Titãs retomam discurso contestador em álbum de inéditas 'Nheengatu'

Reduzida a quarteto, banda preparou disco sem pressão de gravadora e com liberdade para experimentar

por Mariana Peixoto 18/05/2014 13:03

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MARCOS HERMES/DIVULGAÇÃO
Tony Belloto, Branco Mello, Sérgio Britto e Paulo Miklos retomam o pique do clássico Cabeça dinossauro (foto: MARCOS HERMES/DIVULGAÇÃO)
Sem a turnê de 'Cabeça dinossauro', que fez os Titãs correrem o país em 2012, não haveria 'Nheengatu'. O novo álbum do quarteto (outrora octeto), que sobrevive há três décadas, é uma grande crônica político-social. Pode não tocar no rádio, como ocorria no início deste século, mas é mais relevante do que qualquer canção da fase “melhor banda da última semana”.

 

“Polícia para quem precisa”, eles pregavam em 1986. “Por que você não abaixa esse escudo/ O meu direito é sua obrigação”, diz 'Fardado', o primeiro single do redivivo Titãs, restrito a Paulo Miklos, Tony Bellotto, Branco Mello e Sérgio Britto. Baterista que os acompanha desde a saída de Charles Gavin, Mário Fabre participou pela primeira vez de uma gravação de estúdio e chegou a colaborar em algumas canções.

As 14 faixas trazem vários dos temas que vêm ditando as manchetes do Brasil atual. A miséria que assola os grandes centros, com foco em São Paulo, QG do grupo, é descrita em 'Mensageiro da desgraça': “Vou vingar os meus irmãos/ Os que são queimados/ Enquanto dormem no chão”. 'República das bananas' e 'Chegada ao Brasil (Terra à vista)' apostam na ironia,

 

'Fala, Renata' centra foco no palavrório inútil das redes sociais e 'Quem são os animais?' na homofobia. Há letras mais pesadas, como 'Pedofilia', que começa com o seguinte verso: “Ele disse: ‘esse é o nosso segredo/ E ninguém mais precisa saber’; ou então 'Cadáver sobre cadáver' (parceria do ex-titã Arnaldo Antunes com Paulo Miklos): “Morrem na guerra ou na paz/ De fome ou de anorexia”.

Ouça 'Quem são os animais', do novo álbum dos Titãs:

 

Produzido por Rafael Ramos, que trabalhou com a banda pela primeira vez, o disco foi gestado sem pressa, pois não havia contrato com gravadora, tampouco obrigação. Uma vez pronto, o grupo fechou contrato com a Som Livre. Pela ausência de prazos, criou, depois da turnê de Cabeça, um novo show, Inéditos, que trouxe 10 novas canções. Azeitadas no decorrer das apresentações, elas foram gravadas em fevereiro, quando a banda se trancou em estúdio durante um mês. Foram incluídas outras músicas, como 'Canalha' (Walter Franco), a única não autoral do disco.

Criada no século 17, nheengatu é uma língua derivada do tupi-guarani. A intenção dos jesuítas, que a inventaram, era unir as diferentes tribos indígenas. O título vem ao encontro da sonoridade da banda. É um álbum de rock pesado, como 'Cabeça dinossauro'. Mas com musicalidade mais ampla, trazendo diferentes sotaques. 'Fala, Renata', por exemplo, transpõe para a guitarra a linguagem das bandas de pífanos. 'Baião de dois' é mais explícita: cita de uma vez só Cartola ('O mundo é um moinho'), Pixinguinha ('A vida é um buraco'), Noel Rosa ('O mundo me condena'), e Rita Lee e Tom Zé ('A vida me ultrapassa').

“Hoje em dia, ninguém quer tocar novidade. A gente resolveu remar contra a maré”, afirma Tony Bellotto. Bola dentro dos Titãs contra a mesmice.

 

Conheça a faixa 'Baião de dois', do álbum 'Nheengatu':

Três perguntas para Tony Belotto, guitarrista

 

'Nheengatu' dialoga muito mais com os Titãs dos anos 1980 do que com a produção mais contemporânea da banda, não?
Ainda que o disco seja diferente, o Brasil de hoje pode ser comparado com o Brasil de Cabeça. Naquele momento (1986), o país vivia a inquietação, o que nos dava a sensação de as coisas estarem saindo um pouco do controle. O fato de a turnê do Cabeça dinossauro (de 2012) ter sido tão bem-sucedida acabou nos trazendo a certeza de que deveríamos fazer um disco pesado. Resolvemos radicalizar, não fazer música para tocar em rádio.

O tom de crônica político-social permeia todo o álbum. Como ele foi definido?
Quando resolvemos falar sobre o Brasil, pensamos em elementos da música brasileira. Vimos que o país de hoje permite uma crônica de várias situações absurdas. Isso era uma característica do samba dos anos 1940, os compositores comentavam o que estava ocorrendo. Hoje em dia, está tudo padronizado... Quando vimos a cara com que o disco estava ficando, falando de homofobia, racismo e violência contra a mulher, pensamos: por que não a pedofilia? Nenhuma canção brasileira que conheço ousou falar desse tema.
 
Você ouve o rock produzido atualmente no Brasil?
Meio en passant, sem a atenção devida. Tenho a impressão de que o rock perdeu, nos últimos tempos, a força de um discurso mais contestador. Hoje, é só conversa de amor, modo de vida adolescente... As questões mais políticas migraram para o rap. Só que rap não é rock. A gente vê (nos shows dos Titãs) muita garotada com ânsia de ouvir rock de verdade. De certa maneira, ele vem ganhando força, as “rádios rock” de Rio e São Paulo estão voltando. Até pela situação política atual, o rock está se fazendo mais presente. Pois, nessas horas, só o rock explica, comenta de maneira contundente. Sambinha nenhum vai explicar o que está acontecendo.

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