Há 35 anos, o grupo britânico Marillion resiste aos modismos da cena do pop rock

Pioneira do crowdfunding, a banda sobreviveu à saída do cantor Fish e à crise do mercado fonográfico

por Mariana Peixoto 08/05/2014 07:30

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JILL FURMANOVSKY/DIVULGAÇÃO
(foto: JILL FURMANOVSKY/DIVULGAÇÃO)
Não há como negar o quão pejorativo é chamar uma banda de jurássica, os músicos de dinossauros. Pois os ingleses do Marillion se encaixam nesse rótulo, que, mais dia menos dia, atinge grupos longevos: sua formação é de 1979 e o álbum de estreia, 'Script for a Jester’s tear', de 1983. Ainda por cima, eles foram encaixados no rótulo do rock progressivo, ainda que pertençam à geração posterior à de Genesis, Yes e Pink Floyd. Dito isso, vale acrescentar: esses mesmos tiozinhos deram de lavada em muita bandinha indie que olha de lado para longos solos instrumentais, preciosismos musicais e letras viajantes – características que forjaram o prog rock.

Assim que o mercado fonográfico começou a dar sinais de que alguma grande mudança viria, os ingleses do Marillion saíram na frente. Já no início da década de 1990, quando perderam o contrato com uma grande gravadora (a EMI) e o vocalista e fundador Fish, resolveram colocar mãos à obra. Em meados dos anos 1990, quando a internet era discada e a banda larga sonho digno de romances de ficção científica, o grupo criou seu próprio domínio (www.marillion.com) e fez uma vaquinha virtual, o que sites especializados popularizaram atualmente como crowdfunding. A banda foi a primeira a usar tais artifícios, opção que a manteve na ativa e a fez dar uma banana para modismos, grandes gravadoras e modelos ultrapassados.

Foi justamente naquela década que o Marillion veio pela primeira vez a Belo Horizonte. Em junho de 1997, estreou por nossas plagas na Serraria Souza Pinto. Hoje à noite, o grupo faz o segundo show na capital, no Minascentro. Promoção cultural do Estado de Minas, com apoio da Guarani e do portal Uai, a apresentação abre a turnê nacional que passará por Rio de Janeiro e São Paulo.

Steve Hogarth (vocais), Steve Rothery (guitarra, o único integrante do Silmarillion, primeiro nome do grupo), Mark Kelly (teclados), Pete Trewavas (baixo – tanto ele quanto Kelly entraram para a banda no início dos anos 1980) e Ian Mosley (bateria) vão tocar os hits oitentistas 'Kayleigh' e 'Lavender', bem como músicas da mesma fase ('Heart of Lothian'), além de outras mais atuais, como 'Neverland' e 'Sounds that can’t be made'. Todas estão em 'Best sounds', álbum que a banda licenciou para o mercado brasileiro pelo selo Substancial Produções e chega junto com a turnê.

“Todos vão concordar: ficar 30 anos juntos já é uma razão e tanto para celebrar”, afirma o baixista Pete Trewavas em entrevista ao Estado de Minas.

Entrevista com Pete Trewavas / Baixista

"Crowdfunding faz com que o fã se sinta especial"

Em mais de 30 anos, e mesmo com mudanças de seus integrantes, o Marillion nunca parou. A que você credita a permanência do grupo por tanto tempo?


Em primeiro lugar, somos fãs de música. Começamos a tocar juntos porque tínhamos interesses em comum, a música é um deles, e queríamos explorá-la da melhor maneira possível. À medida que crescemos como músicos e como banda, buscamos manter a ideia inicial. O mais importante é que tentamos manter frescor em nossa música. Logicamente, muita coisa mudou. Quando fazíamos parte da EMI, era pesado. Com o álbum 'Misplaced childhood' (1985), ficamos 18 meses em turnê. Foi difícil, mas nos últimos 10, 15 anos conseguimos ter o controle do nosso próprio destino. Hoje, comandamos o negócio, licenciamos músicas e discos para outras gravadoras, por exemplo.

Por falar nisso, a internet, uma vilã para muitas bandas veteranas, sempre foi usada com inteligência pelo Marillion. Foram vocês a primeira banda a apostar no crowdfunding, não?

Aquilo começou no início dos anos 1990, quando assinamos com um pequeno selo independente norte-americano que não tinha condições de produzir uma turnê nos EUA. Foi até mesmo antes da internet, como a conhecemos. Naquela época, havia a conexão discada em instituições e universidades. Pois o Mark (Kelly, tecladista da banda) entrou num grupo de discussão on-line e alguns fãs americanos começaram a perguntar se a gente faria turnê. Ele disse que não, pois o selo não tinha dinheiro para bancá-la. Daí um cara escreveu: “Pagaria US$ 100 para ver o Marillion. Por que não tentamos e vemos até onde isso vai?”. Quando percebemos, foram arrecadados US$ 40 mil. Pensamos que devíamos começar a tomar as rédeas daquilo. Só que não dava para tocar para todos que contribuíram, pois era gente de todas as regiões dos EUA. Então, pensamos numa maneira de dar retorno a quem doou mais de US$ 10. Fizemos edição superlimitada de um álbum que nunca mais seria reimpresso. Depois disso, criamos um fã-clube e acabamos, ao final, arrecadando US$ 70 mil. Foi aí que o selo resolveu investir na gente e liberou US$ 70 mil para a turnê. Diante disso, tiramos duas conclusões: há fãs que realmente acreditam na gente e a internet teria muito poder no futuro. Levou alguns anos para ela vir a ser algo próximo do que é hoje. No começo era discada – coisa de nerd e geek. Assim que foi possível, criamos o nosso próprio domínio (marillion.com) e colocamos o fã para investir em cada álbum.

E vocês continuam a agir dessa maneira?


Sim, porque uma vez que você começa essa relação os fãs abraçam a causa. Se você não faz assim, eles sentem falta. Uns três, quatro álbuns atrás, resolvemos que não iríamos recorrer ao crowdfunding, lançaríamos apenas um disco simples, sem edição especial. Muitos fãs se desapontaram, pois sentiram que não estavam fazendo parte daquilo. O crowdfunding faz com que eles se sintam especiais. No nosso caso, resolvemos que o dinheiro poderia ser investido de diferentes maneiras: podemos levar mais tempo gravando um álbum, escolher um estúdio melhor. 'Sounds that can’t be made' (2012), por exemplo, foi em parte gravado no estúdio de Peter Gabriel (Real World, referência no meio), que é fantástico. Uma experiência como essa acrescenta algo ao trabalho.

O Marillion de hoje, com o vocalista Steve Hogarth, é muito diferente do Marillion da primeira década, comandado pelo Fish?

As duas bandas nasceram com a mesma direção: explorar a música e tentar fazer com que não existam fronteiras. Sempre quisemos ser experimentais, mas acabamos rotulados como rock progressivo. Temos até um lado progressivo, mas também algo além. Não poderia dizer que Kayleigh é progressiva; Lavender sempre me lembrou, de alguma maneira, Beatles. Fizemos quatro álbuns com Fish, todos únicos e especiais. Quando Fish saiu da banda, ela implodiu – era algo inevitável. Trabalhávamos muito na época por causa da EMI. Quando Steve chegou, a vida era outra, os caminhos diferentes.

MARILLION
Nesta quinta-feira, às 22h30. Minascentro, Avenida Augusto de Lima, 785, Centro, (31) 3217-7900. Às 20h, abertura com a banda Dogma. Ingressos: R$ 290 e R$ 145 (meia).

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