Zé da Flauta comemora 40 anos de carreira

Músico se inspira em músicas feitas para videogames e critica programação de rádios e TVs

por AD Luna 10/04/2014 09:13

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 Blenda Souto Maior/DP/D.A Press
O músico e produtor Zé da Flauta se reuniu com músicos da banda thrash Hanagorik (foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press)
Casa Forte, bairro nobre da Zona Norte do Recife. Mal apertamos a campainha de uma residência próxima ao Museu do Homem do Nordeste, e logo somos recebidos por uma animadíssima criatura de quatro patas. “O nome dele é Firula, um ser que tem me ensinado bastante sobre a vida e sobre mim mesmo”, reflete José Vasconcelos de Oliveira, o Zé da Flauta, a respeito do seu cão vira-lata de estimação. Em 2014, o músico, compositor e produtor completa 60 anos de vida (em dezembro) e quatro décadas de carreira. Para ele, a melhor forma de comemorar as datas é tocando.

No ano passado, Zé da Flauta montou um grupo com músicos mais jovens que ele e gravou um EP com quatro músicas. “Me inspirei em Miles Davis, que, ao ser perguntado sobre o fato de fazer um jazz de vanguarda, mesmo não sendo mais jovem, dizia: ‘Só trabalho com crianças!’”. O primeiro show de divulgação aconteceu em dezembro de 2013, no JazzPorto - Festival de Jazz & Blues de Porto de Galinhas.

Além da juventude, Zé tece altos elogios à competência das suas “crianças”. Tuca Araújo, guitarrista, e Tontonho, baixista, integram o Hanagorik, banda de thrash metal de Arcoverde, cidade do sertão pernambucano. “Eles trabalham os arranjos comigo, trocam ideias e dão aquela injeção de ânimo, são duas pessoas muito especiais. O baterista é Rodrigo Barros, filho de Augusto Silva, da SpokFrevo. Garoto novo, 18 anos, e um tremendo músico. O tecladista é Willi Soares, que faz licenciatura em música na UFPE”, informa.

As faixas 'Phetus tull' (Zé da Flauta), 'Eurology' (Ian Anderson e Jethro Tull), 'Spider' (Uzeb) com citação a 'Juazeiro' (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) são focadas no hard rock, música nordestina, rock progressivo e jazz, estilos musicais bem presentes em sua formação. Influenciado por seu filho mais velho, Rafael Oliveira, Zé também adicionou a seu conjunto de inspirações criações musicais feitas para videogames.  É o caso de 'Geese Howard theme', música tema de um dos personagens do jogo eletrônico 'Fatal fury'. “Do pop ao clássico de hoje está tudo nos jogos, que são hoje uma ótima fonte de referência de música de qualidade. Nos dias atuais, se fomos depender do que se ouve nas rádios e TVs do Brasil, estamos lascados!”, critica.

Além de Pernambuco, Zé da Flauta e banda devem tocar em outros estados do país durante este ano. “Estamos terminando um projeto para inscrever em editais e enviar para Sescs de São Paulo”, adianta.


Ouça o EP de Zé da Flauta




O início
A primeira influência musical do então pequeno José Vasconcelos de Oliveira veio da sua avó materna, Elvira Humpker, que lhe dava aulas de piano quando ele tinha seis anos. “Ela fazia trilhas ao vivo para filmes mudo, nas décadas de 30 e 40 (do século passado), no Cinema Luan, que funcionava perto da praça de Casa Forte. Vovó os assistia pela manhã e tocava à tarde. E de improviso, sem partitura”, relembra Zé.

Primeiros ídolos e banda
Já adolescente, Zé conta que quase teve um ataque ao ouvir, pela primeira vez, Love me do, dos Beatles. Ele também descobriu a jovem guarda, nos anos 1960, e curtiu bastante Renato e Seus Blue Caps, Leno e Lílian, entre outros. Em 1972, com 18 anos, ele foi estudar no Conservatório Pernambucano de Música. No ano seguinte, formou com Laílson (baixo), Bira Total (bateria) e Paulo Rafael (guitarra), a banda Phetus. “A gente fazia rock progressivo com fortes influências nordestinas. Foi no Phetus que comecei a despertar para a música popular brasileira”, comenta. O grupo voltou em 2004 para alguns shows e para participar da gravação da coletânea A turma do Beco do Barato.

Alceu Valença
Em 1974, participou das gravações do lendário Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. O álbum foi lançado em 75, pela Rozemblit. Em novembro daquele ano, Lula (tricórdio), Zé Ramalho (viola), Zé da Flauta e Icinho (percussionista) juntaram-se aos músicos da Ave Sangria Ivinho (guitarra), Israel Semente (bateria) e Agrício Noya (percussão) para acompanhar Alceu Valença, a convite deste. Eles defenderam a música 'Vou danado pra Catende', no Festival Abertura da Rede Globo, em janeiro de 1975.



Café com Gonzagão
Entre abril de 1976 e agosto de 1979, Zé da Flauta fez parte da formação do Quinteto Violado. “Durante esse tempo aprendi muito sobre música popular. Só que na prática, ao conviver com meus ídolos Banda de Pífanos de Caruaru, Anastácia, Dominguinhos e Luiz Gonzaga, com o qual tomei diversos cafés da manhã, no tempo em que ele excursionou conosco”, orgulha-se.

Lenine na área
Em 1980, Zé da Flauta lançou o disco Caruá junto com o guitarrista Paulo Rafael. A maior parte das músicas do álbum é instrumental. Entre os convidados, Lula Côrtes, Luciano Pimentel (baterista do Quinteto Violado) e Lenine, que canta faixa Zé Piaba.

Produção
A partir do fim dos anos 1980, Zé da Flauta passou a produzir discos de músicos que curtia. Entre eles, os forrozeiros Jacinto Silva, Toinho das Alagoas, Heleno dos Oito Baixos, Edmílson do Pífano, a roqueira Querosene Jacaré ('Você não sabe da missa um terço', de 1997), 'REIginaldo Rossi - Um tributo' (1999), Alceu ao seu jeito, disco no qual a Hanagorik interpreta sucessos do cantor e compositor em versões metal.

Forró no Grammy
Compilado a partir de gravações, feitas por Zé da Flauta, dos forrozeiros Heleno dos 8 Baixos, Duda da Passira, José Orlando e Toinho de Alagoas, no início dos anos 1980, o disco 'Brazil: forró – music for maids and taxi drivers' conseguiu o feito de ter sido indicado ao Grammy. O disco foi distribuído internacionalmente e, no dia 20 de fevereiro de 1991, Zé participou da cerimônia de premiação, no Radio City Music Hall, em Nova Iorque. Brasil: forró - música para empregadas domésticas e taxistas (tradução do título) concorreu na categoria Traditional Folk, mas não levou. Entretanto, o feito rendeu muitos frutos para o produtor e para os músicos.


Assista à entrevista com o músico e produtor:


Histórias de Zé da Flauta

Origem do apelido
“Foi ideia de Alceu Valença. Quando eu e Zé Ramalho tocamos juntos na banda dele, era comum, durante os ensaios, Alceu chamar por Zé e os dois olharem. Daí ele completava: ‘É o da flauta’.  E assim ficou: Zé da Flauta”, explica.

Led Zeppelin e Dominguinhos
Em um dos seus inúmeros contatos com Dominguinhos, Zé da Flauta apresentou a famosa balada 'Starway to heaven', do grupo inglês, para o mestre da sanfona. “Ele prestou bastante atenção e, depois de ouvir a música inteira, elogiou tudo, a melodia etc. E arrematou: a vocalista canta muito bem. Ela é ótima!”, lembra Zé, em meio a gargalhadas. Acontece que a voz do Led era comandada por um homem, Robert Plant.

Gonzagão e Bob Marley
Durante o tempo em que Zé da Flauta tocou com o Quinteto Violado, a banda fez duas grandes turnês viajando e tocando junto com Luiz Gonzaga. Numa das viagens, feita num ônibus alugado pelo grupo, a rádio tocava uma música de Bob Marley, a qual o Rei do Baião acompanhava o ritmo batendo com o dedo no braço da poltrona. Vendo a cena, Zé da Flauta perguntou: “Curtindo um reggae aí, seu Luiz?”. Ao que o mestre respondeu: “Reggae? Isso é um xote metido a besta, rapaz!”.

 

 

 

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