”… Como vou cantar isso sem dar um berro? Quando eu canto 'Meu guri' também procuro cantar contando uma história. Porque o Chico (Buarque) escreveu uma história de uma mãe pobre inocente que achava que aquele guri era a coisa mais linda e mais certa do mundo e que um dia chegaria a um lugar muito alto…. Então, não tem como… 'Meu Guri' também é meu grito.

Quando canta 'Carne' você faz uma interpretação emocionante, bate no peito… De que forma o racismo afetou sua carreira?
Como eu disse, eu nunca tive patrocínio. Meu patrocínio sou eu. É por isso que dizem que eu sou uma Fênix. A Fênix quando volta, volta inteira. É o que acontece comigo. E quando eu canto, eu troco o bico, a pele e a carne, a carne negra que é linda e maravilhosa. E isso vale para qualquer mulher. A gente fez tanta coisa para chegar a algum lugar, queimou sutiã para ter direitos iguais. Se nós, mulheres, não lutarmos, isso não vai ter valido de nada. Temos que fazer alguma coisa.

Já pensou em parar de cantar?
Uma vez tive uma loucura de parar de cantar. Porque eu sempre lutei, com filhos pequenos. Corria atrás como uma louca, sabendo o quanto era difícil. Ainda mais para uma mulher negra — e a gente sabe que a negritude nesse país é olhada com uma certa indiferença. Então, fui buscar lugar para trabalhar, para criar meu filho, o Garrinchinha, e pensei em parar de cantar. Eu ia trabalhar em um orfanato, num lugar desses. Aí, no lugar onde comecei a cantar em São Paulo, vi uma faixa anunciando show do Caetano (Veloso) e resolvi ir lá para me despedir. E disse a ele: “Caetano, meu guru, vou parar de cantar.” Foi quando ele disse: “Você não pode fazer isso, porque uma abelha rainha não deixa sua colmeia.” Então, nunca mais eu pensei nisso. Nunca me esqueci das palavras do Caetano. Foi quando ele me deu 'Língua' para cantar com ele. A voz é um presente que Deus me deu. Eu operei a coluna, estou com 16 pinos, fazendo fisioterapia, mas a voz continua intacta. A voz está boa, cara.

Conseguiu se recuperar da cirurgia?
Estou me recuperando. Não é fácil. Eu descobri que tenho vértebra de criança, não é vértebra de adulto.

Das coisas que fazia antes e não pode mais, o que mais te faz falta?
Salto alto. Eu também tinha um piercing no umbigo e tive que tirar. Não era um piercing qualquer, tinha um brilhante. O piercing nem faz tanta falta, mas o salto alto me faz uma falta louca.

E sambar?
Claro, faz muita falta, porque ficar sem sambar é um castigo.

Você se considera uma sobrevivente?
Não sei o que eu me considero, não. Juro que eu não sei. Acho que eu sou um ser humano estranho. Talvez por tudo que aconteceu comigo, tanta coisa na vida… aprendi a ter paciência resignação. A vida me acalma. Tem hora que a vida dá umas porradas e diz: “acorda, pô!”

Como você vê o tratamento que o governo e a sociedade tem dado às minorias?
Hoje, fazendo um retrocesso, eu vejo que a minoria é a maioria. Esse povo, que faz parte de mim, hoje pode estudar, viajar de avião. Sei que ainda falta muita coisa para a saúde, para educação… Mas eu acho que houve uma melhora tão grande que nós, a minoria, considerados os descartáveis, estamos melhorando de vida. O filho do porteiro faz faculdade. Isso é muito bom. E eu não quero retroceder.

O que precisa ser feito, com mais urgência na luta contra o racismo e a homofobia?

Consciência, vergonha, educação. Com isso melhora. O problema é falta de educação e de consciência do corpo e da mente.

Você conheceu alguns dos grandes nomes da música internacional, como foi seu encontro com Louis Armstrong, na Copa de 1962, no Chile?
Ele me chamou de “my daughter”, mandaram eu chamá-lo de “my father”, pensei que estava chamando ele para fazer outra coisa (risos). Falaram: “Vai lá e chama ele de “my father”, falei: “não, não vou fazer isso, tá louco. E se ele aceitar, se ele gostar, o que eu faço?”. Mas cheguei perto do negão e ele: “yeah, my daughter”, e eu ainda entendia que ele estava me chamando de “doutora, (doctor) e eu pensando: “Pô, o cara me chamando de doutora o tempo todo, meu nome é Elza, Elza Soares”. Aí me explicaram que ele estava me chamando de “filha”, apesar do som parecer “doutora”, e falaram também o que era “my father”… Depois a gente se encontrou no México.

Assista ao trailer de 'My name is now', filme sobre Elza Soares:



 

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