Turíbio Santos é atração na abertura do projeto Viva os Mestres

Concertos vão até sábado com recitais em torno das obras de Heitor Villa-Lobos, Frédéric Chopin e Richard Strauss

por Mariana Peixoto 07/08/2014 08:15

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Paulo Araújo/CB/D.A Press
"O violão é um cachorrinho vira-lata esperto, que frequenta todos os quintais. Tem um sarau musical, ele lá está, uma roda de samba também. Está na bossa nova e também no rock, em sua forma eletrônica%u201D Turíbio Santos, violonista (foto: Paulo Araújo/CB/D.A Press)
Com tempo livre como qualquer garoto de 15 anos, Turíbio Santos foi o escolhido para, numa tarde quente do Rio de Janeiro de 1958, assistir a uma conferência de Heitor Villa-Lobos, na Urca. Já colaborador de Hermínio Bello de Carvalho no programa Violão de ontem e de hoje, da Rádio MEC, o então adolescente ouviu dele: “Leve seu caderninho e anote tudo o que ele falar”. Só três pessoas foram ao encontro. Sem pestanejar, Villa-Lobos convidou o trio para sentar-se com ele à mesa. Falou por três horas. Turíbio anotou absolutamente tudo. O tal caderninho resultou, muitos anos mais tarde, no livro Villa-Lobos e o violão, que Turíbio publicou pelo Museu Villa-Lobos, instituição que dirigiu por 24 anos. Depois daquela tarde, o violonista nunca mais viu Villa-Lobos, que morreu em novembro de 1959, aos 72 anos.

“Ele é tocado no mundo inteiro. Eu diria que a coluna vertebral dos royalties que recebo vem do violão. Villa-Lobos é uma espécie de Chopin do violão”, afirma Turíbio, o mais conhecido dos intérpretes da obra para violão de Villa-Lobos – e também um dos mais antigos em atividade, já que desde os 12 anos o hoje senhor de 71 se dedica a executar seus choros, prelúdios e estudos. É com Turíbio ao violão, homenageando Villa-Lobos pelos seus 55 anos de morte, que tem início nesta quinta, no Teatro Bradesco, o projeto Viva os mestres. A programação se estende até sábado. Amanhã, Frédéric Chopin ganha homenagem pelos s

Turíbio não vai se apresentar sozinho nesta noite. Terá como companhia os também violonistas Fernando Araújo, Celso Faria e Gilvan de Oliveira, além do flautista Mauro Rodrigues. Celso Faria, por sinal, realizou há dois anos dissertação pela UFMG em torno da obra de Turíbio. A pesquisa foi sobre a chamada Coleção Turíbio Santos, projeto realizado ao longo de 1970 e 1980, em que o violonista busca criar um novo repertório para o instrumento, por meio de temas encomendados a sete compositores brasileiros. No concerto de desta qunta, além das obras de Villa-Lobos, serão apresentadas ainda peças de Francisco Mignone e Radamés Gnattalli.

Depois da morte de Villa-Lobos, tudo ocorreu muito rápido na trajetória de Turíbio. A viúva do compositor das Bachianas brasileiras, Arminda Neves d’Almeida, criou em 1960, no Palácio Gustavo Capanema, o Museu Villa-Lobos – desde 1982, a instituição funciona num casarão em Botafogo. Turíbio fez em 1961 um recital com peças de Villa-Lobos. Assistido por Arminda na ocasião, foi convidado por ela, já em 1962, para tocar a primeira versão integral dos 12 estudos do maestro. E isso foi apenas o começo de uma relação que se estreitou ao longo das décadas. “Ela foi como uma mãe para mim”, recorda.

Ainda na década de 1960, começando sua carreira internacional, Turíbio venceu o Concurso Internacional de Violão promovido pela Rádio e Televisão Francesa, o que fez com que estreitasse laços com o país onde viveu por 20 anos. Com uma versão popular para o Concerto de Aranjuez, Aranjuez, mon amour, virou um best-seller, vendendo muito mais do que o esperado. Maior gravadora francesa de música clássica, a Erato Records fez a ele um convite: registrar em novo álbum um autor latino. A ideia era continuar com a música espanhola. Turíbio bateu o pé e disse que tinha uma coisa muito melhor: os 12 estudos de Villa-Lobos. “Argumentaram que eu era muito jovem para fazer exigência, que ele estava fora de catálogo. Mas acabaram aceitando. E vendeu feito batatinha”, relembra. Agora com poder de fogo, gravou também Villa-Lobos com orquestra. “Fizeram um contrato de exclusividade comigo. Fora 18 discos em 18 anos”, diz.

Para Turíbio, a obra em violão de Villa-Lobos tem um grau de dificuldade mediana. “Não posso dizer que é fácil, mas também não é dificílima. É uma expressão muito contundente.” Turíbio não vê precedentes no Brasil para a extensão do que Villa-Lobos fez. “Entre 1930 e 1945, ele assumiu um programa de educação musical que nunca havia sido feito no país. Enchia estádios do Fluminense, do Vasco, formou uma quantidade enorme de professores de música, além de uma geração de músicos. Tom Jobim, Egberto Gismont, Edu Lobo e por aí vai.” Já na lembrança daquele garoto de 15 anos, o que Turíbio guarda do maestro foi uma personalidade fantástica. “Ele era bonito, parecia com o Artur da Távola, com o entusiasmo do Darcy Ribeiro.”

Vida de concertista

Nascido em 1943 em São Luís, Maranhão, e radicado desde a primeira infância no Rio de Janeiro, Turíbio Santos tem pelo menos um disco para cada ano de vida. Professor – criou o curso de violão da UFRJ e da Uni-Rio –  e gestor – dirigiu a Sala Cecília Meirelles e o Museu Villa-Lobos –, em meio à sua franca produção ainda encontrou tempo para escrever alguns livros. O mais novo, que ele traz a Belo Horizonte, é sua autobiografia, Caminhos, encruzilhadas, mistérios (editora ArtViva).

“Já tinha uma biografia feita pela revista Chronos, da Uni-Rio, e outra pela Zahar, Mentiras ou não, mas faltavam algumas informações, já que produzi muita coisa.” O texto de próprio punho, escrito em ordem cronológica – “escrevo razoavelmente bem, sem falsa modéstia” – e bastante ilustrado, busca ligar todos os fatos que marcaram a trajetória de Turíbio.

“Viver fora do país (foram 10 anos em Paris e outros 10 divididos entre o Rio e a capital francesa) provocou um movimento de solidão em mim. E o violão clássico é um instrumento muito solitário. O que a gente faz é muito difícil, pois tudo é microscópico, tem muitas minúcias. Além do mais, é um instrumento com um repertório relativamente pequeno.”


Programação
» Quinta
Recital de violão em homenagem a Heitor Villa-Lobos com Turíbio Santos e convidados (Fernando Araújo, Celso Faria e Gilvan de Oliveira nos violões e Mauro Rodrigues na flauta)

» Sexta
Recital de piano em homenagem a Frédéric Chopin, com Giulio Draghi e Luiz Gustavo Carvalho

» Sábado
Recital de cordas e canto em homenagem a Richard Strauss com Baptiste Rodrigues (violino), Eliseu Barros (viola), Svetlana Tovstukha (cello), Luiz Gustavo Carvalho (piano) e Eliane Coelho (soprano)


VIVA OS MESTRES
De quinta a sábado, às 20h30, no Teatro Bradesco, Rua da Bahia, 2.244, Lourdes. Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia).

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA