Maria Rita fala sobre novo disco e comparações com Elis Regina

Cantora rebate as comparações com a mãe, "as pessoas que ousam dizer que eu a imito, perco o respeito na hora, fecho a porta na cara"

por Gabriel de Sá 07/04/2014 08:53

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Portalmariarita.wordpress.com / Reprodução
(foto: Portalmariarita.wordpress.com / Reprodução)
Rio –
Maria Rita começava a contar um caso sobre a mãe, Elis Regina, quando foi subitamente acometida por calafrios. “Eita!”, disparou, passando a mão pelo braço. As recordações, como se pode ver, ainda comovem e arrepiam, porém ser filha de uma das maiores cantoras do país já não assombra mais a intérprete de 36 anos, nascida em São Paulo.

Com pouco mais de uma década de carreira, cerca de dois milhões de discos vendidos e sete prêmios Grammy Latino na estante, Maria Rita, como ela mesmo diz, pode “dar uma banana” para quem acha que ela ainda imita a mãe, morta em 1982. Lançando novo álbum, Coração a batucar, repleto de sambas, a cantora recebeu a reportagem para uma conversa exclusiva de quase uma hora em um hotel no bairro carioca de Santa Teresa. Sincera e tagarela, mostrou-se muito mais extrovertida do que deixa transparecer: não fugiu a nenhuma questão e dissecou sem pudores a relação póstuma com a mãe.

ENTREVISTA

Você relutou, no começo da carreira, em abordar o repertório de sua mãe. Depois, acabou fazendo o projeto 'Redescobrir'. O que te fez mudar de ideia?
Pensei: quantos anos eu tenho? Quantos discos de ouro? Quantos países eu já visitei? Daí comecei a me perguntar o que eu devia para as pessoas (que me comparam a Elis). Nada. “Agora, tenho que provar para mim mesma. Eu sou capaz de cantar essas músicas?” Sou. E ninguém hoje no Brasil faz tão bem quanto eu fiz. Fiquei muito emocionada: estava lá como filha.

Hoje, você tem a mesma idade que sua mãe tinha quando morreu. Você está no auge e tem uma caminhada longa pela frente, algo que ela não pôde ter.
Isso mexe muito comigo. No dia em que eu fiz aniversário, foi estranho, como se eu tivesse perdido ela pela uma segunda vez. Agora eu estou sozinha, porque sei o que ela fez até os 36 anos. Minha mãe era genial, linda, e me inspira – como todas as mães e pais devem inspirar os filhos. Não tenho mais como comparar. Com 37, ela fez o quê? O que conquistei em 10 anos está longe do que ela teve. Mas não existe uma mãe e uma filha na música que conseguiram o mesmo sucesso que a gente fez. Os filhos do Lennon não chegaram lá. Os do Stevie Wonder também não. Depois de 10 anos, eu posso dar uma banana pra quem acha que eu ainda imito a minha mãe.

Comparações ainda te incomodam?
Não me incomodam porque ninguém nasce do nada. Filha de chocadeira, eu não sou. Acho as acusações inadmissíveis. As pessoas que ousam dizer que eu a imito, perco o respeito na hora, fecho a porta na cara. Uma mãe e uma filha são iguais porque é assim que a genética explica. Não estou inventando nada. Reconquistei uma relação com a minha mãe. Na adolescência, quando me sentia solitária, ouvia uma música dela e me sentia melhor. Larguei por causa dessas pessoas. Daí eu decidi que agora “vocês vão ver bem como é o negócio”.

Você é filha também de César Camargo Mariano. Pretende fazer algum projeto musical com ele?
Não. Já até pensei, mas meu pai é meu pai. Acho que se a gente trabalhar junto, eu não sei. Algo me diz que, pelo menos, não agora. Meu pai é muito experiente, ele é tão incrível no que faz, e eu sou tão centralizadora. Jogar nessa cumbuca o fato de ser pai e filha, eu não sei no que isso pode resultar.

Será publicada em breve uma biografia da Elis, escrita pelo jornalista Júlio Maria. Você já leu? O que acha de os filhos terem que aprovar esse tipo de publicação?

Estou com a prova do livro, mas não li ainda. Acho que essa vai ser “a” biografia de Elis, porque a outra ('Furacão Elis', de Regina Echeverria) não é, não. Existem situações e situações, mas, no geral, acho necessária a autorização, sim. Estão escrevendo uma biografia de uma pessoa que não está aqui pra contar o seu lado da história. Acho que o artista tem, sim, direito à privacidade. É uma interferência na vida de uma família. Fica um revanchismo de “quem manda ser famoso”. A pessoa que tem uma carreira pública, quando acorda de manhã, não é a mesma do palco. Tenho total direito de fazer com que meus filhos não saibam de algumas coisas da minha vida.

Você viu a peça 'Elis, a musical'?
Não, estava gravando na época. Não estou pronta para assistir, mas fico muito feliz com o resultado. Eu não tinha dúvidas de que o resultado seria honesto e íntegro. Na estreia, mandei um buquê para o elenco.

No novo disco, você canta 'Saco cheio', de Almir Guineto, que critica o fato de que “tudo que se faz na Terra/Se coloca Deus no meio”. Você acredita em Deus?
Não sou religiosa. Durante muito tempo, fui completamente ácida em relação a isso. Não conseguia acreditar em um deus que tirava a mãe de uma criança de 4 anos de idade. Então, minha relação de desentendimento passava pela perda da minha mãe. Mais tarde, tive um ataque de pânico e achei que fosse morrer. Comecei a perceber que tinha algo maior. Eu acredito em um deus. Acredito que aquele tal de Jesus Cristo existiu de verdade. Mas não sou de uma religião.

'Samba meu' (2007), seu primeiro disco de samba, passava a impressão de ser mais solar do que o 'Coração a batucar'. Isso reflete a fase que você vive atualmente?
Não. No 'Samba meu', queria que não ficassem dúvidas do tipo de samba que eu gosto de ouvir, de fazer. Comprei uma briga. Era outro momento, era a turma de quem eu frequentava a casa. Com esse, senti que não tinha que provar mais nada. Estou um pouco mais liberta. Acho que ele traz esse clima menos solar, apesar de eu não estar menos solar.

Xande de Pilares, líder do grupo 'Revelação', tem três músicas no disco novo. O que acha da segregação entre pagode e samba?
Longe de mim querer rotular. Queria muito ver alguém que me dissesse qual é a definição de um e de outro. O universo do samba é muito grande. Quando comecei a fazer a pesquisa de repertório do 'Samba meu', vi a imensidão desse gênero. Tem vertentes, tem história, tem tradições. E o que eu mais vejo por aí é uma rejeição ao termo samba de raiz. Você fala isso e o pessoal: “Eu não sou árvore”.

Durante a gravação de um disco, a gravadora se mete na questão artística?
Não. Com a minha primeira gravadora, eu tive o (Tom) Capone como fiel escudeiro, que brigou muito pelo meu direito de independência artística dentro da gravadora. Agora, na (minha atual gravadora), partiu deles a ideia de eu gravar o 'Coração a batucar'. Eles não se metem no meu trabalho, eu não me meto no deles. Quando falam “a gente precisa disso, disso e daquilo pro disco ficar pronto”, eu digo OK.

Isso ocorre por você ser uma artista de status diferenciado?
Acho que sim. Falando como empresária, se estou entregando resultado, tudo bem. Eu não entendo nada de marketing, não vou dizer o que eles fazem ou deixam de fazer. Temos uma parceria. A gravadora me disse que eles me entendem como uma artista de obra, que vende disco, não singles. Isso gera um conforto pra eles. Tem um lance com o público que faz com que o investimento valha a pena.

*O repórter viajou a convite da Universal Music

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