Beatriz Azevedo lança disco solo com influências modernistas, da MPB e da bossa nova

Trabalho foi gravado ao vivo durante uma apresentação em Nova York

por Kiko Ferreira 17/06/2014 08:41

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Júlia Moraes/Folha Imagem
Além de cantar, compor e fazer arranjos, Beatriz Azevedo é poeta, atriz, diretora de teatro e performer (foto: Júlia Moraes/Folha Imagem)
Quando está tudo muito parecido e a cena soa redundante e reticente, surge um trabalho para ficar ouvindo, ouvindo, pensando... e ouvindo de novo. É o caso de 'antroPOPhagia', quarto CD da poeta, atriz, cantora, compositora, diretora e performer Beatriz Azevedo. Gravado ao vivo em Nova York, no Lincoln Center, em dezembro de 2012, durante o projeto Celebrate Brazil, promovido pelo Itamaraty, o show tinha entre seus objetivos apresentar um Brasil longe dos clichês, além das bandejas de borboletas e músicas para sair do chão.


A base desta aventura pós-tropicalista foi a obra do poeta Oswald de Andrade, autor de quem Beatriz gosta desde a adolescência, e com a qual teve mais contato quando trabalhou com Zé Celso Martinez Corrêa e a estudou com rigor acadêmico. Antropofagia é o tema de mestrado e doutorado, na USP e na Unicamp, e assunto de dois livros que ela deve lançar até o fim do ano. Além disso, desde o álbum de estreia, Bumbum do poeta, ela vem musicando poemas do mais querido dos modernistas. Desta vez, Beatriz relembra três: 'Erro de português', 'Cântico dos cânticos' e 'Relicário'. Com uma exuberância digna da 'Tropicália' de Gil e Caetano, ela abre o disco tornando música os célebres versos de Oswald: “Quando o português chegou/ debaixo duma bruta chuva/ vestiu o índio./ que pena!/ fosse uma manhã de sol/ o índio tinha despido/ o português”.

Faixa a faixa Manifesto manifestado, segue o 'Coco de Pagu', a partir de poema de Raul Bopp, num mix de Pagu e Carmem Miranda atualizadas. Evoé! Suingues fora, Beatriz ataca com uma leitura com ares argentinos de 'Insensatez' (Tom/Vinícius), com uma boa história: “Minha versão de Insensatez estreou no Brasil, e o desejo do arranjo nasceu inicialmente de uma leitura da letra, ‘sem’ a música”, esclarece Beatriz. “Percebi que o poema era muito intenso, mais dramático, denso, do que se costuma esperar da bossa nova. A melodia do Tom também é maravilhosa, e alguns sabem que ele cita um prelúdio de Chopin… Minha mãe é pianista e desde pequena eu a ouvia tocar Debussy, Chopin, Beethoven… Sempre que eu cantava esta música, um ‘ruído’ de emoção ficava me cutucando por dentro… existia algo entre a letra e a música que me deixava alerta, inquieta”.

E Beatriz continua: “Um dia, quando estudava música em Nova York, estava andando de bicicleta e passei em frente a uma casa em que havia uma plaquinha: ‘Aqui viveu Astor Piazzolla’. Sou louca por Piazzolla! Eu continuei a pedalar, e lembrei que o Tom também havia morado em NY… Veio na minha mente: será que eles moraram aqui na mesma época? Será que eles tocavam juntos? Será que chegaram a compor juntos?! Cheguei em casa elétrica, guardei a bicicleta, e peguei imediatamente o violão. Naquele momento nasceu o meu arranjo de Insensatez. O ‘ruído’ que eu ouvia naquela música era a densidade do tango! A letra me inspirava muito mais suas possibilidades expressivas na batida de tango, do que na suavidade da levada da bossa nova. E se Jobim pode citar Chopin, por que eu não poderia citar Astor Piazzolla? O meu arranjo é uma emocionada homenagem a dois gigantes da música nascidos no continente latino-americano, e uma maneira pessoal de criar uma ‘parceria’ entre eles. Porque a bossa nova, afinal, é phoda”, conclui, citando Caetano de viés.

O disco segue com a melodia quase jobiniana que Beatriz fez para Cântico dos cânticos, que encerra, sedutora: “Eu quero nunca te deixar/ quero ficar/ preso ao teu amanhecer”. Surge então a primeira das duas parcerias com Vinícius Cantuária (a outra é Alegria), hoje mais conhecido no mercado americano do que no brasileiro e que participa do show/disco. Aí, vem mais história: “Vinicius Cantuária se tornou meu amigo e parceiro em Nova York no período em que morávamos lá. Antes, no Brasil, nunca tivemos qualquer contato. Ele ouviu meu CD, curtiu muito, e passou a me pedir para botar letras em suas músicas. Foi uma alegria! Eu ia aos shows e o ouvia tocando muito… e gravando com Bill Frisell, Brad Medlhau, os feras todos do jazz… Fizemos várias músicas juntos, e ele começou a gravar nossas parcerias nos discos que lançou nos Estados Unidos, no Japão, na Europa. Mas ele não lançava nada no Brasil fazia um tempo… Quando voltei a morar no Brasil, decidi gravar minha versão de uma das nossas parcerias (Alegria) no disco homônimo, que a Biscoito Fino lançou aqui e na França. E trouxe os discos gringos do Vinicius na bagagem, e comecei a ‘aplicar’ as pessoas por aqui...”

Tradição Com melodia de ares buarquianos, Toda sorte é uma das melhores composições de Beatriz. A parceria com Angelo Ursini é um tema de amor que honra a melhor tradição da canção brasileira, com sofisticação formal e poética travestida de simplicidade. O CD chega à metade com uma pegada afro-brasileira do clássico What is this thing called love, de Cole Porter, dissecada por Beatriz Azevedo: “Criei um arranjo a partir da levada do jongo, ritmo afro-brasileiro, procurando ousar na transcriação de um standard da música americana por uma artista brasileira, sem perder a poesia, que é fabulosa, e eu sempre amei”, confidencia.

“Minha releitura de um standard do jazz passa pela perspectiva de ousar levadas totalmente inéditas e até aqui impensáveis”, prossegue a artista. “Propor o desafio de dialogar um ritmo tradicional afro-brasileiro, pé no chão, com a canção de Cole Porter. Não é porque o ritmo é tradicional e a canção é standard que a artista precisa ser tradicional. No meu caso, é o contrário! Eu quero sair da formalidade dos estilos, despir as tradições, propondo que se veja/escute/sinta com olhos livres.” O paralelo com o Speak low que ela gravou no álbum Alegria, com toque de maracatu, é inevitável: “Em ambos os arranjos, o que eu procuro é a atmosfera, o clima, a temperatura cinematográfica da canção. Assim como o meu Cole Porter ‘antroPOPhagiado’ estreou num tradicional palco de Nova York, a casa do autor, o meu arranjo para Speak low estreou em Berlim, durante a Copa da Cultura, templo de Kurt Weill.”

Ousadias postas, vem Tudo está, dela e Matheus von Kruger (“Esteja já onde estiver, lá.../ tudo está em seu lugar”), e Gran navegação, parceria com Angelo Ursini (“Uma viagem em nau descoberta/ no oceano do teu olhar”), duas mensagens dignas de lançar em garrafas ao mar por quem sempre esteve em bom e livre trânsito. A influência de Chico Buarque reaparece em Bis, exercício sobre o ofício da atriz que dialoga com o clássico Beatriz. E o roteiro vai chegando ao fim com a celebração à Alegria, faixa-título do álbum anterior , passa pela densa Dias lentos, de estudado flerte com uma leve melancolia em slow motion, e encerra carnavalesco, levantando a plateia com Egoísta e Relicário, outro lado do manifesto oswaldiano com o slogan hedonista: “É comê, bebê, pitá e caí”. Quem não dançou, dançou.

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