Paulistano Emicida traz a BH seu hip-hop sem preconceitos

Rapper se apresenta nesta sexta-feira no Espaço Even; cantor divide palco com Rael e a cantora norte-americana Akua Naru

por Ângela Faria 07/11/2014 07:00

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Rafael Kent/divulgação
(foto: Rafael Kent/divulgação)
Em 'Samba do fim do mundo', Emicida avisa: tá rolando reforma agrária na música popular brasileira. Metáfora certeira, essa: caem sem dó as cercas que um dia separaram MPB, samba, hip-hop, rock, reggae, pop, brega, choro, funk, bossa nova, sertanejo e axé. O rap, praia de Emicida, vai rompendo o estigma de “arte do gueto” e chega aos microfones de Caetano Veloso, Gil, Milton Nascimento, Elza Soares e Gal Costa. Até Chico Buarque experimentou o flow ao reverenciar, em disco e no palco, a releitura de 'Cálice' by Criolo.


Nesta sexta-feira à noite, Emicida vai mostrar ao público de BH por que está entre os nomes mais importantes do rap nacional. O compositor e MC paulistano, de 29 anos, não é apenas (muito) bom de verso. Ele mergulha com gosto nas fontes da inesgotável musicalidade de nosso país. O samba de Wilson das Neves, o rock de Pitti, o suingue de Mart'Nália, o funk ostentação de MC Guime e a modernidade delicada de Tulipa Ruiz combinam com os versos ora contundentes, ora suaves, ora irônicos do rapaz. Não vieram à toa os prêmios que seu último disco, 'O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui' (2013), conquistou.

O show de hoje não se limitará a reproduzir 'O glorioso retorno...' Aliás, os arranjos do álbum foram totalmente redesenhados, avisa Emicida. Além disso, ele vai tocar percussão, inspirado em seus encontros com Mart’Nália, além de se arriscar na bateria eletrônica.

O rapper conta que vai apresentar composições antigas, mas emblemáticas para sua carreira. É o caso de 'Rua Augusta' e 'Cacariacô', essa última uma espécie de canto de trabalho contemporâneo, gravado com Fabiana Cozza. 'Caxangá' (Milton Nascimento/ Fernando Brant) foi uma das fontes de inspiração para a canção, que descreve os perrengues do cidadão para chegar no serviço.

DARCY Falar em Clube da Esquina, tem mineiro ilustre no rap de Emicida. Lançada em 2013, 'Obrigado, Darcy' faz tocante e alegre homenagem ao montes-clarense Darcy Ribeiro, o antropólogo que dedicou sua vida à defesa da educação, aos índios e a compreender o Brasil. “Somos reis underground/ matéria-prima/ Macunaíma/ No peito da América Latina/ Hi-tech de terreiro/ O sonho de Darcy Ribeiro”, diz a letra.

A canção rememora o pensador apaixonado e alegre que soube valorizar a diversidade de seu povo. Apresentada nos EUA e em shows no exterior, Obrigado, Darcy chega ao Brasil em momento oportuno, quando se assiste à campanha antinordestinos deflagrada por insatisfeitos com o resultado da eleição presidencial. De acordo com Emicida, o rap é também oportunidade de atrair o interesse da garotada para as ideias e livros do pensador mineiro.

FILIPE BARBOSA/DIVULGAÇÃO
Rael põe tempero afrobeat no rap nacional (foto: FILIPE BARBOSA/DIVULGAÇÃO)
Nome de ponta na renovação do hip-hop, Emicida reverencia os pioneiros como Racionais MCs e Rappin Hood, “que trouxe os olhos da MPB para o rap”. O jovem paulistano explica que a marca de sua geração está em “abrir a comunicação com os meios de comunicação”. Se veteranos resistiram à mídia tradicional, acusada de tratar o hip-hop, o negro e o pobre com preconceito, o mundo mudou.

O rapper rompe paradigmas, ao conquistar o próprio território dentro da cultura de entretenimento, criar a própria produtora (Laboratório Fantasma) e aparacer na TV Globo. Aliás, ele cantou 'País do futebol', tema da novela Geração Brasil, com o MC Guime, astro do funk ostentação. Também gravou com a banda pop NX Zero.

Emicida desagradou a muitos manos, mas sabe derrubar fronteiras sem sacrificar o conteúdo de seus versos. Afinal de contas, abrir espaço é uma questão de sobrevivência para a cultura da periferia neste século 21, acredita ele.

Rei do improviso


Criado na periferia de São Paulo, Emicida aprendeu a improvisar ouvindo pastores evangélicos, escutou sertanejo das antigas, é fã de coco, repente, samba jazz, chorinho, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Tudo isso está em sua música.

Emicida pode ser contundente ao falar da favela e das mazelas do Brasil, lírico ao se derreter pela filhota na delicada 'Sol de giz de cera' e até um pouco malandrão no divertido 'Trepadeira', ao lado do mestre Wilson das Neves. Esse samba-rap, aliás, já lhe rendeu muitas broncas das feministas.

O hip-hop ganha público fora das periferias e flerta com a MPB, mas ainda não se livrou do preconceito, adverte o artista. “A música dos pretos fala da nossa sociedade, e essa sociedade segrega. Rap é cultura da periferia. E é política também”, resume Emicida.

De acordo com ele, o mercado pode até valorizar o dinheiro vindo de artistas do hip-hop, mas isso não significa o seu reconhecimento enquanto arte e cultura. “Não interessa para o mercado fortalecer o hip-hop de raiz”, constata. Mesmo assim, Emicida segue a rima. Afinal de contas, rap é compromisso, como bem cantou o saudoso Sabotage.
 

Rael na área

Emicida não chega sozinho a BH. O rapper Rael, de 32 anos, também vai cantar no Espaço Even. Autoestima, amor e as coisas da vida são temas de seus versos, além dos problemas sociais. “A gente fala de tudo, das quebradas às paradas mais íntimas", diz ele. Reggae, dub, afrobeat e samba temperam o hip-hop do paulistano.

Rael lançou os discos solo MP3 – 'Música popular do Terceiro Mundo' e 'Ainda bem que eu segui as batidas do meu coração'. Já fez vários shows no exterior e trabalhou com a dupla americana Beatnick e Salaam, que assina faixas de 50 Cent e Lauryn Hill.

A. NARU/ DIVULGAÇÃO
cantora Akua Naru mescla jazz e hip-hop (foto: A. NARU/ DIVULGAÇÃO)
Estreia nacional

Foi-se o tempo em que rap era território masculino. Nesta sexta-feira à noite, a norte-americana Akua Naru vai mostrar ao Brasil o que é que seu hip-hop tem. Radicada na Alemanha, ela já foi chamada de “guardiã do cool flow” por Tony Allen, o respeitado baterista de Fela Kuti.

BH vai marcar a estreia de Akua no Brasil. Em entrevista ao blog O esquema, a americana se diz ansiosa para conhecer o país. Fã do jazz de Miles Daves, John Coltrane e de Nicolas Payton, ela traz influências também de Bob Marley. Vale a pena procurar os vídeos da americana no YouTube. A mina é show.

EMICIDA, RAEL E AKUA NARU
Com Dope Crew, Coyote Beats e Xeréu. Hoje, às 22h. Espaço Even, Rua Vereador Antônio Zandona, 245/275, Jardinópolis. Ingressos: R$ 40 (2º lote). Pontos de venda: lojas Boundless, Reggae Nation e Central dos Eventos (Rua Fernandes Tourinho, 470, Loja 12, Savassi) e Direto ao Ponto (Avenida Olinto Meireles, 1.608, sala 106, Barreiro). Informações: (31) 8618-6414 e www.centraldoseventos.com.br.


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