Janelle Monáe volta a surpreender com a edição do álbum 'The electric lady'

Cantora norte-americana leva a outros planos os conceitos em torno do rhythm'n'blues

por Arthur G. Couto Duarte 04/05/2014 07:00

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Andrew Innerarity/Reuters-9/4/14
Com a segurança de uma veterana, Janelle Monáe soube ousar em seu mais novo trabalho (foto: Andrew Innerarity/Reuters-9/4/14)
Não, aqui não tivemos a intenção de nos referir ao codinome adotado pela radical pintora corporal e tatuadora norte americana Nikki Davi. Muito menos ao sofrível álbum que a blueswoman inglesa Elkie Brooks lançou sem alarde, em 2005, ou ao homônimo e insólito museu localizado em Amsterdã – o único dedicado a exposições de arte fluorescente. Profeticamente forjado há quase 50 anos pelo finado Jimi Hendrix – além de dar nome ao futurista estúdio de gravação montado por ele em Nova York, por volta de 1968 –, o termo também lhe serviu de mote na hora de batizar seu até hoje revolucionário álbum duplo. 'Electric ladyland', aquela antevista “mulher elétrica” pelo guitarrista em alguma de suas acid trips, finalmente conseguiu se materializar em carne e osso: Janelle Monáe.

Se em 'Archandroid – Suites I and II' (2010), esta cantora e compositora egressa do estado norte-americano do Kansas se inspirou em Maria – a mulher-robô imortalizada pelo cineasta alemão Fritz Lang no clássico sci-fi 'Metropolis' – para protagonizar Cindi Mayweather, uma androide que acaba se apaixonando por um ser humano no ano de 2719, Monáe agora dá sequência às aventuras de seu alter-ego no CD 'The Electric Lady – Suites IV and V'. Uma saga retrouturista que ainda será desdobrada em outras duas suites (!) de modo a desvelar um universo distópico onde o amor e a liberdade foram suprimidos por um misto de ditadura totalitária e organização secreta chamada The Great Divide.

Citações Híbrido feminino gerado em laboratório a partir de manipulações e fusões dos genes de Fela Kuti, James Brown, Miles Davis, Aretha Franklyn, Nat King Cole e do citado Hendrix, uma vez mais a ainda iniciante Monáe dá mostras de raro brilhantismo, desnorteando fãs com sinestésicas melodias e arranjos que aglutinam elementos do rock psicodélico, de esquecidas polirritmias tribais, da soul music, do hip-hop, do punk, do funk, do gospel e do jazz. Em termos de visual e figurino, uma profusão de detalhes também se coaduna à perfeição com as propostas da artista: não satisfeita em repaginar o look andrógino antecipado por Grace Jones e Ziggy Stardust, ela também foi buscar inspiração nos bizarros personagens criados por mestres de literatura fantástica como Isaac Asimov, Octavia E. Butler e Philip K. Dick.

Aliás, foi justamente sua nada ortodoxa reestruturação da teoria do afro-futurismo e da utópica diáspora negra – segundo o malucaço jazzista Sun Ra, não teria sido a escravidão comandada pelos europeus a partir de 1500 que levou sua raça a se espalhar pela Terra, mas uma migração espacial ocorrida milênios atrás, já que ele acreditava piamente ter nascido em Saturno! – que mostrou aos céticos ser Janelle Monáe uma outsdider nada simplória, sem conexões com os modismos rasteiros da música urbana dos Estados Unidos. Desde sua irrupção em 2007, ela tem procurado instilar em sua obra irreverentes questionamentos sobre cultura, politica, estética e o realismo mágico. Artesã de canções tão encantadoras e perturbadoras, tal grandiloquência épico-feérica engendrou as 19 faixas da trama que se abriga em 'The Electric Lady'.

Lá aparecem convidados do peso de Prince. Ainda lascivo como nos tempos do polêmico 'Dirty mind', o verticalmente prejudicado mulato de Minneapolis ateia fogo ao dueto que a dupla forjou (sob a inspiração do incêndio do casarão do filme 'Django livre', de Quentin Tarantino) para o funk-rock 'Givin’ em what they love'. Outra é Erykah Badu, com rap e linhas pesadas de sintetizador como armas que as irmãs do neo-soul se valeram para inebriar geral na estupefaciente 'Q.U.E.E.N.'. Já Solange Knowles, irmã mais nova de Beyoncé, despacha com veemência o autêntico hino pró girl-power que agita a faixa-título. E Esperanza Spalding em uma participação em 'Dorothy’s Dandrige eyes' que soa como Quincy Jones, Stevie Wonder e Michael Jackson flutuando, entre multicoloridas bolhas de sabão, no interior de uma jacuzzi espacial. Todos parecem não se importar quando tropeçam uns sobre os outros, já que se empenharam realmente em insuflar até não poder mais outro dos múltiplos desdobramentos sônicos vertidos em forma de subversivo devaneio por La Monáe.

Enfim, após tão vertiginosa viagem – pense em uma versão mega-acelerada das subidas e descidas proporcionadas por um passeio em uma desgovernada montanha-russa – que nos chacoalha de um lado para o outro, o tempo todo, para além dos limites mapeados do espaço e do tempo, impossível não parafrasear o título do livro do Philip K Dick no intuito de obter uma síntese para o novo CD da hiperativa Janelle Mónae. Um no mais das vezes incompreendido visionário teofânico que, quase meio século atrás, inspirou Ridley Scott a filmar o antológico Blade Runner e a se perguntar: “Será que androides sonham com mulheres elétricas?”

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