Madrigal Renascentista, fundado em 1956 e ainda em atividade, tem sua história estudada na UFMG

Grupo foi dirigido por Karabtchevsky e teve Maria Lúcia Godoy entre as solistas

por Ailton Magioli 11/07/2014 06:00

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Acervo Madrigal Renascentista/Divulgação
O Madrigal Renascentista em Ouro Preto, em 1964 (foto: Acervo Madrigal Renascentista/Divulgação)
Apesar de ainda se mostrar um gênero de fôlego na capital, no estado e no país, a música coral e, mais especificamente, o movimento de coros, vem perdendo em qualidade a cada dia. A constatação é do maestro Arnon Oliveira, de 47 anos, 21 dos quais dedicados ao Coro Madrigale.

Preparando-se para defender no ano que vem, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG, a tese 'O coro do Brasil – O Madrigal Renascentista de 1956 a 1971', o maestro promete revelar um dos períodos mais férteis do canto coral no país, quando o então jovem maestro Isaac Karabtchevsky estreava carreira ao lado de um dos maiores fenômenos do gênero que, em pouco tempo, conquistaria público e crítica no Brasil e no exterior.

Para Arnon Oliveira, a decadência da música coral está associada a vários fatores. Além de problemas na formação, ele acusa a ausência de disponibilidade de tempo, em um mundo cada dia mais corrido. Ainda em atividade, o Madrigal Renascentista, segundo o maestro, tornou-se referência por apresentar trabalho original, de qualidade, em plena década de 1950.

“Na época não se cantava a Renascença no Brasil”, diz a respeito do período entre fins do século 14 e início do século 17, marcado por transformações em muitas áreas da arte e do conhecimento. “Até então, o máximo que se ensinava nos conservatórios era do período clássico ao romantismo: de Mozart a Chopin”, acrescenta o maestro, admitindo que o surgimento de autores de música estritamente coral, como Giovanni Pierluigi Palestrina, Josquin des Prez, Orazio Vecchi e Orlando di Lasso, logo chamou a atenção dos coros no Brasil.

“Era uma música também feita a capela, como não se fazia por aqui, onde os coros normalmente tinham o acompanhamento de orquestras ou piano”, ressalta Arnon Oliveira, ao chamar a atenção para o impacto provocado pelo surgimento de coros como o Madrigal Renascentista, quando passaram a ser o instrumento do próprio concerto.

Foi na expectativa de criação da célula do Movimento Sionista em Belo Horizonte que, em janeiro de 1956, se encontraram na cidade os jovens músicos Isaac Karabtchevsky, Carlos Alberto Pinto Fonseca e Carlos Eduardo Prates, que já haviam estudado na Escola Livre de Música de São Paulo, com o musicólogo alemão Hans-Joachim Koellreutter .

Depois de decidir estudar conjuntamente peças renascentistas, que exigiam mais de três vozes, Carlos Alberto acabou convocando amigos para cantar com eles, aproveitando o período de férias escolares para continuar ensaiando. Ao ver os rapazes empolgados, o pai de Carlos Alberto, Alberto Pinto Fonseca, que era engenheiro, decidiu convidá-los para cantar na cerimônia do jubileu da Sociedade Mineira dos Engenheiros (SME).

Na oportunidade, eles convidaram a também jovem cantora Maria Lúcia Godoy para ser a solista do grupo, que, por só cantar peças da Renascença, acabaria batizado de Madrigal Renascentista. A estreia oficial do coro de 19 pessoas, sob a regência de Isaac Karabtchevsky, ocorre na SME, atraindo a atenção da imprensa local para o trabalho dos jovens cantores, que, de imediato se apresentam em Juiz de Fora e Ouro Preto, depois de Belo Horizonte.

Já no ano seguinte o grupo vai se apresentar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, travando contato com o então presidente da República, o mineiro Juscelino Kubitscheck, seguindo-se de apresentações em São Paulo que renderam excelentes críticas ao Madrigal Renascentista. Já em 1958, a Europa é o caminho do coro, que faz concertos em Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Suíça e Itália, onde cantou inclusive para o papa Pio XII.

“Chamo isso de ousadia”, diz o maestro Arnon Oliveira”. No vai e volta em que se tornou a vida dos jovens, já em 1959 eles viajam para a Argentina e o Chile, estendendo a turnê, no ano seguinte, ao Uruguai, quando também foi o principal coro no concerto de inauguração de Brasília. “Quando se conta a história do coro, eu mesmo fico assustado com tudo que ele fez na época”, confessa Arnon. Depois de centrar a primeira etapa da pesquisa no trabalho de Isaac Karabtchevsky, ele pretende dar continuidade às novas etapas, sob orientação do professor José Newton Mendonça.

Solistas e regentes


Além de Maria Lúcia Godoy, o coro teve outros grandes solistas, como Hilda Fonseca, Edival Trindade e Amin Féres, entre outros. Já entre os regentes que passaram pelo grupo, temporariamente, estão Afrânio Lacerda, Carlos Eduardo Prates, Carlos Alberto Pinto Fonseca, Sérgio Magnani, o italiano Marco Dusi, naturalizado chileno, Samuel Kerr e Walter Lourenção. Trabalhando então em Salvador, Afrânio Lacerda aceitou convite para suceder a Isaac Karabtchevsky no Madrigal Renascentista, onde foi posteriormente substituído pelo atual regente, Marco Antonio Drummond.

Além de direcionar o repertório do grupo mais para a música contemporânea, ele também criou um concurso de música brasileira, por meio do qual o coro ajudou a revelar nomes como Lindemberg Cardoso e Mário Cicarelli. “O Madrigal lançou um estilo de fazer música com finesse, que não era comum no canto coral”, avalia o maestro Afrânio Lacerda, que também chegou a cantar no coro. À frente do grupo desde 1986, onde também cantou, Marco Antonio Drummond diz que o Madrigal Renascentista já prepara a festa de 60 anos, quando pretende fazer uma grande turnê internacional. Com 26 integrantes atualmente, o grupo contabiliza nove discos gravados, oito dos quais lançados, o mais recente deles 'Sacra música brasileira', de 2012.

Transformado em fundação, com sede própria no Edifício Malletta, o Madrigal (www.madrigal.org.br) acumula rico acervo de partituras, documentos e discos, além de troféus e outras relíquias da longa trajetória. A sobrevivência, lembra o maestro, advém das apresentações, além de parcerias, como a que mantém com o Sesiminas. Às vésperas de completar 90 anos, em 2 de setembro, Maria Lucia Godoy se lembra de que ao se integrar ao coro ela já era uma solista pronta, que já havia ganho concurso da OSB, do Rio. “Foi muito bonito, intenso e interessante”, lembra-se do início do coro, do qual diz sentir muito orgulho.

MADRIGAL RENASCENTISTA

Linha do tempo

1956 – Criação do coro em Belo Horizonte
1957 – Concertos no Rio e em São Paulo, além da gravação de disco nunca lançado
1958 – Primeira excursão à Europa, com apresentações em oito países
1959 – Em três anos o coro contabiliza 350 apresentações, incluindo na Argentina e no Chile. Grava o segundo disco, o primeiro a ser lançado
1960 – Concerto na inauguração de Brasília
1961 – Apresentação no Teatro Colon, em Buenos Aires
1962 – O regente Isaac Karabtchevsky assume as orquestras das rádios Roquette Pinto e MEC, no Rio de Janeiro, e começa a se afastar do grupo
1965 – Turnê por 40 cidades americanas, inclusive Nova York e Washington, com excelentes críticas. A bordo de um ônibus no qual estava escrito Coro do Brasil, o Madrigal fica conhecido a partir de então como tal
1967 – Isaac Karabtchevsky assume a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB)
1970 – Nova excursão à Europa. Com a saída do maestro Karabtchevsky, passa a ensaiar sem regente
1972 – O maestro Afrânio Coutinho assume o grupo, direcionando o repertório para a música contemporânea
1986 – O atual regente Marco Antonio Drummond assume o Madrigal Renascentista

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