Som de raiz do violeiro Chico Lobo se junta ao jazz do maestro Gilson Peranzzetta

Músicos vão homenagear a cultura popular em novo projeto, que mescla tradição e contemporaneidade

por Ailton Magioli 03/08/2014 07:00

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Cineviola Filmes/Divulgacao  e João Mauro Senise/Divulgação
Violeiro e maestro vão gravar um CD integralmente dedicado à folia de reis (foto: Cineviola Filmes/Divulgacao e João Mauro Senise/Divulgação )

O encontro do violeiro mineiro Chico Lobo com o pianista, maestro e acordeonista carioca Gilson Peranzzetta vai resultar na gravação de um CD integralmente dedicado à folia de reis. “Trata-se de um projeto de disco de Natal. Vamos gravar oito folias tradicionais e duas de minha autoria, que abordam o anúncio do nascimento de Cristo”, anuncia Chico, enquanto Gilson vislumbra o que classifica de “um novo plano que vai se abrir na música”.


A ideia de reunir instrumentistas dedicados a gêneros diferenciados – Chico Lobo vem da música de raiz, enquanto Gilson Peranzzetta é jazzista por excelência – partiu do produtor Sergio Lima Neto, responsável pelo CD 3 Brasis, que reuniu Chico (viola), Márcio Mallard (violoncelo) e Paulo Sérgio Santos (sopros).

A amizade de Peranzzetta e Lobo nasceu no estúdio que Lima Neto mantém em Araras, na Região Serrana fluminense. De acordo com Chico, a ideia é promover a junção da viola com a musicalidade jazzística do maestro, seja no piano ou no acordeom. “Vamos mergulhar nas raízes da folia mineira como uma linguagem universal”, explica o violeiro, que considera o novo trabalho uma espécie de aprofundamento de 3 Brasis.

Diálogo “Mostrei ao Peranzzetta folias de Natal que promovem o diálogo da viola de tradição com a a nossa contemporaneidade, e ele se entusiasmou”, revela Chico Lobo, que está preparando repertório para apresentar ao maestro. “Quero que parta dele a concepção dos arranjos”, salienta.

Chico está recolhendo folias junto com o parceiro Carlinhos Ferreira, que é percussionista. Entre os autores escolhidos por ele está mestre Nelson Jacó, já falecido, que morava em Jequitibá, perto de Sete Lagoas, na Região Central do estado. “Mestre Nelson me influenciou muito”, conta Chico, que chegou a levá-lo para fazer show em Portugal. Outro mestre veio de Lapa da Trindade, na mesma região: Zé Limão, também especializado em folias.

Da própria autoria, Chico selecionou Salve o Menino Deus (parceria com João Evangelista) e Brilho de estrela, que ele compôs pensando no novo trabalho. “Há muito, sinto falta das tradições que mergulham no Natal brasileiro”, conta o violeiro, lamentando a europeização da mais importante festa cristã brasileira. “O Natal é muito rico na nossa cultura popular”, ressalta, lembrando que, além de Minas Gerais, o interior de São Paulo e o Centro-Oeste cultivam a folia de reis, batizada como reisado no Nordeste.

Se em Minas Gerais o gênero é cultuado por meio da viola caipira, no Nordeste a folia é mais percussiva, comandada por pifes e caixas. “Ela resiste em todo o país”, comemora Chico Lobo, lembrando que Portugal assiste a algo parecido.

Rio Nascido e criado no subúrbio carioca de Brás de Pina, Peranzzetta teve os primeiros contatos com o gênero naquela região do Rio de Janeiro. “É muito linda, pena que não se faz mais folia no subúrbio”, lamenta o maestro.

Segundo Gilson, a melodia simples da folia pode gerar harmonia totalmente moderna. “Abre-se um campo muito especial para a música quando a ouvimos sem harmonia, só com voz”, explica. Ele entrou em contato com o gênero ouvindo manifestações vindas de Pernambuco e da região de Tiradentes, em Minas Gerais.

EM BH

Depois de participar de três edições portuguesas do Encontro de violas de arame, Chico Lobo anuncia que o evento será realizado em BH no ano que vem. “Vamos promover palestras, oficinas e concertos”, informa. A viola brasileira é descendente do instrumento português, mais precisamente das violas braguesa (da região do Minho), da terra (Ilha dos Açores), campaniça (Alentejo) e de arame (Ilha da Madeira).


Festa do interior

As folias de reis começam em 24 de dezembro e vão até 6 de janeiro. Algumas podem se estender até 20 de janeiro, Dia de São Sebastião. Instrumentistas e cantores comemoram o Natal visitando as casas e tocando músicas alegres em homenagem aos santos reis e a Jesus Cristo. Originária da Espanha, a manifestação é muito comum nas pequenas cidades do país.

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