Sinfônica de São Paulo faz show em BH para comemorar 60 anos

Orquestra faz turnê nacional de aniversário e se divide entre os preparativos para os concertos e projetos sociais

por Eduardo Tristão Girão 21/08/2014 08:33

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Yuri Tavares/divulgação
A americana Marin Alsop rege a Osesp na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro (foto: Yuri Tavares/divulgação)
Rio de Janeiro
- “Está muito brilhante, preciso que fique mais escuro”, diz a regente norte-americana Marin Alsop a dezenas de instrumentistas da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Assim, com essa instrução simples e abstrata durante a passagem de som, anteontem, no Rio de Janeiro, ela fez com que o mesmo trecho da música soasse completamente diferente. Esse é um dos ajustes finos, feitos minutos antes do concerto, que contribuíram para que, ao final, o público da Cidade das Artes aplaudisse a Osesp de pé, com direito a três tempos de bis. Nesta quinta, Belo Horizonte vai conferir a performance, que integra a turnê comemorativa dos 60 anos da sinfônica por cinco capitais.

Apresentado em Salvador e no Rio de Janeiro, o programa será repetido na capital mineira, em Porto Alegre e em Curitiba, reunindo Carlos Gomes (Lo schiavo: Alvorada), Grieg (Concerto para piano em lá menor, op. 16) e Tchaikovsky (Sinfonia nº 5 em mi menor, op. 64). Marin, que responde pela direção musical da Osesp desde 2012, vai reger o grupo. O jovem pianista russo Dmitry Mayboroda, de apenas 20 anos, é o solista convidado.

O moscovita Mayboroda é considerado um prodígio ao piano. Foi premiado em diversas competições internacionais, como o 7º Dedication to Franz Liszt International Young Pianists e o 6º Tchaikovsky International Young Musicians Competition. Tocou em importantes festivais, como os de Rheingau (Alemanha), São Petersburgo (Rússia) e Campos do Jordão (SP), além de fazer turnês pela França, Áustria, Alemanha, Itália, Grã-Bretanha e Estados Unidos. O rapaz já se apresentou com a sinfônica de Viena, a Filarmônica de Londres e a Orquestra Nacional da Bélgica.

A turnê consolida a posição de destaque da Osesp no cenário nacional, garantida por meio da malha de atividades não apenas da orquestra, mas dos grupos que dela derivam (como o quarteto e o coro) e de projetos de formação e educativos que beneficiam 120 mil crianças. As atividades incluem programas de rádio e TV, discos e encomendas a compositores. Anualmente, só os concertos dos corpos artísticos chegam a cerca de 300 – 140 apenas da orquestra, cuja próxima temporada será anunciada em outubro.

Dedicação

“Estar à frente de tudo isso é coordenar um grupo muito grande de pessoas. É um privilégio, trabalho que não acaba. É a dedicação de uma vida, penso nisso o dia todo. Esse emprego vale por três”, comenta Arthur Nestrovski, diretor artístico da Osesp. Um dos projetos que têm lhe dado mais satisfação é o selo digital da sinfônica, que gravou e disponibilizou para download gratuito obras de compositores brasileiros como Almeida Prado, Aylton Escobar e Henrique Oswald.

Nestrovski elogia o trabalho que Marin Alsop desenvolve à frente da orquestra. “É muito fácil trabalhar com ela. Ativa, responde aos e-mails imediatamente, uma pessoa muito eficiente nas decisões e resoluções. Musicalmente, Marin tem grande precisão e segurança rítmica, além de capacidade rara de organizar ensaios. Ela é capaz de ensaiar obras muito complexas em curto período de tempo”, comenta.



Villa-Lobos

Em projeto iniciado em 2011, a Osesp pretende concluir em dois anos a revisão e a edição das 11 sinfonias de Villa-Lobos, bem como gravá-las pelo selo internacional Naxos. Segunda-feira, no Rio de Janeiro, solenidade na Academia Brasileira de Música (que detém os direitos autorais do compositor na América Latina) marcou a entrega das partituras finalizadas de seis delas. Nesse trabalho, a Osesp teve o maestro Isaac Karabtchevsky como parceiro.

“Durante esse trabalho, digo que encontramos ‘erros’, pois, na verdade, Villa-Lobos não revisava as partituras porque não tinha tempo e sempre sabia exatamente o que queria. São coisas como uma nota errada ou instrumentos faltando. Ele era um gênio. Ainda faltam quatro sinfonias, mas a 12ª, chamada A paz, perdeu-se e ninguém sabe onde está”, informa Antonio Carlos Neves Pinto, coordenador do centro de documentação musical da Osesp.

A cada ano, o grupo grava uma ou duas sinfonias de Villa. Até dezembro, concluirá o registro da 10ª, batizada de Ameríndia, encomendada pela Prefeitura de São Paulo, em 1952, para as comemorações dos 400 anos da capital paulista. Trata-se da maior obra do gênero escrita por ele, com 68 minutos e cinco movimentos interpretados por grande orquestra, coro e três solistas – fora os textos em português, tupi-guarani e latim.

Da terra

Dois violinos de luthiers de Minas Gerais acompanham o spalla da Osesp, Emmanuele Baldini, ao longo da temporada. Um foi construído por Carlos Jorge de Oliveira, de Belo Horizonte, e o outro por Gedson Bravim, de São João del-Rei. Baldini é dono de outros três instrumentos (apenas um não foi feito no país), que reveza nos concertos. “Gosto de estimular a luteria brasileira. Assim, contribuo com essa atividade no país que me adotou. Os artesãos daqui fazem um trabalho primoroso, os instrumentos são tão bons quanto os lá de fora”, diz o violinista, que mora no Brasil há 10 anos.

ORQUESTRA SINFÔNICA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Palácio das Artes. Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Regência: Marin Alsop. Solista convidado: Dmitry Mayboroda. Nesta quinta, às 20h. Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada).



Três perguntas para: Marin Alsop regente-titular da Osesp

Como você avalia esse período em que está à frente da Osesp?

Essas duas temporadas e meia têm sido maravilhosas. Trabalhamos bastante para melhorar aspectos técnicos da orquestra, como integridade rítmica, paleta de sonoridades, alcance dinâmico e questões de estilo. Também estimulo que nos expressemos artisticamente da maneira mais emocional possível. Estou impressionada com o comprometimento dos músicos e a dedicação deles em ser os melhores que puderem.

A Osesp é considerada a mais importante orquestra brasileira. Como ela está situada internacionalmente? Como tem sido sua aceitação fora do Brasil?

Ela está ganhando reconhecimento e admiração, resultado das gravações, turnês e transmissões pela internet que temos feito. No Brasil, temos ótimas plateias e muito apoio. Fora do país, a aceitação é maravilhosa. As pessoas se mostram interessadas e receptivas. A recepção lá fora tem sido impressionantemente positiva.

O trabalho no Brasil tem lhe permitido conhecer melhor os músicos e a música daqui? Foi possível acompanhar o trabalho de outras orquestras brasileiras?

Tenho muito pouco conhecimento sobre compositores clássicos brasileiros e música popular brasileira. Para mim, é como encontrar uma grande arca do tesouro: Guarnieri, Carlos Gomes, Mignone e, é claro, Villa-Lobos, além da incrível tradição na música popular. Tudo isso é inspirador. Conheço e admiro o trabalho de Fabio Mechetti (regente da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais). Nós dois tivemos o mesmo empresário no início de nossas carreiras. Tive o prazer de ouvir a Orquestra Sinfônica Brasileira com Roberto Minczuk e sei que há muitos outros regentes e orquestras excelentes no Brasil. Essa é uma época empolgante aqui.


. O repórter viajou a convite da Osesp

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