Chico Buarque completa 70 anos na próxima quinta-feira

Um dos maiores criadores da história da música popular brasileira, sua obra reúne ainda peças de teatro, musicais e romances

por Ana Clara Brant 15/06/2014 06:00

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Quinho
(foto: Quinho)
O escritor e cartunista Millôr Fernandes o chamou de “a única unanimidade nacional”. O cronista Rubem Braga chegou a afirmar que “ele era a coisa mais importante em matéria de música popular”. Tom Jobim encheu a boca para dizer que o amigo era um “herói nacional, salvação do Brasil, mestre da língua. Tanta coisa que nem cabe aqui”. Já a Estação Primeira de Mangueira, sua escola do coração e que o homenageou com um belo desfile na Marquês de Sapucaí, cantou em verso e prosa no seu samba antológico: “É o Chico das artes… o gênio. Poeta Buarque… Boêmio. A vida no palco, teatro e cinema. Malandro, sambista, carioca da gema”.

 


Quando a pianista Maria Amélia Cesário Alvim, a Memélia, deu à luz, em 19 de junho de 1944, na maternidade São Sebastião, no Largo do Machado, no Rio de Janeiro, Francisco Buarque de Holanda, o quarto dos seus sete filhos com o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, não imaginaria que aquele bebê de olhos verdes iria se tornar essa unanimidade propagada por Millôr, o poeta-gênio da verde-rosa ou o herói de Tom.

Chico Buarque, que completa 70 anos na quinta-feira e, segundo sua assessoria, vai passar o aniversário em Paris, escrevendo seu próximo livro, construiu uma trajetória que passa pela música, pelo teatro, pelo cinema, pela literatura e pela história do Brasil.

O compositor e produtor musical Hermínio Bello de Carvalho, que chegou a ser parceiro de Chico na música 'Chão de esmeraldas', conta que nutre grande respeito pelo artista carioca. Ele acrescenta que tem uma admiração por muitos poetas-letristas, mas a que sente por Chico o coloca num lugar privilegiadíssimo. “Quando ouço esse verso (“Teus seios ainda estão em minhas mãos”), me arrepio. Queria tê-lo feito. Mas já me basta o consolo de tê-lo como melodista de uns versos que escrevi, o 'Chão de esmeraldas'. Parceiro! Isso me basta. Que todos os orixás o protejam, meu Chico tão amado. Já passei dos 70 há quase 10 anos. Tirei de letra”, frisa.

Autor de 'Chico Buarque – Tantas palavras', extensa reportagem biográfica sobre o cantor e compositor, o jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck revela que o processo de elaboração da obra foi muito interessante e que ela chegou a ter várias edições (a primeira foi em 1989). Werneck entrevistou Chico por diversas ocasiões, além de várias pessoas ligadas a ele. “Foi uma experiência ótima, porque ele enriqueceu meu texto, nunca se opôs a nada e sempre acrescentava algum detalhe. Foi uma bela parceria”, recorda.

O jornalista mineiro ressalta os novos caminhos assumidos pelo artista. Na adolescência, o compositor de 'Construção' queria ser escritor, o que, na maturidade, acabou se realizando. Humberto Werneck observa como Chico Buarque concilia com propriedade as duas atividades. “Quando ele resolve escrever, só escreve. E quando resolve fazer música, ele só faz música. Brinco que o Chico é um monogâmico em série. E mesmo sendo um estupendo letrista, é um cara que não se acha. Ele vai humilde e obstinadamente dando o seu recado”, defende.

Pensar o Brasil

O engajamento político e social de Chico Buarque sempre foi uma de suas marcas e se fez presente em sua obra, sobretudo em suas canções. A historiadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Heloísa Starling, autora do livro 'Uma pátria paratodos – Chico Buarque e as Raízes do Brasil', em que analisa o disco 'Paratodos', considera que o artista conseguia contar uma história em suas composições, mesmo sob censura. Heloísa denominou esse tipo de obra de “canções de sabotagem”, e cita como exemplo Angélica, em que homenageia a estilista Zuzu Angel (“Quem é essa mulher/ Que canta sempre esse estribilho?/ Só queria embalar meu filho/ Que mora na escuridão do mar”). “Ele usou uma série de recursos para denunciar a ditadura. Coisas que só ele sabia fazer”, pontua.

Mesmo não sendo tão atuante nos dias de hoje em termos políticos, sua obra não deixa de trazer o tema à tona. Heloísa cita Sinhá, do último disco, 'Chico' (2011), que trata da questão da escravidão e do alijamento social. “Em Sinhá, ele mostra de forma intensa a nossa raiz, essa violência racista que está presente no Brasil contemporâneo. É um soco no estômago. E isso sempre aconteceu. Suas canções são voltadas para discutir os descompassos do Brasil, ou seja, para combater as tiranias, como no caso da ditadura ou de outros problemas tão nossos como a pobreza ('Pivete') e o imigrante ('Iracema voou')”, acrescenta.

No entanto, Heloísa Starling lamenta que, nos últimos tempos, houve um desencontro entre o cidadão Chico Buarque de Holanda e sua obra. “Sua posição na questão das biografias, sua atitude de censurar, sua aproximação com Roberto Carlos e a maneira como ele tratou o historiador e jornalista Paulo Cesar de Araújo foram muito arrogantes. (Chico negou ter dado entrevistas a Paulo Cesar e o jornalista provou com gravações e fotos estar falando a verdade. O compositor pediu desculpas publicamente.) Chico envelheceu mal como cidadão e isso não combina de forma alguma com sua trajetória artística e com sua obra”, salienta.

Mas o momento é de festa, como diria Carlos Drummond de Andrade, que ficou encantado quando ouviu 'A banda' pela primeira vez: “De amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando (…) Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vêm trazendo…”.

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