Biografia de Bernard Sumner, do New Order, revela ressentimentos com Peter Hook

Cantor e guitarrista"entrega" alguns podres dos grupos Joy Division e New Order

por Daniela Paiva 30/10/2014 07:00

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Ki Price/Reuters - 12/8/12
(foto: Ki Price/Reuters - 12/8/12)
É um velho hábito do rock. O botão da rusga é disparado e quem sofre são os fãs, que choram eternamente a dissolução da sua banda favorita. Foi assim com Beatles, Oasis, The Smiths. E quase ocorreu com outro conterrâneo britânico, o New Order, uma das maiores bandas dos anos 1980. Apesar de uma saída traumática, ela não chegou ao fim. No entanto, o legado e a história do grupo tecnopop, responsável por clássicos como 'Blue monday', permanecem em uma disputa pública que acaba de ganhar novos capítulos.

Nesta sexta-feira, em São Paulo, o ex-baixista Peter Hook tocará na íntegra o repertório de dois discos lançados no auge da carreira do New Order. 'Low-Life', de 1985, e 'Brotherhood', de 1986, contêm hits como 'Love vigilantes', 'The perfect kiss' e 'Bizarre love triangle'. Para recriá-los, Hook traz a banda The Light, trio que inclui seu filho, Jack Bates.

A iniciativa faz parte de um projeto do músico que leva aos palcos o catálogo completo do Joy Division, banda seminal do pós-punk, e do New Order, ambas com a sua assinatura personalíssima no baixo. Desde 2013, já foram feitas performances com os dois únicos álbuns do Joy Division, 'Unknown pleasures' (1979) e 'Closer' (1980), e os dois primeiros do New Order, 'Movement' (1981) e 'Power, corruption & lies' (1983). Na linha cronológica, o Brasil vai conferir a sequência desses últimos.

A questão é que o New Order, nascido das cinzas do Joy Division (1976-1980) depois do suicídio do vocalista Ian Curtis, nunca teve uma lápide propriamente dita. E o projeto corresponde a uma resposta clara à bronca com o velho Barney, apelido de infância de Bernard Sumner, cofundador das duas bandas, guitarrista e vocalista do New Order.

A briga veio à tona em 2007. Pouco depois de uma turnê que passou pelo Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília, Hook anunciou em entrevista o fim do New Order. Só que os outros integrantes decidiram continuar. Com Bernard Sumner à frente, e dois membros originais – o baterista Stephen Morris e a tecladista Gillian Gilbert, que retornou em 2011, depois de 10 anos –, a banda continua na ativa. Um novo disco, o primeiro sem o baixo de Hook, está previsto para o ano que vem pela gravadora inglesa Mute Records.

Para recuperar a nota que sentenciou o término do clima tolerável entre a dupla, Sumner vai um pouco mais longe no tempo em sua biografia, lançada no mês passado na Inglaterra: 'Chapter and verse: New Order, Joy Division and me' ('Capítulo e verso: New Order, Joy Division e eu'). No relato, Sumner pontua as gravações da canção 'Transmission', do Joy Division, como o momento da ruptura entre os dois.

No livro, chama a atenção o distanciamento para os laços entre Barney e Hooky (apelido de Peter Hook). Há pouco espaço para a construção de uma amizade. A impressão é a de que esses dois caras se encontraram em Salford, distrito de Manchester, criaram uma banda (Joy Division), a segunda (New Order), e dialogavam apenas na hora de fazer música. E, mesmo assim, no esquema “cada um na sua”. De resto, circulavam em caminhos antagônicos – e com Hooky encarnando a figura do roqueiro doidão disposto a mandar em tudo e todos, na visão do colega.

“Eu era o Sr. Travessura; Hooky rapidamente se transformou no Sr. Ego; Ian (Curtis), que tinha o temperamento de um vulcão, e Steve (Morris, baterista também do New Order até hoje) era o Sr. Loucura”, descreve o guitarrista sobre os primórdios do Joy Division.

Em uma análise publicada na Billboard sobre o livro, Hook inicia o texto polidamente: “Gostei de ler sobre o começo da vida do Bernard em Salford”. Mais adiante, ataca: “Achei o Bernard constantemente contraditório e a sua narrativa sobre mim é cruel e rancorosa. (...) Lendo o livro, comecei a pensar se o Bernard já discutiu com alguém que não fosse chamado Peter Hook”.

Sumner, por sua vez, não poupa críticas à iniciativa de Hooky de interpretar o legado para os palcos à sua maneira. “Acho isso muito chato”, disse o guitarrista, também à Billboard. “Descobrimos pela imprensa que ele estava fazendo a turnê de 'Unknown pleasures'. Ele não nos comunicou, o que achamos muito baixo. Parece uma coisa muito comercial de fazer, pelo dinheiro. Foi desrespeitoso.” Na mesma entrevista, porém, o vocalista tenta justificar a continuidade do New Order sem a emblemática presença de Hook. “Devo admitir: uma vez que ele decidiu fazer isso, pensamos: ‘o que estávamos fazendo ao decidir continuar com o New Order?’ De certa maneira – e você me desculpe o trocadilho – ele nos mostrou a luz.” Será? Os fãs julgarão.

Acerto de contas

Em tom ingênuo, quase infantil, o autor de 'Bernard Sumner: Chapter and verse' revela uma persona sofredora diante dos ataques ordinários da vida. Na infância e adolescência difíceis, o guitarrista se mostra um menino que pena com os problemas de saúde da família e o medo de surras da mãe e do padrasto. É sobrevivente em uma área violenta de sua cidade, Manchester, e encontra na música a escapatória à dura realidade. Na fase Joy Division, Sumner abre interessante janela para os fãs da banda. Ele detalha processos de gravação e descreve o mito suicida Ian Curtis (1956-1980) como um cara comum, apreciador de livros e de música, que teve dificuldades para enfrentar a epilepsia. Ao narrar a trajetória do New Order, o relato faz um saboroso mergulho na cena clubber nova-iorquina.

A história destaca pontos aparentemente mais caros a Sumner – a criação de hits e de álbuns como 'Technique' (1989) e 'Republic' (1993). Também há um acerto de contas nas pendengas que envolveram outros negócios, como o clube The Haçienda, ícone do acid house em Manchester. Mas o tom é de quem não sabia lidar com o aspecto financeiro do empreendimento, menos ainda com os ganhos com direitos autorais. Sumner relembra dois projetos paralelos durante o hiato do New Order – 'Electronic' (com Johnny Marr, ex-Smiths, e Neil Tennant, do Pet Shop Boys) e 'Bad Lieutenant' (com o baixista do Blur, Alex James). E, no meio disso tudo, detalha a conflituosa relação com Peter Hook, anunciada como odiosa sem que, segundo o autor, houvesse qualquer mão dupla. O ódio, diz ele, vem de Hook, e ele não sabe o porquê. Não por acaso, o livro termina com a saída do baixista.

Trechos do livro

Rivalidade
“A última vez que tentei (trabalhar colaborativamente com Peter Hook) foi em 'Transmission' (música do Joy Division), mas Hooky não gostou. Ele parecia ter interpretado como se alguém houvesse lhe dito o que fazer. Então desisti. É uma pena, porque você gostaria de se sentir parte de um time, todos caminhando na mesma direção com um objetivo em comum, mas por alguma razão que nunca sondei, a sensação era de que Hooky via alguma competição imaginária acontecendo dentro da banda. Ao longo dos anos, tudo isso piorou, e nunca entendi o porquê. Sentia que ele tentava criar um tipo de rivalidade entre nós e, aparentemente, ele continua a fazer isso. Mesmo hoje, depois de ter deixado o New Order há anos e quando temos quase zero contato, ele ainda tenta perpetrar esse mito de uma rivalidade que vai desde os tempos em que éramos garotos (...). Qualquer rivalidade entre eu e o Hooky existe apenas na cabeça dele.”

Pichação
“Explosões (de Hooky) à parte, as coisas fluíam em geral no New Order até o outono de 2006, quando fizemos uma turnê pela América do Sul. Havia uma tensão crescente e tangível que se centralizava na atitude de Hooky sobre mim. Eu o pegava me olhando como quem queria dizer: ‘Você sabe exatamente por que estou com raiva – mas eu não sabia (o porquê), eu, absolutamente, não sabia. Realmente, não tinha a menor ideia do que esse cara tinha contra mim. (...) Algumas dessas esquisitas explosões aconteciam fora, mas coisas estranhas começaram a ocorrer dentro do palco também. Ele começou a pichar slogans nos amplificadores dos seus baixos, coisas como “Salford domina” (...) O primeiro foi “Dois garotos se conhecem na escola”; o próximo era “E então eles caíram fora”; e na noite seguinte, “E agora eles se odeiam”. Muito estranho. Não estava feliz com ele, para dizer o mínimo, mas certamente não odiava o cara. Se ele tinha um problema, o que claramente ele tinha, e se essa era realmente a forma que ele via, por que pichar os amplificadores em vez de conversar comigo?”

Letra e…
'Chapter and verse – New Order, Joy Division and me'
Autobiografia de Barney Sumner, vocalista e guitarrista do New Order. Bantam Press, 343 páginas, importado. Sem previsão de edição no Brasil.

…música
'Peter Hook & The Light performing New Order’s Low-Life and Brotherhood'
Nesta sexta-feira, às 23h. Clash Club, em São Paulo.

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