Artistas redescobrem obra musical de Chico Anysio

Pesquisadores da MPB destacam consistência do trabalho musical do humorista Chico Anysio. O artista foi parceiro de Arnaud Rodrigues, João Roberto Kelly e até da mãe, Haydée de Paula

por Ailton Magioli 11/10/2014 09:00

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Bozo/Divulgação
Chico Anysio, mesmo sem tocar um instrumento, era habilidoso na hora de casar as palavras com a melodia (foto: Bozo/Divulgação)

O compositor pode até não ter conseguido superar o humorista, que se destacou no teatro e na TV, passando pelo rádio e pelo cinema, mas que Chico Anysio (1931-2012) também fez história na música, disso ninguém duvida. Que o digam Gero Camilo, Luiz Miranda e Maria Alcina, que dois anos depois da morte do humorista estão promovendo o resgate de suas canções, por meio de shows e gravações.


Enquanto os dois atores revivem em show o fenômeno Baianos & Os Novos Caetanos, que emplacaram sucessos como Vô batê pá tu, Urubu tá com raiva do boi e Folia de reis, da parceria de Chico com Arnaud Rodrigues (1942-2010) e Renato Piau, a cantora regrava o baião Não se avexe, não, que havia sido originalmente lançado, em plenos anos 1950, por Dolores Duran (1930-1959).


Gero Camilo acredita ter encontrado, ao lado do amigo Luiz Miranda, uma forma bem-humorada de continuar promovendo o que classifica de a “potência tropicalista” de Chico Anysio e Arnaud Rodrigues, que, na opinião do ator, teriam legado “uma excelência musical muito bonita e forte” ao cancioneiro popular brasileiro.


Viajando o país com o show Aos Baianos e aos Novos Caetanos, os dois homenageiam os artistas já mortos, cuja obra possui grande potencial de sucesso. Na opinião do ator e cantor cearense Gero Camilo, conterrâneo de Chico, o disco de estreia do grupo ficou décadas no esquecimento, apesar do importante valor poético-musical.

DO SAMBA AO BAIÃO A cantora Maria Alcina conta que a música de Chico Anysio chegou a ela por intermédio de Rodrigo Faour. Ao lançar o livro Dolores Duran – As noites e as canções de uma mulher fascinante, o pesquisador a convidou para cantar Não se avexe, não. “No meu novo disco ela acabou chegando pelo produtor Thiago Marques, que sugeriu a gravação do baião, além de Vô batê pá tu, que não entrou no repertório por questão de espaço”, relata.


Para Alcina, Não se avexe, não faz parte do imaginário popular. “Lembro muito da minha mãe cantando o baião lá em Cataguases”, justifica a cantora. “Na minha gravação, quem canta é a guitarra”, acrescenta ela, ao elogiar a sofisticação do arranjo do baião, feito pelo maestro Rovilson Pascoal, que a acompanha no show de lançamento do CD De normal (Bastam os outros).


Ao lado de Maria Alcina, a mais recente reverência a Chico vem de dois atores: Gero Camilo e Luís Miranda, que recriaram o ambiente artístico da dupla formada pelo humorista e Arnaud Rodrigues, no espetáculo Aos baianos e aos Novos Caetanos. O show cênico-musical cumpriu turnê pelo país e já foi apresentado em Belo Horizonte. Fora dos palcos, o reconhecimento vem dos estudiosos da MPB.


“Chico Anysio fez tanto humor que eclipsou o compositor”, acredita o produtor e pesquisador Jairo Severiano, autor de Uma história da música popular brasileira – Das origens à modernidade. Para ele, Chico era um muito artista ativo e inteligente. “Porém, se comparado ao ator, escritor e cômico, o compositor era insignificante”, acrescenta Jairo, para quem a música foi apenas um complemento na carreira de Chico Anysio.


Parceiro do pesquisador em A canção no tempo – 85 anos de músicas brasileiras – 1901-1985, Zuza Homem de Mello, por sua vez, afirma que, “além da facilidade de criar personagens, Chico Anysio tinha um domínio fantástico da escrita, que acabou utilizando nas letras de músicas”. Mas o grande mérito dele – garante Zuza – era a voz, com a qual se mostrava convincente e se impunha. “A voz foi o motivo do sucesso de Chico Anysio, cujas incursões musicais demonstram, na verdade, necessidade de expansão artística”.


De acordo com Zuza, ao contrário de personalidades como Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, e o ex-presidente Jânio Quadros, que também se aventuraram na música com resultados pífios, Chico Anysio fez canções que resultaram em algo consistente. “Um exemplo é o samba Rio antigo, que ele compôs com Nonato Buzar e que foi gravado por Alcione”, diz Zuza Homem de Mello, que teve o privilégio de trabalhar ao lado de Chico Anysio, como técnico de som, no Teatro Record. “Nas apresentações, ele não precisava de nada. Acompanhado do violonista Mãe de Vaca, que tocou também com Elizeth Cardoso, Chico também cantava “em atividade muito maior do que se imagina”.

Filhos O filho Bruno Mazzeo lembra que o pai sequer tocava um instrumento. “Ele fazia mais letras de músicas”, diz Bruno, lembrando que o tio Elano, autor de Canção de amor, em parceria com Chocolate, também é compositor. “Gosto muito das músicas dele. Sobretudo dos Baianos & Os Novos Caetanos que, além de bem-humoradas, são cheias de suingue. Folia de reis, por exemplo, é linda. Assim como Urubu tá com raiva do boi e Vou batê pá tu, que dariam certo no carnaval de Salvador”, aposta o filho de Chico que, ao contrário do pai, chegou a tocar baixo em uma banda de rock que integrou também como cantor.


André Lucas, que também é filho de Chico Anysio, admite que o pai é um dos maiores poetas que o Brasil já teve. “Poucos conhecem esse lado dele”, garante André, lembrando que Chico imitava poetas de qualquer estilo. “Há poemas dele que você jura que foi Castro Alves quem escreveu”, acrescenta.

 

Jardiel Carvalho / Divulgação
(foto: Jardiel Carvalho / Divulgação)
Nome na bolacha

Chico Anysio só passou a ser creditado como compositor a partir da marcha-rancho Rancho da Praça Onze, que fez em parceria com o amigo João Roberto Kelly para a abertura e encerramento (prefixo) do programa Praça Onze, da extinta TV Rio, na década de 1960. Gravada por Dalva de Oliveira no quarto centenário da cidade do Rio de Janeiro, a composição fez grande sucesso. “Ele também fazia muita coisa para o Nordeste”, recorda o parceiro João Roberto Kelly, citando o clássico A fia de Chico Brito. Devidamente registrado por Elis Regina em compacto duplo, de 1971, no qual o baião dividia o repertório com Nada será como antes, Osanah e Casa no campo, A fia de Chico Brito, de Francisco Anysio (como ele assinava, inicialmente), é um dos clássicos em que o compositor-humorista exercitava a veia nordestina. Dizem que, originalmente gravado por Dolores Duran, no registro feito por Elis, em plena ditadura civil-militar, a palavra “militá”, que aparecia no final da letra, teria sido substituída para evitar problemas com a censura.

 

 

DISCOGRAFIA

1957 – Hino ao músico (Dorival Silva, Chico Anysio e Nanci Wanderley)
1965 – Rancho da Praça Onze (Chico Anysio e João Roberto Kelly)
1965 – A família (Chico Anysio e Ary Toledo)
1968 – De como um garoto apaixonado perdoou por causa de um dos
                mandamentos (Nonato Buzar/ Chico Anysio/Wilson Simonal)
1973 – Chico City – Trilha sonora original – Chico Anysio e Arnaud Rodrigues
1974 – Baiano & Os Novos Caetanos – Volume 1, Arnaud Rodrigues,
              Chico Anysio e Renato Piau
1975 – Baiano & Os Novos Caetanos – Volume 2, Arnaud Rodrigues,
              Chico Anysio e Renato Piau
1979 – Rio antigo (Nonato Buzar e Chico Anysio)
1982 – Baiano & Os Novos Caetanos – A volta, Arnaud Rodrigues,
               Chico Anysio e Renato Piau
1998 – Safada (Wando e Chico Anysio) 

 

 

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