Fabio Mechetti, da Filarmônica de Minas Gerais, será maestro de orquestra na Malásia

Profissionais da regência analisam o novo cenário da música de concerto no mundo

por Ailton Magioli 06/07/2014 00:13

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André Fossati/Divulgação
"A música tem a função de transitar entre várias culturas. É gratificante dividir este repertório com a Ásia e a Europa" (foto: André Fossati/Divulgação)
O embarque do maestro Fabio Mechetti para a Malásia, na semana que vem, onde vai reger a Malaysian Philharmonic Orchestra, paralelamente à Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (OFMG), da qual é titular, traz à tona uma constatação: a expansão do mercado da música sinfônica, com destaque para os países em desenvolvimento. Na Europa e nos Estados Unidos, há uma contração no setor, com o fim das atividades de vários teatros e até de orquestras.

É verdade que a presença estrangeira em grupos do gênero sempre foi uma realidade no país. “São incontáveis os músicos europeus que se refugiaram no Brasil no pós-guerra. Deles, se originou uma geração valiosa para a música e, mais especificamente, para a atividade sinfônica no país. O Brasil é um país aberto à imigração e à inclusão de profissionais de qualidade”, constata o maestro Isaac Karabtchevsky, que estreou no Madrigal Renascentista, na BH da década de 1950.

Como o regente faz questão de lembrar, os músicos circulam desde o Renascimento. “Quando compositores de porte, impregnando escolas; quando instrumentistas ou cantores, subsidiando a formação de novas técnicas e estilos interpretativos. Não há como, nem por que, traçar barreiras nacionais nesse perpétuo movimento de troca”, avalia Karabtchevsky, que, depois de passar por orquestras do mundo inteiro, atualmente dirige e rege a Petrobras Sinfônica, do Rio, e a Sinfônica de Heliópolis, de São Paulo.

Como as temporadas asiáticas seguem o calendário europeu, o maestro Fabio Mechetti admite que será fácil administrar a carreira na Malásia, onde vai reger a Malaysian Philharmonic por 12 semanas no ano, entre 2014 e 2015, mantendo seu vínculo com a Filarmônica de Minas Gerais, em Belo Horizonte. “A oportunidade mostra, na verdade, que a música tem a função de transitar entre várias culturas. É gratificante dividir este repertório com a Ásia e a Europa”, diz Mechetti.

O diretor artístico e maestro da OFMG acaba de concluir 15 anos de trabalho à frente da Orquestra Sinfônica de Jacksonville, dos Estados Unidos, onde hoje é regente emérito. “Esta é a grande vantagem de ser músico: aplicar ideias em diferentes culturas e conseguir ser entendido”, comemora Mechetti, que saiu pela primeira vez do Brasil há 33 anos, quando foi cursar o mestrado em Nova York, nos Estados Unidos.

Posteriormente, o maestro regeu orquestras em Escandinávia, Japão e alguns países da América Latina. “Com a facilidade promovida pelos meios de transporte e, mais recentemente, com a internet, esse intercâmbio só aumentou”, conclui o maestro. Ele lembra que já no século 19 não só os maestros, mas os solistas também viajavam pelo mundo. “O próprio Wagner (compositor alemão Richard Wagner) fez isso no século 19, além de Toscanini (Arturo Toscanini, regente italiano) e outros, já no século 20.”

Avesso a tal prática, o maestro João Carlos Martins diz que a orquestra é como a família para o regente. “Por isso a Orquestra do Estado de São Paulo (Osesp) deu certo com John Neschling, que a tratava como um filho”, elogia João Carlos, lembrando os 12 anos de trabalho do regente à frente da principal orquestra paulista. Adepto do que classifica de “velho estilo”, João Carlos, criador há cerca de uma década da Bachiana Filarmônica, garante que reger uma orquestra no exterior e outra no Brasil só funciona “em termos”.

 “Claro que convidar maestros para reger a sua orquestra acontece. Agora, ser maestro de duas orquestras ao mesmo tempo, francamente. A identidade desaparece do grupo, porque a relação desaparece”, critica João Carlos Martins. Primeira orquestra da iniciativa privada que, na opinião do maestro, acabou vingando, a Bachiana Filarmônica é, de acordo com ele, “a terceira via” de São Paulo, depois da Osesp e da Orquestra do Teatro Municipal.

“Em 12 meses, tivemos 11 estreias de jovens compositores brasileiros”, comemora João Carlos, salientando que o grupo que ele comanda tem feito uma média de 100 concertos por ano, com temporadas em três salas, fora os 40 concertos no interior de São Paulo e de cinco a 10 concertos na temporada nacional. “Só ao Lincoln Center e Carnegie Hall, dos Estados Unidos, já fomos cinco, seis vezes”, contabiliza o maestro, criticando a situação de algumas orquestras brasileiras. A Osesp, por exemplo, só piorou, em sua opinião, depois da saída de John Neschling. “Hoje, a maestrina americana Marin Alsop acaba um concerto aqui e sai correndo para reger lá nos EUA”, critica.



Excelência artística Diretor musical da Osesp, Arthur Nestrovski lembra que a orquestra paulistana não contrata regentes ou solistas de um ou outro país apenas por serem de alguma nacionalidade específica. “Invariavelmente, todos os artistas são convidados pela sua excelência artística”, diz ele, salientando que “a Osesp é, hoje, uma orquestra plenamente inserida no mercado internacional da música clássica, conquistando reconhecimento a ponto de nos permitir o privilégio de receber, regularmente, diversos regentes e solistas de grande destaque – tanto brasileiros, como estrangeiros”.

Os benefícios de tal prática, segundo Nestrovski, são óbvios: “Trabalhamos com os melhores músicos possíveis, para temporadas com plateia lotada, três vezes por semana, cerca de 40 semanas por ano”. Já na terceira temporada regular como regente-titular na Osesp, além do trabalho que desenvolve diretamente com a orquestra – são até 15 semanas por temporada em São Paulo –, Marin Alsop, de acordo com o diretor musical da orquestra, tem sido muito importante no processo de expansão internacional da Osesp.

“Por exemplo: nossas gravações para o Selo Naxos, lançadas no Brasil e em todo o mundo; apresentações no Concertgbouw, em Amsterdã, e no Festival BBC Proms, Londres, em 2012; uma muito bem-sucedida turnê europeia em 2013, que nos levou a algumas das mais importantes salas de concerto do mundo (Salle Pleyel, em Paris; Royal Festival Hall, em Londres; Philharmonie, em Berlim; Grosses Festspielhaus, em Salzburg, entre outros)”, lista Arthur Nestrovski.

 “Além disso, ela também nos ajuda a atrair grandes solistas e colabora ativamente na elaboração e no desenvolvimento de novas empreitadas digitais”, afirma. Recentemente, conta o diretor musical da orquestra, Marin foi descrita pela CNN como uma das sete mulheres de maior destaque no mundo em 2013. “E ela divide conosco não só uma incontestável qualidade musical, como também muito de sua experiência cultural e institucional”, acrescenta Nestrovski.


Três perguntas para...


Isaac Karabtchevsky
maestro

A experiência no exterior levou o senhor a alguma avaliação sobre o mercado para regentes de orquestras no Brasil?
As possibilidades, no que tange ao exercício da profissão e desenvolvimento profissional, aumentaram enormemente. Esta realidade está intrinsecamente ligada ao maior número de orquestras existentes, a um impulso que parte espontaneamente de alguns governos ao transformá-las numa espécie de cartão de visitas. Quando bem-sucedidas, as orquestras passam a representar um fator de propaganda inestimável para a política cultural de um governo.

Alguma vez o senhor regeu, na mesma temporada, uma orquestra no Brasil e outra no exterior?
Sempre, jamais deixei o Brasil. De 1988 a 1994, como diretor musical da Tonkuenstlerorchester, em Viena; de 1994 a 2001, como diretor musical e artístico do Teatro La Fenice, em Veneza; de 2004 a 2010, como diretor musical da Orchestre National des Pays de la Loire, na França. Como as temporadas não eram coincidentes, em nenhuma dessas ocasiões me afastei da titularidade das orquestras ou teatros brasileiros, seja na Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), no Teatro Municipal do Rio e São Paulo, da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) e, mais recentemente, da Orquestra Petrobras Sinfônica (OPS) e da Orquestra Sinfônica de Heliópolis (OSH).

Qual é a principal contribuição de um regente estrangeiro para uma orquestra nativa?
Quando se trata de música, não há espaço para nacionalismo ou qualquer tipo de preconceito. Os maestros devem ser escolhidos por capacidade, carisma e dedicação, não importa de onde venham. Se fosse diferente, eu mesmo jamais teria sido escolhido como diretor artístico e maestro-titular em países da mais alta tradição como Áustria, Itália e França. Um maestro tende a se constituir em um fator de unidade em relação aos conjuntos que dirige, um polo de eficiência e liderança.

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