Cliente cria página para denunciar discriminação em boate em Nova Lima

Empresário Giovanni Gomes denuncia descaso na entrada da Wood's, inclusive em relação a cliente com mobilidade reduzida

09/06/2014 13:37

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Marcos Vieira/EM/D.A Press
Porta da boate Wood's. Filas são cenário comum. (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Truculência, falta de informação, descaso. Certamente estas não são as características procuradas por um cliente na hora de escolher uma boate para curtir a noite de sábado. Mas, de acordo com o empresário Giovanni Gomes, foi dessa maneira que ele foi recebido, no último fim de semana, na Wood's, casa de shows sertaneja localizada em Nova Lima. Acompanhado por uma turma de amigos, Giovanni foi impedido de entrar no estabelecimento mesmo tendo sido um dos primeiros a chegar no local. Além disso, o rapaz ainda presenciou um ato de desrespeito com uma pessoa com mobilidade reduzida, que também não pôde permanecer na casa por falta de estrutura.

 

Giovanni chegou cedo à Wood's, pouco antes das 22h40, horário de abertura da boate descrito no site oficial do estabelecimento. “Chegamos e vimos que existiam três filas. Uma para camarotes, outra para convidados e uma terceira para pessoas comuns. Entramos nessa e esperamos. Percebemos que as outras filas estavam andando e a nossa não, então resolvi perguntar o que estava acontecendo”, explica. O empresário foi informado que até as 23h30, apenas quem tinha convite poderia entrar, o que não está descrito no site da boate. Ele resolveu aguardar, mas nem depois do horário a fila das “pessoas comuns” foi liberada.


Trecho do site do estabelecimento que não cita a necessidade de convites para acesso à casa
(foto: Trecho do site do estabelecimento que não cita a necessidade de convites para acesso à casa)
Frustrado, Giovanni questionou a recepcionista sobre o fato de que várias pessoas que haviam chegado depois estavam sendo passadas na frente da fila. As desculpas vieram aos montes: 'só entra quem tem convite', 'agora só entra mulher', 'só entra casal'. O rapaz afirma que, apesar de ter agido com educação, foi afrontado de maneira truculenta e despreparada por funcionários, que chegaram a ameaçar: se ele continuasse falando demais, não entraria.


Mas o que mais chocou Giovanni foi o tratamento dispensado a um cliente que aguardava na mesma fila. O jovem Paulo Madrid, que utiliza muletas para sua locomoção, permaneceu na fila por horas e, só depois de protestos, conseguiu entrar. “Não adiantou nada. Ele entrou só com um acompanhante, os outros amigos ainda ficaram do lado de fora. Cinco minutos depois ele saiu da boate, afirmando que não podiam disponibilizar nem uma cadeira para que ele ficasse mais confortável. Ele estava totalmente constrangido”, conta.


Ao ser questionado no local sobre a questão de acessibilidade, o gerente teria dito a Giovanni que a casa não era obrigada a fornecer aparatos e locais reservados para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. A desculpa foi ainda mais esfarrapada: para o gerente, a lei só poderia ser aplicada em Belo Horizonte, mas como a boate é em Nova Lima, não precisaria seguir as normas.

PREVISTO NA LEI

A lei que garante direitos a pessoas com deficiência foi regulamentada há dez anos atrás. Por se tratar de uma lei federal, deve ser seguida em todo o território nacional, ainda que não exista uma regulamentação específica do município sobre o assunto.


O Decreto-Lei 5296/2004 dá prioridade de atendimento e estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida. O Artigo 8º da lei afirma que o cidadão dever ter condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, incluindo edificações de uso coletivo. Estão dentro desta categoria locais destinadas às atividades de natureza comercial, hoteleira, cultural, esportiva, financeira, turística, recreativa, social, religiosa, educacional, industrial e de saúde.

Reprodução / Facebook
Post de Paulo Madrid, que teve que se retirar da boate por falta de aparatos em relação à acessibilidade (foto: Reprodução / Facebook)

PÁGINA DO FACEBOOK

Revoltado com o que passou no último sábado, Giovanni criou uma página no Facebook para reunir clientes que já passaram por situações parecidas na boate. Com o nome “Wood's BH: desrespeito e preconceito com seus clientes”, a comunidade criada na manhã desta segunda-feira, 9, já possui mais de 100 curtidas.


“Meu objetivo é mostrar para as pessoas como é o tratamento nesse estabelecimento. Eu não preciso de nem um centavo deles. Se o Paulo quiser entrar com um processo, acho que ele está no direito e ajudo no que for possível. Acredito que o mínimo que a Wood's tem que fazer é preparar os funcionários para receber o público sem discriminação. Se nada mudar, as pessoas devem parar de frequentar a casa”, afirma.

 

RESPOSTA AOS PREJUDICADOS

Após a veiculação desta reportagem, a Wood's entrou em contato com os envolvidos. "Duas pessoas de lá falaram comigo", relatou o jovem. "Eles pediram muitas desculpas e fui convidado a ir lá em qualquer momento que eu quiser, a convite pessoal do diretor de marketing, com todos os meus amigos", ele conta. Decepcionado com o atendimento na noite do último sábado, Paulo se convenceu a retornar ao local após o pedido de desculpas: "Eu me dei por satisfeito, acho que eles se desculparam e pareceram pessoas corretas".

 

As informações repassadas a Madrid pela assessoria da boate apontam para um equívoco dos funcionários que atenderam o jovem. "Parece ter sido um mal entendido, o procedimento da equipe não deveria ter sido este. Eles tinham cadeira de rodas lá dentro", explicou Paulo. O jovem também afirma ter entrado em contato com Giovanni, o criador da página no Facebook, e conta que ele também recebeu o pedido de desculpas da Wood's.


POSIÇÃO DA WOOD'S
Em nota divulgada pela assessoria de imprensa, a boate Wood's BH afirmou que prioriza reservas para entrada na casa. Além disso, informou que o estabelecimento está preparado para receber pessoas com mobilidade reduzida. Leia abaixo a nota na íntegra:


“A Wood's BH esclarece que trabalha prioritariamente com reservas de mesas, lounges e aniversários. Após as reservas ocupadas, a casa libera a entrada dos clientes por ordem de chegada. Especificamente na sexta e sábado, a casa estava com 80% da lotação ocupada.

O estabelecimento informa ainda que está totalmente apto para receber pessoas com mobilidade reduzida, como: rampas de acesso e banheiros adaptados. A Wood’s entrou em contato com o reclamante para esclarecer qualquer mal-entendido".

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