Pitty lança 'Setevidas', quarto álbum de estúdio da carreira

Disco tem sonoridade garageira e foi mixado nos Estados Unidos por Tim Palmer

por Mariana Peixoto 26/05/2014 08:29

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Daryan Dornelles/Divulgação
"Com a idade a gente vai descobrindo outras coisas. No meu canto, por exemplo, vi que para ser pesado não preciso gritar" Pitty, cantora (foto: Daryan Dornelles/Divulgação)
“Chega dessa pele, é hora de trocar” canta Pitty em 'Serpente', o segredo mais bem guardado de 'Setevidas', quarto álbum de estúdio da baiana. Com lançamento marcado para amanhã (formato virtual) e 3 de junho (CD e vinil), o disco reúne 10 canções, todas inéditas. Foram cinco anos de hiato entre este e o trabalho anterior, 'Chiaroscuro' (2009). Uma enormidade de tempo se for levada em consideração a constante necessidade de renovação da música pop. Mas para Pitty foi o tempo necessário. Período em que se dedicou ao projeto Agridoce, duo com o guitarrista Martin Mendonça (um dos integrantes de sua banda) que explorou o folk psicodélico. Período também em que, pela primeira vez em 11 anos, pôde se dar as devidas férias, deixando de lado a agenda de gravações e shows.


Sem fazer shows desde junho de 2013 (e há quase três anos sem se apresentar com a própria banda), ela voltou aos palcos somente agora. Há duas semanas, estreou em Americana, interior de São Paulo, a turnê de 'Setevidas'. Sem se fazer de rogada, tocou mais da metade do repertório inédito, além dos antigos hits em nova roupagem. “Mesmo o que é velho está novo”, diz a respeito do shows, cuja agenda só vai se intensificar a partir de agosto. A chegada do novo disco vem sendo ensaiada desde setembro, quando Pitty decidiu que era hora de arregaçar as mangas, atendendo o que chama de “demanda interna”. No entanto, sem pressa. Sem uma data marcada para o lançamento, trabalhou até o momento em que achou que o disco estava fechado.

Produzido por Rafael Ramos, 'Setevidas' foi gestado de uma maneira diferente dos álbuns anteriores. Com uma pré-produção bem feita, só chegou ao estúdio para gravar quando as canções estavam fechadas. Foi tudo gravado ao vivo, “olho no olho”, sem quaisquer artifícios. Uma vez pronto, fez o que chama de perfumaria. Um coro aqui, uma guitarra dobrada ali, percussão mais adiante, detalhes que vêm à tona a cada nova audição do álbum. Com esse material gravado, partiu para os Estados Unidos. Em Austin, trabalhou com Tim Palmer (que traz no currículo Pearl Jam, U2, David Bowie, Robert Plant e Ozzy Osbourne), responsável pela mixagem e por vários pequenos detalhes. De lá voou para Nova York, onde a masterização foi realizada por Ted Jansen no Sterling Sound, estúdio-referência no meio. “O som é garageiro, mas com uma elegância. Peguei o melhor dos dois mundos”, diz Pitty.

Uma década como a principal voz feminina do rock do chamado mainstream fez Pitty se sofisticar. A voz não grita mais, ainda que continue potente. A sonoridade também tem detalhes, mesmo que 'Setevidas' seja um álbum essencialmente de rock. “Com a idade a gente vai descobrindo outras coisas. No meu canto, por exemplo, vi que para ser pesado não preciso gritar. Tem hora que tenho que gritar também, mas não de forma gratuita. Talvez com o Agridoce eu tenha descoberto um tom mais baixo, que traz um certo mistério.”

'Pouco', a faixa de abertura, começa em alta rotação, com ênfase nas guitarras. 'Deixa ela entrar' é um rock mais melodioso. 'Pequena morte' fala sobre o orgasmo de maneira metafórica, enquanto 'A massa' e 'Boca aberta' atacam o materialismo. O clima arrefece em 'Lado de lá', balada com um toque de psicodelia marcada por um piano executado pela própria Pitty. A faixa-título conta com uma contribuição de peso: o saxofone de Carlos Malta. Já 'Serpente', a última faixa do álbum, é a mais original do disco. Aqui Pitty explora a percussão, que casa perfeitamente com um coro, que dá um tom meio de hino à canção. “O que em 'Serpente' é mais evidente está na verdade no disco todo. A ideia era ficar mais sutil”, sintetiza Pitty.

Três perguntas para...
Pitty
cantora e compositora


Tim Palmer teve uma participação maior do que a mixagem, tanto que o encarte traz isso explícito (com a frase “Alguns segredos adicionados por Tim Palmer”). Como se deu a participação dele?

No 'Chiaroscuro', a gente gravou ao vivo, mas neste foi ainda mais. No outro disco tinha um tapume que isolava cada um de nós (músicos). Neste, estávamos no estúdio cada um olhando no olho do outro, era zero de isolamento. Como a gente gravou de uma maneira bem garageira, sabíamos que para que o disco não ficasse com som de fita demo, teríamos que ter uma mixagem poderosa, que trouxesse algo mais elegante para o som. Fomos para a casa do Tim Palmer em Austin, e foi demais. Ele acabou se empolgando com o projeto, acrescentando elementos. Tem um teclado no início de uma música, uma pausa onde não havia, ou seja, ele contribuiu de forma efetiva. Hoje em dia não me contento mais com power trio. Então, uma vez que as bases estavam gravadas, acrescentamos os detalhes, timbres, coisas sutis que tem gente que não vai perceber. É a chamada perfumaria.

Como você vê o cenário do rock hoje? Nos últimos cinco anos o rock vem atravessando um caminho complicado, com menos espaço e bandas, não?

Olhando agora para o cenário do rock, acho que estamos voltando para um bom momento. A fase da pasteurização, da infantilização das coisas, está passando. Veja, muita gente bacana está lançando discos, os Titãs, os Vespas (Mandarinas)... E duas das rádios de rock estão de volta (89 de São Paulo e Cidade do Rio de Janeiro). E a verdade é que nunca fiz um disco pensando se vai tocar (em rádio) ou não. Não dá para fazer arte pensando nisso, pois você fica muito preso. Para este disco, fiz o que achava que era verdade para mim.

Quando você lançou seu primeiro álbum, Admirável chip novo, era uma garota de 20 e poucos anos. Onze anos mais tarde, já próxima dos 40, sente que seu público está envelhecendo com você?

Estava falando isso há pouco: quem ainda tem aquela imagem de mim e da minha banda como coisa de adolescente está atrasado 11 anos. Meu público também cresceu. Claro que (nos shows) vai ter sempre uma parcela de molecada, mas eles não são maioria faz tempo. Só tem barbado na roda de pogo (concentração em frente ao palco, sujeita a trombadas e empurrões)! Hoje a galera é mais da minha idade, a identificação é maior.

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