Skank lança 'Velocia', com canções que reafirmam o estilo da banda

Nando Reis assina seis parcerias no disco, que tem participações de BNegão e Lia Paris

por Mariana Peixoto 06/06/2014 08:00

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Weber Pádua/Divulgação
O quarteto mineiro retorna às raízes do reggae e lança mais uma canção que tem o futebol como tema (foto: Weber Pádua/Divulgação)
São Paulo –
As primeiras duas décadas do Skank são bem definidas: os festivos anos 1990, com o reggae e a musicalidade brasileira enfatizados pelos metais; os roqueiros anos 2000, com ecos de um passado muito distante (Beatles, Clube da Esquina) e também nem tanto (BritPop). Com lançamento oficial no dia 13, 'Velocia' é o primeiro álbum de inéditas da terceira década do quarteto – Samuel Rosa, Henrique Portugal, Haroldo Ferretti e Lelo Zaneti – formado em Belo Horizonte em 1991. O trabalho marca um retorno às raízes, com ênfase no reggae e nas melodias assobiáveis, sem contudo deixar de lado a experiência posterior.

“O que a gente queria era fugir da busca obsessiva em fazer algo diferente, porque a qualidade nem sempre está na inovação. O Skank tem uma assinatura, não dá para mudar isso. Tem que honrar o lastro, o patrimônio. Não foi o caso de fazer um disco de forma premeditada, mas simplesmente quando a gente se juntou para tocar, saiu assim”, resume Samuel a respeito dos 10 meses em que o grupo passou concebendo seu nono álbum de estúdio, produzido por Dudu Marote (o mesmo capitão dos álbuns dos “milhões” 'Calango' e 'O samba poconé') e Renato Cipriano, engenheiro de som que acompanha a banda já há alguns discos.

São 11 faixas, pinçadas de pelo menos 20 gravadas no estúdio da banda, Máquina, no São Bento. Até chegar ao resultado, houve duas escalas luxuosas: as cordas foram gravadas em Abbey Road (onde a banda mixou, por exemplo, 'Siderado', disco que fechou os anos 1990) e a mixagem e masterização foram realizadas, respectivamente, nos estúdios Avatar e Sterling Sound, em Nova York. O disco reafirma a parceria Samuel/Nando Reis. Até então principal letrista do Skank, Chico Amaral assina somente uma canção, 'A noite', enquanto o ex-titã escreveu seis músicas e participou, de maneira efetiva, de três delas (Alexia, Périplo e Galápagos).

“Ele faz os filhos e a gente cria, porque as músicas não vão para o show do Nando e sim do Skank. Quando a gente gravou aquele especial para o canal VH1 (em 2010), enfileiramos todas as músicas que fizemos juntos ao longo da carreira. O Nando tinha participação minoritária, fazia duas músicas por disco. Mas, naquele especial, ele ficou muito entusiasmado, disse que no próximo álbum do Skank queria fazer todas as letras. Cogitamos até em fazer um disco só meu e dele, mas abortamos o projeto. Ele estava muito animado, fez quase 10 músicas, ficou uma semana em BH. E letristas que são músicos, como o Nando e o Chico, têm a métrica certinha na cabeça”, continua o vocalista.

'Velocia', no entanto, inaugura outras parcerias. 'Multidão', outra da lavra de Nando Reis e Samuel, tem a participação de BNegão, que escreveu e gravou, em dois dias, o texto que faz toda a diferença na mais contundente música do novo trabalho. Lucas Silveira, da Fresno, é coautor de 'Do mesmo jeito', enquanto a cantora Lia Paris dividiu com Samuel 'Aniversário'. Por fim, Emicida escreveu as letras de 'Rio beautiful' e 'Tudo isso'. “Confesso que, a partir da boa experiência com o Emicida (que havia gravado com ele, anos atrás, Presença), queria tabelar com outra geração”, acrescenta Samuel.

Dezoito anos depois de 'É uma partida de futebol', o Skank retorna ao tema com 'Alexia', fruto de um golaço que a jogadora Alexia Putellas, do Barcelona, fez numa partida contra o Zaragoza, há um ano. O vídeo com o registro se tornou campeão de acessos na internet. “A gente achou razoável voltar a falar de futebol, pois foi vencida a etapa em que o Skank era quase refém dele. Mas 'Alexia' não foi feita para competir com 'É uma partida...', que considero definitiva. A letra do Nando faz citação a uma série de artistas espanhóis, além de colocar Messi ao lado de Hendrix e Elvis. Mas a homenagem não é a ele (como foi parar na imprensa internacional, de uma banda brasileira falando de um jogador argentino) e sim àquela menina linda, que fez um golaço.”

Sem ter mais a obrigação de lançar um novo o disco a cada dois anos, como no passado, o Skank chegou ao título 'Velocia' por causa de sua própria relação com o tempo. “Sou um cara meio obcecado com o tempo. Fico pensando quantos anos vou viver. Mas também olho muito para o passado. Era até meio cismado, será que sou nostálgico, melancólico demais? Até que vi um cara falando que seu passado é seu patrimônio. Pensando nas coisas todas, em quanto tempo o Skank está aí, de como estamos juntos até hoje, como o mundo é agora e que de 1991 até hoje foi tudo muito rápido, também vi que este disco fala sobre tempo e espaço. Cheguei à ideia de velocidade, de como hoje tudo é supersônico.” Palavra estranha a tal velocia. Mas que, no fim das contas, acaba falando por si mesma.

A Copa e as ruas
O Skank abre, no dia 12, a temporada de Fan Fest da Copa do Mundo, no Expominas. Será o único show da banda no evento oficial da Fifa durante o Mundial. No ano passado, durante a Copa das Confederações, a banda cancelou sua participação em evento semelhante devido às manifestações de junho de 2013. “Ali estava tudo muito indefinido, havia muita insegurança, não podíamos celebrar a Copa a poucos metros de onde estavam as manifestações. Acho que hoje não há problema em ser a favor das manifestações e da Copa também”, afirma Samuel, no que é completado por Henrique Portugal. “O Brasil está com um bom time, e o brasileiro está conseguindo separar as coisas.”

CRÍTICA
Em paz com o passado


Fácil, sem ser banal. Leve, mas com alguma contundência. O Skank faz em 'Velocia' as pazes com seu passado mais remoto, porém mostrando que aprendeu muito com a experiência mais recente. A volta ao lado mais festivo já vinha sendo ensaiada no álbum anterior, 'Estandarte', que há seis anos retornou aos metais deixados de lado desde o divisor de águas 'Maquinarama' (2000).

'Velocia' toca em temas caros à banda. O futebol de 'Alexia' é mais realista que o torcedor apaixonado e ufanista de 'É uma partida de futebol'. E ainda que seja a Espanha a dominar a letra, o Brasil não é esquecido, seja na própria musicalidade, seja nas citações a Jorge Ben e Tom Jobim (“Chove chuva, molha o chão/ Nuvem, samba do avião”, dizem os versos).

O reggae se faz muito presente, ainda que este não seja um disco de reggae. 'Multidão' tem vocação para se tornar hino, algo muito mais efetivo do que a longínqua 'In(dig)Nação'. “A multidão está na rua de novo” é muito mais significativa do que a passividade de “A nossa indignação/ É uma mosca sem asas/ Não ultrapassa as janelas de nossas casas”. Com a entrada de BNegão, o discurso se fortalece: “Não adianta manipulação. Entre erros e acertos, sabemos por que lutamos.”

'Velocia' é mais inspirado na estradeira 'Galápagos' ou em 'Tudo isso', que fecha o disco com sotaque jamaicano, aqui, num ska mais lento. Menos inspirado em 'Aniversário', uma tentativa de fazer um rock eletrônico em dobradinha com a cantora Lia Paris, que não empolga; ou em 'Périplo', um pop rock que só cresce no refrão. Ela me deixou, o primeiro single, é correto, mas não acrescenta muito à banda.

Do mesmo jeito é Skank da fase de 'Vou deixar' e 'Três lados', um pop rock assobiável, com refrão forte e um acento Motown, que tem potencial para fazer rodar as camisas, coisa já comum em shows. Banda que coleciona hits baladeiros – 'Resposta', 'Dois rios', 'Ali', 'Sutilmente' – surge em 'Velocia' com somente uma, 'Esquecimento', encorpada graças a um caprichado arranjo de cordas.

Sendo o mesmo, mas sabendo fazer diferente, o Skank se mostra relevante em 'Velocia'. Ainda que os tempos sejam outros.

* A repórter viajou a convite da Sony Music

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