Elomar e convidados apresentam concerto com peças que integram o cancioneiro do compositor

Obra do artista desafia intérpretes de vários estilos

por Eduardo Tristão Girão 17/10/2014 10:22

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Kika Antunes/Divulgação
Autor de canções, concertos e óperas, Elomar, aos 76 anos, vem se dedicando a registrar sua obra empartituras (foto: Kika Antunes/Divulgação)
Quando ficou pronto, em 2008, 'Elomar: Cancioneiro' – caixa com 49 partituras, um caderno de letras e um livro sobre o cantor e compositor baiano – motivou lançamento em Belo Horizonte, o que incluiu curta apresentação do artista. Ano passado, espetáculo completo foi montado para rodar o país e, enfim, chega à capital mineira em duas noites no Teatro Bradesco, hoje e amanhã. Impressiona a diversidade de perfis entre os músicos reunidos para dar conta da interpretação da complexa obra do “Bode” (assim os amigos se referem a Elomar), que, aos 76 anos, também estará no palco.


Além do filho João Omar (violão), Elomar terá a companhia de nada menos que mais quatro violonistas (todos de Belo Horizonte) e da cantora lírica Letícia Bertelli – todos cantam no decorrer da apresentação. É a pluralidade do quarteto o que mais chama a atenção: Hudson Lacerda destaca-se na área erudita e é professor do instrumento, enquanto Kristoff Silva marca presença como importante cancionista contemporâneo, Avelar Júnior tornou-se conhecido pelo trabalho com a banda de rock do S.O.M.B.A., e Maurício Ribeiro trilha caminho bem-sucedido na cena instrumental.

Os violonistas de BH e Letícia formaram a equipe responsável por ouvir e transcrever cada uma das músicas selecionadas de 'Elomar: Cancioneiro'. Ao fim desse árduo trabalho, aprovaram com o próprio artista a versão final da partitura: não necessariamente teria de ficar idêntica a essa ou àquela gravação, mas expressar o desejo do compositor para uma versão definitiva, para ser registrada e consultada pelos que desejam interpretar sua obra. Daí a grande intimidade do grupo com o repertório desta noite, que inclui peças como 'O violeiro', 'História de vaqueiros', 'Chula no terreiro', 'Pidido' e a clássica 'Arrumação'.

“A interpretação do Elomar varia sempre, fora os tipos de ritmos do sertão, que ao assimilarmos e passar para o papel perdemos um pouco dos elementos. O desafio maior foi assimilar tudo isso e apresentar de maneira que os elementos importantes estivessem ali. Além do que, pegar tudo de uma única gravação seria congelar uma interpretação. 'Cantiga de amigo', por exemplo, tem a primeira gravação bem simples”, analisa Hudson Lacerda. Além de transcrever parte das músicas, ele revisou a parte de violão de todas as 49 partituras.

Para Kristoff Silva, a parte rítmica representou desafio na transcrição. “A harmonia é simples, mas escrever o ritmo em partitura é muito difícil. É tudo muito ligado à fala e a fala é muito irregular. A música dele, para expressar o texto, que é muito peculiar, torna a notação rítmica muito complexa”, explica. Foi importante ter em mente que as partituras atendessem não apenas a Elomar, mas também ao público. “Essa obra nunca recebeu esse tipo de tratamento. Encontrar o ponto entre o rigor e a sensibilidade foi o desafio”, avalia.

Nos anos 1990, quando estava muito envolvido com o rock progressivo, Maurício Ribeiro teve o primeiro contato com a música de Elomar. Era o disco 'Na quadrada das águas perdidas'. “Achei aquilo super rock progressivo, muito rico”, lembra. Com o tempo, assimilou melhor as peculiaridades da obra do baiano, que, numa definição bastante resumida, mistura elementos nordestinos e medievais. “Usamos linguagem da música renascentista e contemporânea na transcrição. Os trejeitos de voz e violão são muito particulares, com nuances que nos fazem olhar para vários lados”, diz.

Choro

Numa mostra de como cada músico lidou de maneira diferente com esse intenso envolvimento com o cancioneiro elomariano, Avelar Júnior não esconde o fato de que chorou (e ainda chora) diversas vezes por causa desse projeto. “Músicas como 'Dassanta', por exemplo, deixei para transcrever por último, pois me doía demais. É como um filme, não dá para acostumar com a sua grandeza. No palco a gente tenta segurar a emoção e como não fica todo mundo junto o tempo todo, é comum ver alguém chorando nos bastidores.”

Diretora musical de 'Elomar: Cancioneiro', a cantora Letícia Bertelli acredita que os concertos de hoje e amanhã servem principalmente para mostrar as possibilidades de interpretação da obra de Elomar. “Com as partituras, os músicos têm acesso à música tal e qual foi concebida. É um material que serve a arranjos de qualquer elaboração, até para orquestra. Os arranjos que fizemos mostram as amplas oportunidades que temos a partir desse material”, conclui.

Peças para violão solo

Filho de Elomar, João Omar anuncia para o fim do ano o lançamento de um disco instrumental inteiramente dedicado a peças para violão solo escritas pelo pai. São 13 ao todo, escritas em momentos distintos da carreira do artista de 30 anos para cá – mais da metade é inédita. O trabalho ainda não tem nome e será lançado de forma independente. Para o ano que vem, revela, é possível que haja turnê para divulgar esse repertório.

Sobre o teatro construído na fazenda do pai, em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, Omar afirma que a programação não está ativa porque, no momento, o foco está no projeto de manutenção do acervo de Elomar. “São manuscritos, cartas, composições, material audiovisual e até projetos arquitetônicos que ele já fez. Uma curiosidade é o projeto dele de uma máquina para colher café, uma coisa meio Professor Pardal, meio Leonardo da Vinci”, conta. Ele não descarta a ideia de abrir o local para visitação.

João Omar conta que as gravações da obra do pai ainda são escassas, quase sempre realizadas pela “corriola desse movimento das cantorias”, como ele se refere aos velhos amigos de Elomar, como Saulo Laranjeira e Xangai. Entretanto, não deixa de se animar quando se depara com novidades: “Outro dia, soube de uma banda japonesa que gravou música dele em ritmo de rock e que o Zeca Baleiro teria gravado 'Chula no terreiro'. Com o projeto das partituras isso ficará mais fácil de acontecer”.

REPERTÓRIO

'O violeiro'
'História de vaqueiros'
'Chula no terreiro'
'Noite de Santo Reis'
'Corban'
'Na estrada das areias de ouro'
'Joana Flor das Alagoas'
'Seresta sertaneza'
'O rapto de Juana do Tarugo'
'Um cavaleiro na tempestade'
'Cantiga do estradar'
'Faviela'
'Pidido'
'Arrumação'

'Cantiga de amigo'

Aspas

“Impressiona-me a força que Elomar cria no discurso da música com a palavra, uma reforçando a identidade da outra. O caráter incisivo da música dele é muito forte.”

. Maurício Ribeiro, violonista


“A música de Elomar é muito impressionante e emocionante, sincera e profunda, com força poética e envolvimento muito grande dele com as próprias composições.”

. Hudson Lacerda, violonista


“Por trazer informações de outras épocas musicais e de lugares no Brasil que só tenho acesso pela música dele, Elomar é uma janela para um tempo e espaço que só ele mesmo criaria.”

. Kristoff Silva, violonista


“O que primeiro me encanta é a riqueza poética do texto de Elomar. A relação texto e música, a música vai de mão dada com a letra. É tudo muito ousado, refinado.”

. Avelar Júnior, violonista



“O que arrebata pega a gente de forma irracional e a música de Elomar não me abraçou de forma intelectual. Aparentemente, a linguagem é muito comum, mas cada canção tem um universo único.”

. Letícia Bertelli, cantora



'Elomar: Cancioneiro'
Show de Elomar e grupo. Sexta e sábado, às 20h, no Teatro Bradesco (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia-entrada). Informações: (31) 3516-1360.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA